Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 13.11.12

              Sonhos e realidades. Sonhos para os têm a vida pela frente e realidades, embora saudosas, para os que já viveram muito, horas boas e más, sucessos e derrotas, amores correspondidos ou desencontrados. Que a vida é assim: feita de altos e baixos e nós sempre na esperança de que, se corre mal, em breve nos traga mudanças para melhor. E às vezes traz: geralmente são apenas felicidades passageiras, mas é assim que arranjamos forças para seguir adiante. E vencer. Ou não.

            Gonçalo é um jovem cheio de ilusões, como é próprio dos seus dezanove anos. Tem tanta energia dentro de si, que não pode prescindir do seu sótão, uma pequena divisão atravancada com os ícones da sua escolha: um computador de secretária, uma foto de Figo, um cachecol da Selecção e uma bandeira de Portugal, que o acompanha sempre até ao Estádio do Benfica. Numa mesa, ao fundo, impõe-se a presença de partes dum carro, um modelo Hispano-Suíza J 12, de 1932, em cuja recuperação tem ocupado largas horas. Mas a sua grande paixão é um grande rádio, de válvulas, do tamanho dum corpo humano, com a imponente coluna de som carinhosamente resguardada por uma velha toalha, que já nem sabe por que artes ou feitiços ali veio parar. Deixou a meio um curso superior, arrastado pela magia da rádio, mas nunca largou os seus velhos hobbies. Dedica-lhes todos os seus tempos livres que não são muitos, pois também gosta de nadar e de assistir ou, pelo menos de acompanhar pela rádio, os jogos em que entre o seu clube, de que, por vontade de seu pai, é sócio desde que nasceu.

             A noite está pavorosa: súbitos relâmpagos cortam o céu e este, agora, ajudou-o a encontrar o interruptor, que inunda o sótão de luz e o seu coração duma alegria quase infantil, pois assim será mais fácil receber das mãos do carregador, que contratou numa esquina da Baixa, o enorme e pesado caixote, a abarrotar de peças para continuar a montagem do seu Hispano-Suíza. E que lhe irá proporcionar - disso tem ele a certeza, momentos de profunda exaltação pois, embora o carregador olhe para aquela tralha com estranheza e algum desprezo, não é um jovem qualquer que pode dispor assim, de pé para a mão, dum carro que foi nem mais menos, do que uma prova de optimismo contra a Grande Depressão de 1929 e o profundo desânimo em que todos se sentiram naufragados.

            Molhado até aos ossos, o carregador aceita, reconhecido, a toalha que Gonçalo lhe estende. Enquanto se vai enxugando e encorajado pela simpatia do rapaz, não se contém que não diga:

          -Tem aqui um belo poiso. E bem prático para trazer as suas amiguinhas, sem a família se meter na sua vida…

          - Engana-se redondamente. A minha família conhece-me e habituou-se às minhas engenhocas desde o tempo em que comecei a desmontar e a tentar montar cada brinquedo que me ofereciam, principalmente nos anos e pelo Natal. Até que passaram a chamar-me o sonhador da família. E, como o meu Avô tinha aqui, desocupado, este sótão da casa onde morou muitos anos e acabou por alugar, foi ele próprio quem, no dia em que terminei o Liceu, me disse, com um misto de satisfação e de ironia:

          - Olha, rapaz, se tu quiseres, podes instalar-te no meu velho sótão e assim pores fim às reclamações da tua Mãe, sempre a tropeçar, diz ela, nas tuas “invencionices”.

          - E o Avô? Vai pôr de lado as suas “bricolages”, que lhe dão tanto prazer e nos acodem quando qualquer coisa se avaria, levando a uma unânime certeza: “O Avô ajuda». Mas claro que não me podia dar melhor oferta… E sabe como lhe vou chamar? A minha caixinha de sonhos.

          - Pois que ela te proporcione muitos e belos sonhos e, sobretudo que tu, com a tua inteligência e sensibilidade, os consigas transformar em realidades. Quanto a mim, agora que os anos já me pesam, cá virei de vez em quando e até, se quiseres, te darei algumas dicas, principalmente nas electricidades, que sempre me fascinaram. Mas não contes muito com as  minhas mãos.

          - Há uma coisa que me está a fazer uma grande confusão: porque é que o Avô tem isto cheio de velharias e não tem uma televisão, que agora já ninguém dispensa? Assim, devia ser uma grande pasmaceira…

          - Não para mim. Parece mentira, mas a televisão nunca me atraiu. A rádio, sim. A rádio é outra coisa. Nem eu saberia viver sem ela. A rádio é um mistério, um feitiço e uma paixão.

          - A rádio? Como sabe, eu herdei essa sua paixão. Mas, sem bonecos, sem podermos ver os lances do futebol e os falhanços dos árbitros, que tanto jeito nos dão para as conversas de café e até no trabalho. Olhe que às segundas feiras…

          -Tudo isso é verdade. Mas acredita: a rádio é que sabe de que são feitos os sonhos. E o que eu tenho sonhado! Ponho-me a ouvir rádio e lá vou eu, atrás da sua magia. Conheci cantoras que me apaixonavam e por quem eu me apaixonava. E, quanto ao futebol, tenho de te confessar que, mesmo quando, anos depois do meu desastre, ia assistir ao vivo, a um desafio, nunca largava o meu rádio transístor.. Ficava mais preso às vozes dos locutores, sobretudo quando se tratava dum Artur Agostinho ou dum Lança Moreira, do que aos passes no relvado. E, na altura dos remates, quando o locutor alonga quase até ao fim do mundo o seu grito estridente Gooooooooooooooooool, gostava de estar perto de alguém que seguisse o jogo pela rádio. Olha que, às vezes, até me fazia pele de galinha.

         - A rádio é mesmo assim. Tem caprichos de mulher… Quando não é bem tratada, dá choque. Mas quando se torna a mulher da nossa vida, toma conta de nós e é para sempre. Foi o que aconteceu entre mim e a Maria da Luz. Um autêntico deslumbramento, um esplendor, uma vertigem… 

         - Avô, se me contasse…

         Mas José, cuja memória só a custo consegue domesticar, hesita um pouco e diz:

         -Vou demorar muito tempo, pois são muitas e muito antigas as minhas recordações. Se tu tiveres paciência…

         Gonçalo, filho do Rui e da Teresinha, quase venera aquele Avô, cuja vida nunca se cansa de ouvir contar. E que vida!

 

 (Capítulo I do meu livro, aguardando publicação: "MARIA DA LUZ - a magia da rádio")

 

Clementina Relvas

publicado por clay às 00:37 | link do post | comentar | favorito
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