Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 07.03.15

                                     QUE MUNDO É ESTE?

 

 

            Quando eu era pequena, com espanto de quantos me rodeavam, perguntei à minha Mãe:

            - Ó Mãe, que mundo é este?

            - A minha Mãe pensou um pouco e respondeu:

            - Filhinha, este é o nosso pequeno mundo, uma aldeia minúscula, mas onde há muitos pequenos mundos, um mundo para cada um de nós…

            - Como assim, se, hoje, na escola, estive que tempos a observar todos os mapas e nem sombra do nome da nossa aldeia!

            - Eu disse-te que era uma aldeia minúscula e os mapas só registam terras grandes (cidades vilas e as raras aldeias com grande valor histórico ou monumental)

            - E os nossos pequenos mundos? Eu nem sei com o é o meu…

            - Olha para ti. Como te vês?

            - Sou pequenina, morena, tenho cabelo escuro e muitos, muitos sonhos. Tu dizes que eu sou teimosa, mas a minha professora apresenta-me aos meus colegas como muito apegada às minhas ideias, aplicada e sempre disposta a levar os meus projetos até ao fim…

            - E esse teu coraçãozinho, que, na verdade, é o centro do teu mundo, como é que te parece?

            - Sei que gosta de ti, do pai, dos meus irmãos, dos meus coleguinhas e, se pensar bem, de toda a gente que conheço e que também acho que gosta de mim. Gosto de tratar bem os animais, de ir dar comida à galinhas e de te ajudar, aos sábados, a distribuir pão e azeite a todos os mendigos que vêm das suas aldeias, pobres e distantes, em busca de alguma coisa que os ajude a sobreviver. E sabes como fico triste com aquele rapaz que vem estendido sobre o seu burrinho, porque nasceu todo torto e a quem tu sempre dás um prato de sopa (que tens de lhe meter na boca com uma colher). Também sabes como gosto dos velhinhos, especialmente da Senhora Alda, quase ceguinha e que, quando volto da Escola, me aguarda todos dias para eu lhe enfiar as agulhas com linhas de várias cores. Tenho muita pena dos doentes e fico muito triste quando alguém morre e vejo toda a família numa grande aflição. Como quando morreu, num acidente, com cinco anos, o meu irmãozinho Zeca, assunto de que não quero falar.

            Mas também gosto de brincar: de jogar às escondidas, à macaca e

com as lindas bonecas que tu me fazes: um ramo seco de oliveira, com dois ramos mais pequenos a fazer de braços, uma cabeça de algodão em rama, envolta num pano claro, onde pintas os olhos, a boca as orelhas, o nariz e toda vestida pelas roupas que lhe fazes, sempre diferentes e que tanto me encantam.

            Ah! Já me esquecia! A maior parte do meu mundo são as leituras:

os textos dos livros escolares e também aqueles livros já um pouco usados, que o tio António comprou quando veio do Brasil: Os Lusíadas, o que conta a vida de Genoveva de Brabante, coitadinha, uma senhora nobre a ter de viver no  meio da floresta com o filho pequenino a ser amamentado por uma corça, um livro de contos, onde conheci a Carochinha, a Branca de Neve, o João Ratão o Ali. Babá e os quarenta ladrões e poucos mais que o dinheiro era preciso para outras necessidades.

            E olha! Afinal o meu mundo não vem no mapa, mas afinal é tão grande e variado, que me fico por aqui, pois tu já estás cansada da minha tagarelice e tens muito que fazer.

           

           Lisboa, 7 de Março de 2015

 

                  Clementina Relvas

 

publicado por clay às 00:17 | link do post | comentar | favorito
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