Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 06.11.12

                                                                                                                                                                   

           José Miranda Relvas.jpg

Meus queridos netos: 

 

   Em  5 de Novembro de 1893 nascia no concelho de Portalegre, freguesia da Urra, a vossa bisavó Inês. Faria hoje 119 anos se fosse viva!  

 

            Estava-se já, então, em plena época industrial. Na cidade havia uma grande fábrica inglesa, a Robinson, para o aproveitamento da cortiça. Era lá que a mãe da bisavó Inês, Casimira de seu nome, trabalhava com muitos outros empregados e empregadas. A fábrica tinha já preocupações sociais: entre outras regalias, tinha uma escola, de inspiração anglicana, onde os filhos do pessoal em idade escolar aprendiam a ler em português, a escrever com uma caligrafia impecável e também a fazer contas. Às meninas ensinavam, ainda, rudimentos de costura e de bordados. 

 

           A mãe, operária da fábrica, não tinha deixado passar essa oportunidade de dar à única filha, os conhecimentos a que ela nunca tivera acesso. E, assim, a Ignez, como então assinava, se tinha tornado uma menina muito prendada para o seu meio. Pequena, de feições miúdas mas regulares, tinha conquistado muitos afectos pela sua delicadeza e pela bondade do seu coração.

 

           E foi assim que viria a conquistar o coração de José, o vosso bisavô, ao tempo um rapaz que, feito o serviço militar, ao ter de escolher, quando decorria a primeira guerra mundial em que Portugal participou, entre França e o longínquo Timor, optou por este último para onde seguiu, e ali serviu quase até ao fim da sua vida, como sargento do exército e também em funções civis.

 

           Passados alguns anos, regressou à sua cidade, para se recompor dos males provocados por um clima adverso e pela solidão em que vivera, só mitigada pelas cartas da Inês, que demoravam a chegar. Ao reencontrar-se com aquela rapariga recatada e singela, não foi difícil convencê-la a casar consigo e a partir com ele para Timor.

 

          Decorria o ano de 1925 quando ficou grávida do seu primeiro filho, o vosso avô. Atrasos nos transportes, apenas marítimos naquele tempo, impediram que o vôvô nascesse em Timor ou em plena viagem, que chegava a durar dois meses e até mais! Finalmente, o menino nasceu em Portalegre e finalmente puderam partir, tinha ele apenas oito meses pelo que, ainda hoje, por graça, o Vôvô costuma perguntar: 

 

                 - Sabem que meio de transporte me levou para Timor?

 

 E, perante a curiosidade dos ouvintes, brinca, dizendo:

 

                 - Foi o colo da minha mãe!

 

                Timor, conhecido por Timor-Leste após a independência, por se tratar de cerca de metade duma ilha, era então uma colónia portuguesa, em que a outra parte pertencia  à Holanda e hoje à Indonésia.

 

                  Toda a ilha é extremamente montanhosa. Nela não existiam estradas; as deslocações eram penosas e demoradas, a dorso de cavalo, pelas íngremes e toscos caminhos através de montes e ravinas. Tatamailau, também conhecido por Montes Ramelau, com cerca de três mil metros de altitude, era o pico mais alto de todo o então território português, Não foi pois para aquela jovem franzina, propriamente um passeio turístico aprazível.

 

                Imaginemos, agora, uma menina criada na cidade, sempre ansiosa por ir passar algum tempo no monte alentejano da mãe do seu noivo. Aí, sentia uma grande felicidade, rodeada de árvores de fruto, animais domésticos e muitas flores plantadas na borda do tanque, onde a água permanentemente corria e dessedentava todos, com o cocho de cortiça sempre dependurado do muro caiado de branco e debruado a tinta azul. Como se haveria de sentir, transplantada, com a sua vida de recém-casada e um filho pequeno, para aquelas paragens tropicais, onde tudo era diferente e a sua própria língua incompreensível para os que a rodeavam e só se exprimiam em tétum.

 

              Mas depressa se habituou ao clima, ao ambiente, aos timorenses. Não era bem o seu Alto-Alentejo mas, nas várias localidades onde habitaram no decorrer dos anos, José bem procurou recriar um pouco do ambiente que deixara, promovendo com carinho o cultivo daquela terra fértil, onde cresciam tomates, cebolas, feijão-verde, alfaces, couves, enfim, tudo o que podia produzir aquele solo e clima. É verdade que dispunha de grande abundância de frutos exóticos: bananas, mangas, papaias, abacaxis, que mulheres do povo lhes iam vender à porta de casa. E também ovos, batata-doce, espigas de milho e outras iguarias locais. Mas, quando chegava a época das cerejas, ou das vindimas, ou das castanhas, aí as saudades apertavam, apertavam e doíam.

