Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 03.09.08

Queridos netinhos: 

 

Hoje quem vos escreve é o Vôvô porque a Vóvó tem andado muito ocupada. E de que é que eu vos vou falar? Ora, nada mais do que da minha estreia em Angola, como funcionário público, para onde fui na simples qualidade de estagiário, depois de deixar por livre vontade o meu lugar no Instituto Nacional de Estatística, aqui em Lisboa, o mesmo que ainda hoje existe ali para os lados do Bairro do “Arco do Cego”.

 

 Ainda andava na casa dos vinte anos e não foi por ir ganhar mais que resolvi mudar de vida lá longe, na nossa antiga colónia de Angola. Lembro-me bem que a diferença de vencimentos era só de cerca de 250 escudos. Cá ganhava cerca de 1250 escudos por mês (o que não era nada mau para um rapaz da minha idade) e em Angola passei a ganhar 1500! Foi mais por simples aventura, conhecer outras terras, pois tinha passado toda a minha adolescência (cerca de 14 anos) em Timor, outra nossa ex-colónia.

 

Quando ainda era estudante, tinha lido um livro de Ferreira da Costa, escritor nesse tempo muito conhecido por escrever sobre África, com o título “Pedra do Feitiço”, que ainda hoje guardo com o máximo cuidado na minha biblioteca, protegido por uma encadernação com letras douradas na lombada. É uma sétima edição de 1945 em cujo prefácio o autor escreveu o seguinte trecho que passo a copiar:


“A Pedra do Feitiço existe. Fica distante de Santo António do Zaire, quase em frente de Boma. É um morro pedregoso, agreste e nu. Triste. Sinistro, por vezes. Assenta no limite de savanas bravias, onde as tsé-tsé instilam venenos letais, os carnívoros despedaçam corças e todos os brutos urram de ansiedades frenéticas, nos contactos da procriação. Para lá da colina rochosa, desliza o grande rio majestoso – o Zaire. O calor martiriza. Entontece. Leva ao desvario. Nem réstia de sombra, para lenitivo de tamanho tormento. Em torno não se vislumbram sinais de vida humana. Paira um silêncio trágico, primitivo, só atenuado, ao descer a noite, pelo resfolegar dos hipopótamos e os gritos estridentes dos abutres. Chega-nos o cheiro nauseabundo da carne podre – carcassas sanguinolentas, restos de festins nocturnos das panteras e dos chacais. Na margem, entre limos e juncos, brilha o olhar vítreo dos jacarés. É assim a Pedra do Feitiço.”


Acabados de chegar a Luanda idos de Lisboa, eu e mais dois colegas estagiários, apresentámo-nos no departamento estatal próprio, para sermos informados do nosso destino, algures no vasto território, catorze vezes maior do que Portugal. A expectativa não era grande pois sabíamos, como caloiros que éramos, que iríamos ser colocados em regiões pouco desejadas. Ao receber a minha Guia de Marcha, nem queria acreditar no que lia. Destino: Distrito do Zaire. Posto: Pedra do Feitiço. Manifestei um certo regozijo que os meus outros dois colegas não entenderam porque, embora estivessem tristes por as suas colocações não serem boas, como já esperavam, consideravam-se mesmo assim mais sortudos do que eu. "Eh! Pá, logo a Pedra do Feitiço, que azar!" De facto, Pedra do Feitiço tinha má fama, mas fiquei contente com a novidade. A leitura do livro de Ferreira da Costa nunca me saíra do pensamento e acalentei sempre o desejo de um dia repetir as aventuras nele narradas. Posso mesmo afirmar que este livro até teve forte influência no rumo que havia de dar à minha vida, trocando o cómodo e promissor lugar que tinha no INE pela incerteza dum cargo em África. E logo na Pedra do Feitiço. Que estranha coincidência! Que sorte!

 

Em Santo António do Zaire, conhecida também por Sazaire, terra pequena onde todos se conheciam, a minha chegada foi quase um acontecimento. Quem seria aquele jovem solteiro, com ares citadinos, que chegava ali e era logo “desterrado” para a Pedra do Feitiço? As pessoas receberam-me com simpatia mas dei conta de que, nos semblantes apresentados, embora risonhos, pairava certo ar de admiração e de comiseração. Fiquei cerca de um mês na Vila a adaptar-me, mas o que eu queria era seguir para a Pedra do Feitiço que era o meu destino oficial, como estagiário.

