Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 29.11.12

                   Maria da Luz leu, muito atentamente, estas notas do Tio Artur que, em certas ocasiões, lhe valeram grandes elogios: «És uma sabichona. Onde é que foste desencantar tanta informação sobre a Rádio?». Mas tratava-se dum segredo bem guardado.

Mas a admiração que suscitava nas suas amigas e colegas, não era daqui que lhe vinha. Era, sim, do seu talento que começava a afirmar-se. Assim, algum tempo depois destes acontecimentos, um grupo dessas amigas, acabada a interpretação que ela fez duma canção em inglês, comentam, não sem uma pontinha de inveja:

 

             - Quem havia de dizer? Ainda há pouco fazia parte do coro e agora já é solista. Com o seu talento, há-de chegar muito longe, é o que vos digo. A mim até já me disseram que o Leitão de Barros quis por força convencê-la a participar no elenco da  “Maria Papoila”. Mas ela rejeitou o convite, dizendo que não nasceu para atriz, mas sim para cançonetista. E sabem quem fez de Maria Papoila? Foi a Mirita Casimiro que, essa sim, parece ter o teatro nas veias e também canta muito bem, tornando as suas canções tão populares que toda a gente as trauteia.

 

            Mas agora interrompem-se, dizendo:

 

            - Que é que vem a ser isto? O locutor a aparecer, assim de repente… Que más notícias terá ele para nos dar?

 

            O locutor, meio em pânico, de atropelando as palavras, anuncia:

«Senhoras e senhores, interrompemos o nosso programa de cantigas tornadas célebres pelo cinema português para transmitir uma notícia da última hora, da Agência Press. É tão inesperada e alarmante que pôs o mundo em sobressalto: às 19 horas e 45 minutos, o Dr. Jorge da Fonseca, do Observatório Meteorológico de Braga, diz ter detectado, no planeta Marte, várias explosões de gás incandescente. E o Professor Manuel Franco, do Observatório Astronómico de Cascais, descreve o fenómeno como “um jacto de chama azul, disparado por uma arma”.

 

            Todos ficam assustados e não tarda que o alarme suba de tom:

 

            «Acrescentamos a esta notícia que, segundo fontes fidedignas, os marcianos já chegaram a Portugal. Neste momento, a população está alarmada e dividida: uma parte aguarda, ansiosamente, que a rádio lhe forneça mais pormenores, enquanto outra, em número já considerável, se precipita para Cascais».

 

            Entretanto, no Estúdio, vai uma grande confusão: soltam-se gargalhadas e manifestam-se alguns receios dos mais crédulos e menos informados. Matos Maia tinha conseguido, na esteira de Orson Welles, pôr o país em polvorosa, como, aliás, tinha sucedido na América. Foi um autêntico “golpe radiofónico”.

 

            Mas outros problemas, esses reais e bem mais graves, preocupam os portugueses em geral e, em particular, os jornalistas. O noticiário que agora se escuta, arrasta consigo terríveis augúrios:

 

            - Este ano de 1939 vai ser o ano de todas as catástrofes: Adolfo Hitler acaba de ocupar a Checoslováquia e de invadir a Polónia. O seu insaciável apetite de expandir a Grande Alemanha e as suas execráveis teorias de superioridade da raça ariana, a única verdadeiramente pura e digna de governar o mundo, já bem conhecidas depois da publicação, em 1925 e 1926, do seu livro Mein Kampf, não podem deixar indiferentes países democráticos como a Inglaterra e França. Já não restam dúvidas, a ninguém esclarecido, de que este é o princípio duma segunda grande guerra, certamente bem mais terrível do que a primeira, já de si tão devastadora. É nestes momentos que qualquer país precisa de governantes à altura. Portugal e a Espanha, que acabam de assinar o Pacto Ibérico irão, graças à prudente inteligência de Salazar e Franco, procurar manter-se neutrais. O que vai exigir medidas duras como, as já decretadas, de encerrar todas as emissoras particulares de rádio. Exceções serão apenas O Rádio Clube Português e a Rádio Renascença.

 

            Quando o indicativo luminoso, “No ar”, se extingue, entram no estúdio dois jornalistas bem conhecidos que, pelos gestos precipitados e pelo ar congestionado dos seus rostos, mostram uma grande preocupação e discordância. Um deles, o Vasco, homem prudente e sensível, mais ligado à rádio, não consegue dominar a sua angústia e preocupação:

 

            - Ó Guedes, diz-me lá que loucura é essa? Vieram-me dizer que andas por aí a espalhar aos quatro ventos que queres ir para a frente de batalha? Não te chegou o que passaste para fazer a cobertura da Guerra de Espanha e os três anos a viver o horror daquela luta fratricida? A meu ver, nem os elogios pelo cuidado posto na informação, nem a amizade que aí começou entre ti e o Ernest Hemingway, podem alguma vez pagar todos perigos que correste e todos os sacrifícios que te foram exigidos.

 

            - Pois sim. Mas um homem não é de ferro. Eu, Vasco, também o não sou. E quando, embora à socapa, se ouvem as notícias arrepiantes que o Fernando Pessa nos manda pela BBC, como ficar indiferente a toda aquela barbárie? Como é que alguém e, para mais, um jornalista amigo da justiça e da fraternidade, se sente ao conhecer as perseguições antissemitas do gueto de Varsóvia e o drama dos desgraçados que são obrigados a largar tudo e, encurralados num comboio de gado, seguir para um destino sobre o qual nada sabem?

 

            Mas descansa, que, pelo menos por agora, ainda não posso seguir os meus impulsos de lutar pela liberdade. A minha luta, por enquanto é outra e bem diferente: fazer-me porta-voz dos que, em Portugal continental, vivem ainda na pobreza e mergulhados no analfabetismo. Acabei de criar um movimento, mais ou menos clandestino, «Por um Portugal melhor» e nem me passa pela cabeça não contar com a tua colaboração.

 

            - Claro, Guedes. Mas temos de ser muito prudentes, pois a P.I.D.E. não se deixa levar por esses rótulos humanitários. E bem sabes quais podem ser as consequências…

 

             São interrompidos pela chegada da Maria da Luz a quem José, que pacientemente tinha aguardado a sua saída do Estúdio, diz, arrebatadamente:

 

            - Como te saíste bem! Ontem, hoje e sempre e sempre. Essa tua canção, «Nasci para cantar», é das mais bonitas que já ouvi. Eu sei, tenho a certeza de que vais ser uma grande estrela. A estrela que há-de guiar a minha vida. Não posso pensar em mais nada…

 

            - Mas olha que a canção foi a minha sorte grande. Bem tenho de a agradecer ao Matos Sequeira que, ao acabar de compor a Marcha para o nosso bairro para ser cantada pela Maria Clara e, só porque me ouviu cantarolar um bocadinho da «Lisboa Antiga» enquanto pendurava uns balões, me deixou estarrecida ao brindar-me com a canção, enquanto dizia:

 

            -Toma lá, rapariga. És bonita, tens uma óptima presença e a tua voz, pelo pouco que me foi dado apreciar pode levar-te muito longe. Espero que esta canção seja para ti um talismã e te abra as portas da fama.

 

(Capítulo VII do meu livro em preparação “MARIA DA LUZ – a magia da rádio”.

 

Clementina Relvas

publicado por clay às 12:07 | link do post | comentar | favorito
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