Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 09.06.12

Meus queridos netos:

 

Não se trata de nenhuma história de fadas. Trata-se das festas dos Santos populares, especialmente as de Santo António, que são tradicionais em Lisboa e celebradas com muito entusiasmo popular e alegria.

 

Têm lugar na noite do próximo dia 13 de Junho e nesse mesmo dia, com arraiais, marchas populares de vários bairros antigos, missa na Igreja que, perto da Sé Patriarcal, foi erigida em seu nome já que, com S. Vicente, é um dos padroeiros de Lisboa. Outro acontecimento de relevo são os “casamentos de Santo António”, a que concorrem cerca de duas dezenas de noivos e a quem a Câmara Municipal paga os fatos (de noiva e respetivos acessórios, do noivo), faz transportar de carro e oferece, bem como aos familiares mais próximos, um lauto e delicioso “copo de água” com bolo de noiva e tudo.

 

 

Os festejos começam, como já disse, na véspera noite, com as ruas populares da Baixa antiga enxameada de tascas e esplanadas repletas de foliões, que se regalam com febras de porco na brasa, ou sardinhas assadas servidas com batatas cozidas salada:  de alface, pimentos grelhados , cebola crua, cortada às meias luas e temperada de sal, azeite e vinagre.

 

O prato favorito é a sardinha, que também se vende na rua, grelhada à porta de casa de muitos moradores e comida apenas entalada num apetitoso pão (papo-seco). Para muitos é, com os bailaricos a cada esquina, e uma boa cerveja, o sonho de todo o ano e por isso é considerada a Rainha da Festa. Eis o segredo anunciado no início da carta.

 

            Na manhã do dia seguinte, há a missa, os casamentos no civil (embora haja agora um movimento para a Câmara patrocinar os noivos que optarem pela cerimónia religiosa), o jantar da boda e, à noite, as marchas populares, obedecendo a um tema de carácter nacional ou local; são encenadas e interpretadas pelos moradores, em geral apadrinhadas por um par de artistas do teatro, da rádio ou televisão, escolhidos entre os mais famosos. Voluntários andam meses a preparar os fatos, de acordo com o tema, mas sempre muito originais e garridos. Cada um apresenta uma canção popular e uma coreografia que, depois de muitos ensaios, desfila longas horas pela Avenida da Liberdade superpovoada, habilitando-se ao primeiro lugar, segundo o julgamento dum júri especializado e daí tirando uma fama que não trocariam por nada.

 

           

Já me esquecia dos manjericos, com sua bandeirinha de papel e uma quadra popular, presentes por todo o lado, para serem oferecidos a namorados ou a simples amigos. Em meu entender, foram eles e as sardinhas que inspiraram a imorredoura canção que tem o verso: “Cheira bem, cheira a Lisboa”.

 

            Mas, voltando à nossa sardinha, além de ter o lugar de relevo nos cartazes coloridos que todos os anos publicitam as festas, estou bem em crer que uma das molas para esta movimentação popular são as sardinhas, abundantes e saborosas precisamente neste mês de Junho.

 

 

                                   Lisboa, 9 de Junho de 2012

 

                                   Clementina Relvas

  

publicado por clay às 00:34 | link do post | comentar | favorito
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