 

E como ir para lá?

 

Vieram então algumas sugestões: Uns diziam: “olhe o sr. Fonseca parece que parte amanhã para o mato com um carregamento de fuba para o pessoal e o senhor podia aproveitar a boleia. Se quiser eu vou falar com ele.” Outros: “Há os camiões dos madeireiros que trazem para as serrações grandes toros de madeira e voltam para as matas vazios, talvez fosse uma solução...” Até que alguém me falou no rio. No rio, mas como? Disseram-me então que no pequeno porto estavam, naquele momento, a carregar um gasolina com mercadorias destinadas, precisamente, a abastecer a loja do Sr. Francisco, na Pedra do Feitiço. Ora aí estava a resolução do meu problema.

 

O rio, como já adivinharam, era o grande Rio Zaire, um dos maiores rios navegáveis do mundo O seu estuário é tão vasto que da sua margem esquerda, onde ficava a Vila de Sazaire, mal se vislumbrava a outra, a direita, que pertencia ao Congo que, naquele tempo, era uma colónia belga.

 

Como queria seguir imediatamente ao meu destino, ansioso como estava de iniciar as minhas novas funções e, para mais, sedento de aventuras próprias da idade, fui logo procurar o tal Sr. Francisco. “Que não estava”, disseram-me. “O Sr. Francisco está na sua loja na Pedra do Feitiço desertinho que cheguem lá as mercadorias que estão a carregar no gasolina para vender na loja dele, no mato, mas se o senhor quer ir no barco dele, o senhor agora é quem manda, vai lá e é só dizer isso à tripulação” e acrescentaram, “porque o senhor, agora, é a autoridade máxima daquela região para onde vai. Acima de si está só o Sr. Intendente, aqui”. “E mais, quando entrar no gasolina passa a ser o comandante do barco”

 

Ao princípio fiquei um bocado confuso. Se esta conversa não tivesse sido na presença do chefe da alfândega, uma pessoa muito prestigiada na Vila, eu não teria acreditado. Autoridade máxima de uma região e para mais comandante de um barco? Ora esta!

 

Mas era verdade. E depois ainda me apareceu um funcionário, mais novo do que eu, que tinha sido colocado mais para o Norte, a pedir-me boleia que logo aceitei. Sempre era mais um companheiro de aventura. Chamava-se ele Neves. Com o calor que estava naquele momento, até achei graça ao nome do rapaz.

 

Lá fomos os dois até ao barco. Eram três os seus tripulantes. Três corpulentos negros, ainda novos, que logo se desbarretaram quando nos viram. Um deles, chamemos-lhe "o Imediato", já sabia de tudo, quem eu era e ao que ia. Naquelas paragens as notícias corriam céleres. Perfilou-se e disse-me: “Sr. Comandante, o gasolina está pronto a seguir”. E ficou-se por ali.

 

Olhei em volta. Era um barco de madeira, não teria mais de trinta metros de comprimento, pintado de branco, tendo ao centro uma pequena cobertura que depois descobri ter por baixo dela um motor a gasolina. Por isso estes barcos eram designados "gasolinas". E muita carga, com tanta carga que não se via o fundo do barco. Por baixo eram caixotes vários, sabe-se lá com quê. Por cima destes, sacos e mais sacos cheios de fuba, (farinha de mandioca, base muito importante da alimentação local) e outros mal cheirosos cheios de peixe seco, como vim depois a saber. E depois, é incrível, por cima disto tudo, ainda, soltos, enormes bidons metálicos, com capacidade para 200 litros. Eram os chamados tambores de 200 litros nos quais eram transportados para todo o lado combustíveis, como gasolina, gasóleo, etc. Mas estes, felizmente, iam vazios para retornarem depois cheios de óleo de palma dém-dém, quando o barco regressasse Tornei a olhar e vi que não havia sequer um lugar para nos sentarmos O "Imediato" continuava de pé, hirto, com os olhos muito brilhantes postos em mim., como quem está à espera de uma resposta. E estava! De repente lembrei-me de que, afinal, era eu o "comandante", caí em mim, e disse com a voz mais autoritária que consegui arranjar: Siga a viagem!

