Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 05.06.12

 

 

Meus queridos netos:

 

 

            Comi hoje as primeiras cerejas do ano, com a mesma delícia de sempre, ou quase. Eram gradas, vermelhinhas, sumarentas mas faltava-lhes… o quê? Aquele enquadramento das folhas verdinhas da árvore, com os ramos pendentes, donde elas espreitavam, semiescondidas , fazendo parecer mais leve o trabalho dos que se ocupavam na sua apanha. Eram sobretudo mulheres, mas alegres, desembaraçadas, cuidadosas em preservar o pé do fruto, para sua mais prolongada duração. Eram também corajosas, pois como, muitas vezes, as cerejas mais baixas já tinham sido comidas pelos galináceos e outros animais da quinta, tinham de se arriscar a atingir os ramos mais altos, frágeis e tentadores pois eram os que se apresentavam mais guarnecidos de frutos, apesar das investidas dos pardais, gaios e outras aves, tão gulosas como eu do fruto abençoado.

 

            O Zezinho ainda não fez essa experiência, mas a Cristininha, agora no Algarve, teve o prazer de ir com o Pai e nós, os dois Avós, participar duma colheita, na quinta da Tia Maria Alice, então já muito doente, mas sempre acolhedora e simpática.

 

            A menina teve um grande desgosto de não a autorizarem a subir às tentadoras árvores mas, pouco a pouco, lá ia enchendo a sua cestinha de vime que, ufana, despejava na cesta grande do Pai. Foram uns dias de sonho, pelas cerejas, como pelo convívio não só com a família mas também com o rancho de mulheres palreiras que o meu cunhado tinha contratado para aquele trabalho sazonal.

 

           Como a quinta fica em pleno Alto-Douro, uma região encantadora onde as cerejas não são os únicos atrativos, demos imensos passeios de carro pelas maravilhas do Douro, Património da Humanidade: socalcos de vinhas, exibindo já os seus pâmpanos verdejantes, casas senhoriais cujo interior não tivemos oportunidade de visitar, mas de que, facilmente se adivinhava a beleza, paisagens de rochas imponentes debruçando-se no rio lá em baixo e, imaginem lá uma escadaria de madeira com quatrocentos degraus que só eu me atrevi a galgar. Os companheiros foram, de carro, buscar-me lá acima, o que lhes deu a oportunidade de contemplar mais uma vista deslumbrante: a Talisga.

 

            Fomos, uma tarde, visitar o Convento de S. Pedro das Águias, um original monumento medieval, cuja principal originalidade consiste em ter a porta da entrada voltada, a pequena distância, para um altíssimo rochedo. E o Douro sempre ao alcance dos nossos olhos!

 

            Num dos passeios, parámos em Valença do Douro e aproveitámos para, numa varanda sobre o rio Douro ali ao pé, comermos um rico lanche e, como não podia deixar de ser, a minha memória recuperou as muitas vezes em que, chegadas as férias grandes, eu vinha de Lisboa, de comboio e trocava a Faculdade por umas longas férias na minha aldeia, em casa dos meus Pais. Era o ninho: um lugar onde encontrava amor, distrações singelas e o descanso merecido.

 

 

            Se eu deixasse, as memórias nunca mais acabavam. Mas eu vinha falar de cerejas e o que se me apresenta sempre ao olhar é a minha netinha de oito anos, com o seu vestido de folhos e um chapeuzinho de palha com dois pares de cerejas a fingir de  brincos, risonha, sempre feliz e bem disposta. Que saudades!

 

                                   Lisboa, 6 de Junho de 2012

 

                                   Clementina Relvas

 

publicado por clay às 14:54 | link do post | comentar | favorito
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
VISITAS EFECTUADAS DEPOIS DE 23 JULHO 2012

contador de visitas
Visitas desde Maio de 2007

Contador de Visitas
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Junho 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
27
28
29
30
últ. comentários
Venha conhecer o nosso cantinho da escrita... Visi...
Querida Professora Acabei de ler o comentário da m...
Cara Drª Clementina Relvas,Vim hoje visitar o seu ...
Querida Vovó... ou Querida Professora:Para quem cu...
Querida Professora ,Estive uns tempos sem vir ao s...
Cara Sandra:É sempre um grande prazer e compensaçã...
Olá Cristina,tive o prazer de conhecer a su...
Dra Clementina :Fiquei feliz por receber uma respo...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Peço desculpa de só agor...
Lisboa, 20 de Maio de 2011Querida Maria José:Lamen...
mais sobre mim
blogs SAPO