 

          Inês tinha uma máquina de costura e muito do seu tempo era passado a fazer roupinhas para o bebé, em breve dois e, mais tarde, quatro, todos rapazes. Os tecidos vinham, como aliás a maior parte dos produtos, incluindo os alimentares, de Surabaya, na Ilha de Java. Era também de lá que vinham os bébés, na crença dos mais miúdos! 

 

           Não tardou a ser procurada por mulheres timorenses, exímias na arte dos desfiados, uma espécie de crivo feito em bretanha finíssima e de que, geralmente, resultavam autênticas obras de arte, com anjos, flores, muita beleza e engenho. Na varanda da casa, trabalhavam horas infinitas, entregues ao seu trabalho e à espera de uma retribuição que aumentasse, um pouco, os seus parcos haveres. Com elas e com algumas senhoras da reduzida elite local, foi aprendendo algumas palavras e frases em tétum, indispensáveis à comunicação. Em breve trocavam receitas de culinária, especialmente de doces e passavam tardes inteiras a experimentá-las.

 

          E os anos foram passando, como sempre passam, sem a gente dar por eles. Os filhos cresceram, frequentaram as escolas da Missões Católicas em Maubara, em Manatuto, em Ainaro, conforme os postos administrativos em que o pai ia sendo colocado. Nessas escolas, as aulas eram ministradas em tétum, por missionários, que, na mesma língua, proferiam as homilias das missas, então ditas em latim. E os meninos, portugueses e timorenses, brincavam juntos a todos os jogos que conheciam no mais perfeito entendimento. A bisavó Inês, embora tivesse sido educada numa escola de inspiração anglicana, assistiu durante todos estes anos às Missas rezadas nas Missões Católicas, com todo o respeito e fervor. O vosso Vôvô conta que a única coisa diferente que a viu fazer foi ela, com uma pronunciada vénia,  pôr a mão direita na testa, sobre os olhos e em forma de pala, sempre que na missa se rezava o Pai-nosso, o Padre-nosso como naquele tempo se dizia.

 

         Chegou a altura em que o filho mais velho, o Vôvô claro, para poder frequentar o ensino secundário, que então acabara de ser criado em Timor, teve de deixar a casa paterna numa daquelas localidades e ir viver com a família dum amigo do Pai, em Dili, a capital. A adaptação foi difícil mas, em breve, as cartas para os Pais traziam notícias de bom aproveitamento, de integração no novo meio e de entusiasmo pelos novos amigos. Ele agora até costuma dizer, por graça, que foi um dos fundadores do ensino liceal em Timor! 

 

        Até que… Até que a Segunda Guerra Mundial se ia aproximando de Timor e o Pai, que se livrara da Primeira, trocando a França por Timor, resolveu, em 1939, trazer a família para a segurança da sua pacífica cidade natal, que deixara há vários e ininterruptos anos, no gozo da sua primeira licença graciosa, como então era designada. A vossa bisavó Inês esteve assim nada menos do que 14 anos seguidos sem voltar à terra que a viu nascer e a todos os seus familiares, principalmente a sua mãe Casimira, que encontrou já muito velhinha. O Vôvô e os seus três irmãos viram Portugal pela primeira vez já muito crescidos!

 

        A longa viagem de regresso, em vários navios de bandeira holandesa, que então dominava a região, foi um nunca mais acabar de aventuras para os quatro rapazes: de barco em barco, escalando vários portos em várias ilhas daquelas paragens orientais até chegarem a Batávia, a capital, hoje Jakarta. Aqui os pais adoeceram, com certa gravidade, principalmente a vossa bisavó, tendo-lhes valido a grande ajuda do cônsul honorário português, que curiosamente se chamava Remédios.

 

        O Sr. Remédios foi incansável e tudo fez até colocá-los num grande paquete holandês directo para a Europa, o "Indrapura", cujo destino era Génova e depois Lisboa. Foi uma viagem longa e sem incidentes, pois os pais haviam recuperado a saúde. Foi neste navio que os rapazes viram pela primeira vez na sua vida cinema sonoro, que ainda não tinha chegado a Timor: o Robin Hood com Errol Flynn.