 

O "Imediato" pôs-se logo em acção, mas antes faz-me esta pergunta embaraçosa: “Sr. Comandante qual das rotas vai escolher?” Fiquei deveras encabulado, misto de vergonha e desconfiança. Estaria ele a gozar-me? Mas não. O homem era um daqueles angolanos de aspecto irrepreensível, falando um português sotaqueado mas muito perfeito. Logo naquele momento me inspirou confiança. Aliás, de qualquer forma, era com ele que eu tinha de contar, pois devia conhecer o rio como as suas mãos.

 

Depois de uma compreensível mas curta hesitação disse-lhe: “Rio acima pela rota que você sabe!” Ele mostrou um sorriso e disse-me: “Obrigado!” Pensei aliviado: “Temos homem!”

 

Como esta carta já vai longa, prometo-vos continuar numa próxima, porque vocês nem imaginam o que me havia de acontecer, mesmo antes de chegar ao meu destino: “a tenebrosa Pedra do Feitiço”.

 

Beijos.

 

Nota: As pessoas aqui mencionadas existiram de facto. Por motivos óbvios os nomes de alguns são fictícios.

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Segunda-feira, 25.02.08


Meus queridos netos:

Quando cheguei a Luanda, e apesar do caloroso acolhimento que recebemos da família aí residente, especialmente do meu irmão Alfredo, foram muitas e desencontradas as emoções que senti: achei a cidade lindíssima, com a sua imensa baía, a restinga que a separava do Oceano Atlântico e onde se passavam muitos tempos de lazer, quer nas esplanadas e restaurantes ou para e simplesmente contemplando o mar. Apaixonei-me logo pelas palmeiras, araucárias e casuarinas e, na época própria, pelas acácias rubras que cresciam

 

 

 

espontaneamente um pouco por toda a parte e em particular na encosta da Fortaleza. Apaixonei-me pelas vendedeiras de abacaxi, que quase todos os dias passavam à minha porta, carregando à cabeça as enormes quindas com fruta e, nas costas ou na anca, o último filho que amamentava, com toda a naturalidade, na altura de o fazer. Apaixonei-me por aquele povo ainda tão atrasado mas bem disposto, prestável e contentando-se com tão pouco: um emprego como contínuo num serviço público era já a sorte grande. A maioria, especialmente os homens, eram empregados domésticos, pescadores ou viviam de pequenos biscates.

A minha primeira impressão do Liceu foi muito negativa: eram raros os alunos negros e nenhum nos últimos anos, os que me coube leccionar. Não é que houvesse discriminação a nível da entrada, mas a maior parte das famílias vivia em tal estado de pobreza que toda a sua energia era gasta no esforço de sobreviver.

Pouco a pouco foram sendo criadas Escolas Técnicas que, essas sim, tinham uma grande população de alunos de cor, como se dizia para designar pretos e mestiços. A afluência tornou-se maior à medida que se expandiu, por todo o território, o programa «Levar a Escola à Sanzala», criado pelo Secretário Provincial, Dr. Pinheiro da Silva. E a rede de ensino ficou, pelo menos teoricamente, concluída com a criação, já quase no fim da permanência portuguesa, com a criação da
Universidade de Luanda.

Estas desigualdades sociais não auguravam nada de bom mas não foram o único ingrediente para a crise. Na Conferência de Berlim de 1885, já referida, traçaram-se em África fronteiras artificiais, no papel, sem atender às várias etnias existentes, que foram integradas noutras, ou amputadas duma parte do seu solo e da sua identidade. Foi talvez esta a verdadeira génese da luta dos angolanos contra o colonizador, nós, os portugueses. Nos anos que precederam a guerra, tinham-se arreigando três movimentos de libertação: um, no Norte, da etnia quicongo, a F.N.L.A. (Frente Nacional para a Libertação de Angola), outro, no centro, os quimbundos que adoptaram a sigla M.P.L.A. (Movimento para a Libertação de Angola) e ainda outro, maioritariamente formada por umbumdus, no centro-leste, a U.N.I.T.A. (União Nacional para a Independência Total de Angola), movimento este fundado em 1966, por dissidentes da
FNLA e do GRAE - Governo de Resistência de Angola no Exílio.

