Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 21.04.12

     A falar verdade, a menina nem sequer gostava de hipopótamos. Nem muito nem pouco. Tinha visto um no Jardim Zoológico e achara-o «bué de feio»: cheio de pelancas a caírem-lhe umas sobre as outras como carapaças, um corpanzil enorme mas a terminar por uma cabeça relativamente pequena, de olhos quase fechados e orelhas que parecia terem pertencido a um leitãozinho, só que mais escuras, cor de terra, o que também não admirava, porque andava sempre a rebolar-se na lama. E, depois, aquela bocarra!

    

     Ficara, portanto, decidido: não gostava de hipopótamos. Até ao dia em que a Mami lhe apareceu em casa com um hipopótamo azul

que tinha um sinal particular: um coração vermelho no lugar do rabinho. Apesar de não achar esse lugar o mais adequado para ter o coração, achou graça e, na primeira oportunidade, correu logo a mostrá-lo à sua Vóvó. Além de que ficou muito contente e comovida, ao ouvir o que a Mãe lhe disse:

    

     - Ouve, filhota, o coração significa o amor que eu tenho por ti, não importa o sítio onde ele esteja ou onde estejas tu. É o meu coração, disso podes ter a certeza.

 

     A menina tinha muitos brinquedos, sobretudo animais de peluche, amorosos e fofinhos, mas logo colocou aquele à frente de todos, na prateleira, para o ver mal entrasse no quarto.

    

     Naquela noite, sem ninguém dar por isso, a bicharada reuniu-se toda e resolveu organizar uma recepção ao novo amigo. Mal imaginando o que estava para acontecer, fizeram danças de roda, pularam e pularam até ao amanhecer. Cansados pela folia nocturna, voltaram para os seus lugares na prateleira e, quando a menina acordou, fixou logo os seus lindos olhos, que também eram azuis, no seu querido hipopótamo.

 

     Tão querido que, daí a dias, quando decidiu com a Mami dar os seus peluches todos a meninos dum bairro pobre que nunca tinham tido brinquedos, a menina pediu:

 

     - Ó Mami! O hipopótamo não. Ainda há pouco mo deste e eu já estou habituada a ir para a cama, abraçadinha a ele. É tão fofinho, tão querido…Nunca julguei que alguém pudesse fazer um hipopótamo de veludo, tão suave e tão lindo, embora tenha algumas parecenças com o feioso do Jardim Zoológico.

 

     - Está bem, filha. Eu nunca faria isso e fico muito contente por gostares assim tanto do teu hipopótamo azul.

   

     - E do coraçãozinho vermelho que representa o teu amor por mim… Nunca me vou separar dele.

 

     A Mãe fez um sorriso enigmático – ela bem sabia que a menina havia de crescer e criar outros afectos – mas não disse nada.

 

     A partir desse dia, a menina nunca mais se esqueceu de levar o hipopótamo azul para onde quer que fosse e adormecia sempre abraçadinha a ele.

 

Importante

     Até quando? Sem deixar, de se lembrar do seu querido hipopótamo, a menina irá um dia pô-lo de lado. Pelo menos quando tiver o seu primeiro namorado, e, sem dúvida, quando tiver o seu primeiro filho, que lhe há-de ocupar os braços e o melhor lugar no seu coração. E daí, quem sabe? Talvez o guarde muito bem guardadinho para, quando chegar a altura certa, o oferecer a esse seu filho, como recordação duma Vóvó que, ao ver tal gesto, procurará esconder uma lágrima de emoção num sorriso de ternura.

publicado por clay às 16:03 | link do post | comentar | favorito
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