 

       Mas a guerra mundial aumentara de intensidade e esperava-se que a Itália nela entrasse ao lado dos nazis, o que veio a acontecer. A Holanda acabava de ser ocupada pelos nazis pelo que o navio holandês teve de regressar à procedência. Por isso, a partida  teve de ser transferida para Nápoles, e foi para esta cidade que tiveram de se dirigir por via-férrea, onde embarcaram, finalmente, noutro grande paquete, agora de nacionalidade italiana, o "Satúrnia", que os trouxe até Lisboa, donde seguiram para a cidade natal dos pais, onde conheceram pela primeira vez as avós e restantes parentes.

 

         Ao chegarem à sua cidade, instalaram-se numa casa arrendada, no Centro, e prosseguiram os seus estudos em escolas adequadas às suas diferentes vocações. E temperavam as saudades de Timor e dos seus amigos, com visitas ao monte da Avó Maria, onde encontraram as delícias de que, tanto e em tom saudoso, lhes falava a sua Mãe.

 

          Mas , terminada a licença graciosa, o Bisavô teve de regressar, sozinho, a Timor, para aí cumprir o tempo de serviço que lhe faltava para a reforma. Só que “o homem põe e Deus dispõe” e, em breve, Timor foi invadido pelos japoneses, o que causou inúmeras mortes e fugas para a Austrália. Mas José recusou abandonar Timor, mantendo-se fiel ao Governador da Colónia e foi dos que, com alguns outros portugueses, acabaram por ser encerrados num campo de concentração, durante quatro anos, sujeitos à disciplina e ao rigor desses lugares.

 

        Mas, também na Metrópole, reinava o mais completo desconhecimento do que, entretanto, ocorria em Timor. As famílias ignoravam se os seus parentes estavam vivos ou mortos, num sofrimento inexprimível.

 

        E assim se passaram quatro longos anos. Eram os duros anos da guerra, em que tudo escasseava e as famílias estavam dependentes das senhas de racionamento e da espera, em longas filas, para comprarem fosse o que fosse, pois tudo era essencial à sobrevivência.

 

       A Inês estava agora sozinha, com quatro filhos ainda menores a seu cargo e, ao fim de algum tempo, um mísero subsídio do Estado, que, mal imaginava, um dia seria obrigada a devolver. Valia-lhe um pouco a fartura do monte da sogra, donde lhe vinham as batatas, o azeite, produtos hortícolas e frutas da estação, bem como um ou outro animal de capoeira que lhes enriquecia algumas refeições. Mas era preciso vestir e calçar os quatro rapazes, de modo a que se apresentassem decentes nas escolas e pudessem ir, ainda que raramente, a uma sessão do único cinema da terra. E tudo isto ela conseguiu, com muita valentia, muita luta e luto no coração.

 

        Até que um dia feliz… Também há dias felizes ou, como diz o povo, “não há mal que sempre dure”, tiveram a notícia que justificava as esperanças sempre presentes nos seus corações: o Pai estava vivo e regressava com os restantes portugueses, libertos após a derrota do Japão, mas todos exaustos e muitos deles gravemente doentes. Foi assim que, numa consulta de oftalmologia, o Bisavô veio a saber que estava a ficar cego devido à diabetes que tantos anos de má nutrição lhe tinham provocado. E começou o longo calvário da dieta e da insulina diária…

 

       Conta o Vôvô que, quando na altura tinha quase vinte anos de idade e viu o Pai desembarcar em Lisboa, quase o não reconheceu,  tão magrinho ele se apresentava, com um fato muito largo que lhe deram quando foi libertado. E era o único bem que trazia... perdão, sob um braço transportava um pequeno embrulho. Era a Bandeira Nacional que durante quatro anos nunca deixou de estar hasteada no campo de concentração. Esta bandeira encontra-se hoje na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no Palácio do mesmo nome junto à Praça do Rossio de Lisboa, doada àquela Instituição pelo Vôvô em comovente cerimónia celebrada há alguns anos no salão nobre daquele palácio.

 

      Apesar de tantas tribulações a heroica Inês viveu, embora para o fim bastante doente, até uma idade avançada depois de ter visto partir o José e a Mãe centenária, de que desveladamente cuidara, na sua quase cegueira e outras limitações.

 

     Entretanto, viu os filhos casados e felizes e a chegada de seis netos, todos rapazes, que muito acarinhava.

 

     Há vidas assim: Aparentemente banais, apagadas, mas que escondem autênticas heroínas do quotidiano.

 

      Lisboa, 5 de Novembro de 2012

 

      Clementina Relvas                                        

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