Todos estes movimentos eram encabeçados por angolanos que tinham ido estudar para o exterior, muitos, como Agostinho Neto, dirigente do M.P.L.A. e alguns dos seus seguidores, para Lisboa, onde a Casa dos Estudantes do Império se tornou, em breve, um alfobre de revolucionários.

É claro que a febre das independências andava no ar: Argélia, Congo Belga já se tinham libertado das respectivas potências colonizadoras mas nós, principalmente os que optaram por viver nas então chamadas províncias ultramarinas, em geral pouco ou nada politizados, fazíamos uma vida normal, como se aquela fosse e assim era apregoado pelos altos dirigentes da Nação, a nossa terra, que se estendia do Minho a Timor.

De repente, tudo se estilhaçou: a F.N.L.A. atacou inesperadamente a Norte, usando duma barbaridade que semeou o pânico por toda a Angola e foi repelida por barbaridade semelhante. Esta situação levou o Governo português a enviar para o Ultramar, «Imediatamente e em força» nas palavras de Oliveira Salazar, grandes contingentes de tropas.

Mas em breve se foram manifestando outros focos de guerrilha, com o M.P.L.A., que ia exercendo a sua hegemonia no Centro, o F.N.L.A., comandado, a partir do Congo ex-Belga, por Holden Roberto intensificando a guerrilha no Norte e a U.N.I.T.A., às ordens de Jonas Savimbi, instalando-se no Leste e avançando posteriormente até à cidade do Huambo, a antiga Nova Lisboa.

Contra a opinião do Governo, que teimava em ignorar repetidas determinações das próprias Nações Unidas, muitos portugueses, especialmente militares, clamavam por negociações na esperança de obter um estatuto de autonomia, ou se tal já não fosse possível, conceder a independência aos países em guerra, que entretanto, já alastrara às restantes províncias ultramarinas, sendo particularmente dura na Guiné-Bissau. Foi o que veio a suceder logo a seguir ao 25 de Abril de l974 que culminou, em Portugal, com a tomada do poder pelos militares e o abandono, puro e simples, das populações brancas à sanha dos chamados «terroristas». As nossas tropas, em Angola, caíram na total indisciplina: militares portugueses vi eu que, estando de guarda ao Palácio do Governador, se sentavam à sombra da guarita, com a metralhadora em bandoleira, a fingir de guitarra.

Certamente vos ocorrerá a pergunta como lidei eu e a restante família com tão conturbada situação: em 1961, embora os ataques se tivessem limitado ao Norte e nós vivêssemos na Caála, a vinte quilómetros de Nova Lisboa, os boatos proliferavam por toda a parte, fazendo-nos crer que a toda a hora estava iminente um ataque do inimigo, o que nunca aconteceu nos distritos do Centro. Ainda não tinham chegado as tropas portuguesas e as poucas existentes, sem treino e mal municiadas, eram coadjuvadas por autoridades administrativas e pela totalidade dos habitantes brancos, que se revezavam nas rondas nocturnas. As mulheres começaram por fazer treino de tiro – eu tinha uma pistola à cabeceira apenas para poder dar o alarme se algo nos ameaçasse – mas o que nos deixava a todos um pouco mais tranquilos eram os abrigos improvisados em que nos acolhíamos em noites de alarme: os silos do milho, o primeiro andar do Banco, a escola primária, onde alguns homens armados ficavam para nos protegerem.

Pouco mais dum ano depois, mudámo-nos para Luanda, onde vivemos vários anos longe da guerra, mas sempre angustiados com os ecos que nos chegavam das lutas a desenrolarem-se sobretudo nas zonas de fronteira onde morria muita gente, de ambos os lados.

Mas foi só depois do 25 de Abril, quando os Movimentos foram autorizados a instalarem-se um pouco por toda a parte, que começou, para nós, o verdadeiro pânico.

