Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 22.01.13

        Meus queridos netos:

 

 

             Lilita é uma cadela brasileira que, muito merecidamente, recebeu a honra de fotografia e texto na Televisão: recolhida por uma alma generosa, ficou a viver com outros animais que, como ela, tinham sido abandonados.

 

            A dada altura, descobriu uma casa de acolhimento como a sua, mas onde havia mais abundância de comida. Habituou-se a ir lá, em busca de alimento. Mas não tardou que as tratadoras se dessem conta de que, quando Lilita acabava de comer, se quedava de olhos fitos nos restos . Até que um dia, uma delas sugeriu: “Parece que a cadelinha quer levar a comida que sobrou. Porque será?”.

 

            Meteram num saco de plástico o arroz, feijão e carne que ficara, depois de todos já terem saciado a sua fome. E, para espanto de todos, a Lilita segurou cuidadosamente na boca o saco bem atado e foi à sua vida.

 

            Intrigada, uma senhora seguiu-a até à casa onde ela vivia com os outros animais ali recolhidos e, num crescendo de espanto, verificou que a Lilita depusera o saco no chão ao alcance de todos os que ela sabia com fome e, em breve, foi uma confraternização geral, à volta de banquete tão inesperadamente aparecido no meio daqueles desvalidos.

 

            Mas a história verídica e documentada, não acaba aqui. Dali em diante, todos os dias, a cadelinha passou a percorrer três quilómetros para se ir alimentar e trazer, percorrendo outros três quilómetros, aos companheiros famintos, o saco de restos que lhes saciavam a fome e alegravam os seus dias.

 

            Que magnífico exemplo de voluntariado! Claro que, no nosso país e por todo o mundo, há milhares de milhares de pessoas que se preocupam com as necessidades do próximo e põem as suas vidas ao serviço dos que nada têm, dando não só o que lhes sobra, mas até o que lhes faz falta e convencendo aqueles que mais possuem, a partilhar os seus bens com os desvalidos. Mas aqui se prova que esse impulso para ajudar o próximo é um instinto a que os próprios animais não são alheios e que, de vez em quando, tocam o coração dos homens que precisam de ser cada vez  mais solidários.

 

                                   Lisboa, 22 de Janeiro de 2012

 

                                   Clementina Relvas

 

 

 

publicado por clay às 14:00 | link do post | comentar | favorito
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