Eu continuei a dar aulas no Liceu Salvador Correia onde, apesar das R.G.A’s e muita propaganda, fui sempre tratada com respeito por todos. Continuei até o Liceu fechar, no fim do segundo período, o que obrigou o Tio Zé a vir para casa dos Avós, em Portalegre, e assim poder terminar o 5º ano do Liceu. O Quim que precisava de fazer uma pausa dum ano, continuou connosco.

Uma vez encerrado o Liceu, foi-nos autorizado continuar o trabalho com os nossos estagiários, que, sem este, não poderiam concorrer a um lugar de professor efectivo em Portugal. Nesse período, ainda fiz parte dum grupo de trabalho que o Ministro da Educação, um membro da U.N.I.T.A., encarregou de criar um Instituto de Investigação Pedagógica, que ignoro se chegou a bom porto.

Nesse período, nós morávamos numa moradia com jardim no chamado Bairro de Alvalade, mas tivemos a pouca sorte de, na nossa rua, se terem instalado duas facções rivais – que começaram logo a guerrear-se. O fogo cruzava-se por cima das nossas cabeças, obrigando-nos a quase rastejar para entrarmos em casa. Uma bala perdida foi parar à cama vazia do Quim que, durante algum tempo, ainda a usou como amuleto. E tinha razão para isso pois, muito perto da nossa casa, uma menina, estudante de Medicina, foi atingida mortalmente, num quarto andar, quando jantava com os seus Pais.

Embora tivéssemos passagens para regressarmos juntos, creio que no princípio de Agosto de 1975, acabámos por regressar a Portugal, um de cada vez, sendo os últimos o Vôvô e o Quim, que ainda lá assistiram ao casamento da prima Tininha e passaram alguns fortes sustos. Conta o Vôvô, que foi o padrinho de casamento da vossa prima, que sentia a mão da noiva tremer no braço dele, pois por ali bem perto havia tiroteio bem forte, ouvindo-se o matraquear das metralhadoras.

Do que foram os nossos primeiros tempos de «retornados», como alguns, com certo desprezo, nos chamavam, falarei numa próxima carta.

Beijinhos e até breve.

 

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Quinta-feira, 31.01.08

 

 

                                                       

 


Meus queridos netinhos:



Angola. Angola ficou na minha lembrança aureolada por pensamentos positivos, felizes e, ao mesmo tempo, por um fundo de amargura.

Quando conheci o Vôvô já ele tinha estado em Angola durante quatro anos, numa região bem ao Norte, Santo António do Zaire, hoje Soyo (sua designação de origem e actual), na foz do rio Zaire. Foi uma das poucas cidades que não conheci pois viajei muito por Angola, não só como professora, mas também como encarregada administrativa (e para solucionar problemas das alunas) dos Lares da Mocidade Portuguesa. Só que em Sazaire, como abreviadamente se referiam àquela terra, não havia nenhum desses Lares.

Mas voltando um pouco atrás, o Vôvô tinha vindo à Metrópole, (era assim que nas colónias se referiam a Portugal), por dois anos, para fazer a parte complementar do seu curso. Encontrámo-nos quando ele respondeu a um anúncio para alugar um quarto na casa dos Neves, um casal de meia-idade, onde eu já estava hospedada. A princípio, só nos víamos praticamente à hora do almoço, porque ambos saíamos cedo de casa, ele para o seu curso e eu para dar aulas no Liceu Maria Amália, que ficava ali ao lado. Mais tarde, quando os donos da casa e a Celeste, uma grande amiga, também hóspede e já desaparecida do nosso convívio, iam para os seus empregos, quedávamo-nos à mesa, prolongando a conversa, muitas vezes sobre Angola, que também a mim não era totalmente estranha porque tinha lá vários Tios e a minha Madrinha, como já referi. E assim nos apaixonámos um pelo outro.

Ao fim de algum tempo, conhecendo-nos melhor e apreciando os feitios e qualidades mútuas, o Vôvô perguntou-me se queria casar com ele, mas teria de ir para Angola, pois era lá que estava o seu futuro. Honestamente avisou-me de que correria o risco de não poder continuar a exercer a minha profissão de professora, porque havia muitas probabilidades de ele ser colocado numa região onde não houvesse um Liceu. Como tinha sido sempre essa a grande aspiração da minha vida e, ainda por cima, tinha a promessa de, em breve, ir dar aulas para a Faculdade de Letras, tenho de confessar que hesitei um pouco, mas como o outro meu grande sonho era ter filhos e via no Vôvô um bom modelo de marido e de pai, não hesitei. Estávamos em Abril ou Maio de 1958, com o ano lectivo quase no fim, mas só nos casámos no dia 23 de Outubro, depois de eu ter passado as minhas longas férias na aldeia e o Vôvo em casa de seus Pais. Escrevíamo-nos diariamente uma carta e soube depois, que quando a minha carta chegava, a meio da manhã, a casa dos Bisavós, logo a Bisavó Inês corria a entregá-la ao Vôvô dizendo com um sorriso: “Aí tens a sempre certa!”. Diga-se aqui, entre parêntesis, que os correios eram, nesse tempo, bem mais pontuais do que hoje.

O Vôvô quis cumprir todas as praxes: vieram os Pais dele, pedir-me em casamento a um dos meus Tios, substituto de minha Mãe que não pôde estar presente. Casámos pois em 23 de Outubro, em Fátima, na Capelinha das Aparições e passámos os primeiros dias de casados no Hotel Atlântico, no Estoril. Dias depois, fomos por uma semana a Madrid, em viagem de núpcias. Daí a pouco tempo já eu andava muito enjoada pois estava grávida do primeiro Zé António que nasceu exactamente no dia em que fazia nove meses que nos tínhamos casado.

Em Fevereiro do ano seguinte, embarcámos no navio Quanza, com destino a Luanda, onde me esperavam alguns Tios e o meu Irmão Alfredo, já casado com a Tia Adelina e com uma filha de quem eu tinha sido madrinha por procuração, a Tininha.

O paquete já era um pouco antiquado – o banho tomava-se numa grande tina cheia de água, despejando-a com um púcaro sobre a cabeça e o corpo. E note-se que nós viajávamos em primeira classe, de resto com bastante conforto. Eu não me sentia lá muito bem, mas desembarcámos em Luanda, depois de escalarmos o Funchal, Dakar e Ponta Negra, felizes por estarmos juntos e à espera do nosso primeiro filho.

Mesmo assim, a adaptação não foi fácil, apesar da ajuda do meu irmão e mais família. O Vôvô acabou por ficar colocado mesmo em Luanda, portanto, eu tive a possibilidade de continuar a minha profissão de professora liceal.

Em Julho nasceu o Zé António mas, infelizmente, o parto correu mal e ele só sobreviveu dois dias. É um dos anjinhos que tenho no Céu mas, apesar da consolação que eu procurava nessa ideia, entrei numa depressão que me afligiu muito nos meses seguintes, pelo menos até Outubro. Quando o novo ano lectivo começou, fui colocada no Liceu Paulo Dias de Novais, onde a amizade de colegas e alunos, bem como a entrega devotada ao meu trabalho, me foram fazendo recuperar as forças e a alegria de viver. Além disso, fiquei de novo grávida e o meu segundo José António (o Tio Zé) nasceu perfeito e bem disposto, também em Julho, quando o Vôvô já tinha sido colocado num concelho do Interior. Veio buscar-nos a Luanda e lá fomos os três de avião, um pequeno avião de sete lugares, o Tio Zé apenas com oito dias, na alcofinha instalada mais atrás, na cauda do avião! …

Algum tempo depois fui dar aulas no Liceu de Nova Lisboa, hoje Huambo.

E pronto. Muito me falta para contar acerca de Angola, mas como esta carta já vai longa, ficará para a próxima vez e, então sim, começarei logo pelos tempos da guerra.

Até breve e beijinhos da vossa Vóvó e também do Vôvô, claro.

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Terça-feira, 20.11.07
 

            Meus queridos netos:

 

         Nunca na minha vida fiz nada extraordinário. Mas, nas tarefas da vida quotidiana espero, com a ajuda de Deus, ter posto todo o empenho e dedicação de que fui capaz e penso tê-las levado a bom termo.

 

         Assim sucedeu nos meus estudos, de que já vos falei noutra carta, como no aperfeiçoamento da minha vida profissional, às vezes com bastante sacrifício como vereis.

 

         Quando acabei o curso da Faculdade, a melhor entre quarenta, dois caminhos se abriam à minha frente: aguardar que vagasse um lugar para professora assistente, conforme me tinha prometido o meu saudoso Professor Doutor Jacinto do Prado Coelho ou fazer o estágio pedagógico para seguir a carreira docente, minha primeira aspiração.

 

         Já sabem que a primeira via se mostrou sempre inacessível para mim, sobretudo porque decidi casar e ir viver com o Vôvô para Angola e aí constituir família.

 

         Quanto ao estágio, nessa altura, era extremamente difícil, não só o ser admitida como os dois anos em que tínhamos de trabalhar numa Escola, sem qualquer remuneração o que, desde logo, me afastava dessa hipótese que não garantia a minha subsistência e seria demasiado difícil para os meus Pais sustentar-me.

 

         Além disso, só havia dois centros de estágio: um em Lisboa e outro em Coimbra, cada um deles com apenas duas vagas. Os exames de admissão eram muito difíceis e tinham a agravante de, ainda que tivéssemos nota positiva ou mesmo boa, se a dos outros concorrentes fosse superior à nossa, só o melhor é que entrava e ao segundo de nada lhe valia o exame pois, além de não ser admitido na única vaga que havia, teria de repetir o exame até conseguir ser o melhor.

 

            Para o que tinha sorte de entrar, ficava durante dois anos lectivos a dar aulas, quer sob a orientação dum professor categorizado e com muita prática, quer como único responsável de algumas turmas, mas sempre sujeito à intervenção do metodólogo que assistia à aula e fazia as suas críticas. Uma vez feito o estágio com êxito, era-lhe conferida a categoria de professor agregado, que, embora parcamente remunerado, nada recebia durante as férias grandes e, em certos grupos, eternizava-se nessa situação por muitos anos.

 

         Ora, como no ano anterior em que eu devia candidatar-me ao estágio vi a melhor aluna desse ano, que tinha concluído a Faculdade com dezassete valores, como eu, ter tido doze no exame de admissão e ser suplantada por outra colega que teve catorze valores, senti-me completamente desmoralizada para me arriscar nessa aventura, tão difícil de todos os pontos de vista.

 

         Fui então dar aulas para o Liceu Antero de Quental, em S. Miguel e ali fiquei um ano maravilhoso de que já vos fiz um relato entusiasta. Depois vim para Lisboa, para o Liceu Maria Amália, durante três anos, até me casar com o Vôvô, em 1958 e ter ido para Angola. Das vicissitudes que lá passei e também das alegrias – já têm notícia.

 

         Quando fui para Luanda, como professora do Liceu Salvador Correia, sempre me distribuíram turmas do terceiro ciclo, que me davam muito trabalho a preparar até ficarem a meu gosto: rigorosas nos conteúdos e motivadoras na forma para os alunos. Nem sempre o devo ter conseguido, mas posso dizer que era uma professora respeitada e apreciada por todos.

 

         A dada altura fui convidada para exercer um cargo na Mocidade Portuguesa Feminina e a minha primeira resposta ao convite foi não, porque eu nunca tinha tido da M.P. mais do que um pin com um número e quando, ao terminar o Liceu com uma média que ultrapassava em muito os catorze valores exigidos para ser admitida num Lar da Organização, foi-me dada uma resposta rotundamente negativa, com a alegação de que eu não era filiada na M.P.

 

         Dito não, fui para casa a pensar se esta não seria uma vingança mesquinha, e dei o dito por não dito, até porque me interessava muito o trabalho com as raparigas angolanas pobres que na Casa de Trabalho da M.P.F. em Luanda, aprendiam a cozinhar, a tratar dos seus bebés, a costurar, etc. Esse já era um acréscimo de trabalho extenuante e que, além de não ser remunerado, até me saía caro porque tinha de pagar do meu bolso a gasolina para as deslocações. Tais funções também me obrigavam a deslocar-me frequentemente de avião pelo extenso território angolano para supervisionar os Lares distritais e, com as habituais aulas do Liceu, o meu sacrifício aumentou e a minha saúde estava à beira do colapso. É preciso não esquecer que, entretanto, eu tinha tido um filho que morreu à nascença, os meus dois filhos Zé António e Joaquim Manuel e ainda um aborto acidental de quatro meses, penso que motivado por grandes aflições devido a uma doença mental de minha Mãe que vivia connosco em Luanda, por essa altura.

 

         Embora procurasse dar toda a atenção aos meus dois filhos, cuidando deles, ajudando-os nos estudos e levando-os connosco em passeios e viagens, ao cinema, às aulas de natação, valeu-me de muito ter uma empregada, a Luísa, que foi o meu braço direito em relação a eles.

 

         Entretanto, foi promulgada uma lei que abria o estágio para cerca de trezentas vagas e num regime muito mais facilitado. Para o fazer, como era meu grande desejo, tive de vir sozinha para Lisboa e fui dar aulas para o Liceu Pedro Nunes. Alojei-me na Casa de Santa Zita, que era perto, mas doía-me a alma por estar longe dos meus filhos e marido. Até que a corda rebentou: eu chorava a todo o momento, tive de abandonar as aulas e fui fazer uma cura de sono em Belas, onde tive a sorte de encontrar um médico sabedor e paternal, que levou a sua abnegação a tratar-me de Lisboa, por correspondência, durante o tempo todo do meu estágio. Do meu estágio? Sim, eu não fui capaz de continuar em Lisboa, mas, entretanto, tinha sido aberto o estágio em Luanda e, com muito apoio do Vôvô, decidi levar ao fim essa tarefa, sem o êxito do qual ficaria para sempre frustrada. Foi um esforço enorme: quando a maioria das minhas colegas o acabavam arrasadas por um esgotamento nervoso, eu comecei-o já doente e a tomar um punhado de remédios que o médico de Belas ia controlando à distância.

 

         E assim, ajudada pelo Vôvô que me passava todos os meus trabalhos à máquina e me levava ao fim da tarde, com os filhos, até à ponta da Ilha de Luanda onde recuperava paz e força para continuar, lá concluí o meu estágio com a melhor nota dos oito concorrentes e fui logo convidada para Metodóloga de Francês. Para poupar um pouco a saúde, recusei terminantemente acumular essas funções com o lugar na M.P.F. que, tendo ficado à minha espera, nunca voltou a ser preenchido.

 

         Mal acabei o estágio vim com o Vôvô e os dois filhos passar férias a Portugal. Aconteceu então que, dado a minha saúde não me permitir instalar-me em Portalegre para ajudar a Bisavó na tarefa de tomar conta dos rapazes, e para que não perdessem o ano, resolvemos inscrevê-los no Colégio de Tondela, de que tínhamos muito boas referências e onde o Quim fez a quarta classe e o Zé o primeiro ano do ciclo. Durante os seis meses que estiveram no Colégio, nós íamos, mais do que uma vez por mês, visitá-los e levar-lhes mimos e, nas férias da Páscoa, como já contei numa carta anterior, demos praticamente com eles a volta a Portugal e à Galiza. Só nessas férias, o nosso carro novo fez mais de dezoito mil quilómetros.

 

         Embora me tenha custado muito esta separação, olhando para as circunstâncias e para dentro de mim, não acho que tenha sido egoísta. Tanto o Vôvô como eu, fizemos o que nos pareceu ser melhor para todos: para eles que não perdiam o ano, para os seus Avós que já não estavam em idade de ter tanta balbúrdia em sua casa e para mim, que assim pude recuperar as minhas forças e ir retomar, em Luanda, o meu lugar de Metodóloga, que desempenhei até ao fim do ano lectivo de 1976, quando os meus estagiários ficaram com as habilitações que lhes permitiram concorrer a professores efectivos em Portugal, para onde todos viemos, fugindo dos horrores da guerra.

 

Até breve. Beijinhos da Vóvó.

 

publicado por clay às 16:35 | link do post | comentar | favorito
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