Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 15.07.08

 

Meus queridos netos:

 

Acabadas as tarefas do meu estágio, viemos novamente, em 1971, passar umas longas férias a Portugal.


Como já vos contei, eu estava ainda muito combalida por um esgotamento nervoso e, logo que os grandes calores de Dezembro trouxeram, com as primeiras chuvas, as férias grandes, partimos para Portugal, desta vez num óptimo avião da T.A.P. e em primeira classe.


Quando chegámos ao Aeroporto da Portela, estava um frio de rachar e logo o Zé António se saiu com esta exclamação:


- Olha, Mamã, já viste aqueles senhores que vieram esperar o avião com os robes de lã como o Papá usa lá em casa? É que eles nunca tinham visto um sobretudo, incompatível com as temperaturas tropicais!

 

Depois duma pequena pausa em Lisboa para desalfandegarmos um Audi acabado de chegar da Alemanha e que foi o nosso primeiro carro ainda não usado por outra pessoa, foi nele que seguimos rumo a Portalegre onde, como da primeira vez, fizemos o nosso quartel-general.

 

No entanto, os filhos foram para um Colégio interno, em Tondela, o Quim para a 4ª classe e o Zé para o 1º ano do Ciclo Preparatório, pois eu não estava em condições físicas e psicológicas para cuidar deles e os acompanhar nos estudos. Tínhamos tido muito boas referências deste Colégio e, para acompanhar a sua evolução, nós íamos visitá-los pelo menos uma vez por mês.


Ainda em Janeiro, fomos todos a Távora, visitar a minha irmã e a sua família e regressámos por Viseu, onde visitámos o Museu Grão Vasco, a imponente Sé Catedral e também, em homenagem patriótica, a Cava de Viriato com a estátua deste guerreiro, chefe dos Lusitanos e, portanto, nosso valoroso antepassado. Fizemos uma paragem em Fátima, onde, com a oferta das nossas velas, demos graças a Nossa Senhora por todas as vezes que, intercedendo em nosso favor, nos cumulara com tantas bênçãos.Passadas as férias do Carnaval na Broa e com frequentes passeios, com os Bisavós, à Serra de S. Mamede, toda coberta de neve, que os nossos filhos, deslumbrados, puderam apreciar pela primeira vez, partimos a caminho do Colégio de Tondela, não sem fazermos uma pausa que nos permitiu visitar Coimbra: tanto a velha Cabra como a moderna Cidade Universitária, o magnífico Jardim Botânico e ainda o Museu Machado de Castro. Não podíamos deixar passar a ocasião, dada a idade dos nossos acompanhantes, de fazer uma visita demorada ao Portugal dos Pequeninos, com a competente explicação de monumentos e arquitectura civil, ali amorosamente preservados, em minuciosa e perfeitas miniaturas, para memória dos vindouros.
Dali fomos ao Mosteiro da Batalha, procurando fazê-los compreender, não só o alto significado histórico daquele monumento como também, na medida do possível, a sua riqueza arquitectónica, que tão bem ilustra o gótico flamejante. Ficaram estupefactos com a beleza das Capelas Imperfeitas e estranharam a designação até lhes termos explicado que se designavam assim porque nunca foram concluídas, portanto per-feitas, ou seja, completamente feitas.

          


Entretanto chegou o dia dos meus anos e, instalados em Mérida, no Parador Via de La Plata, visitámos, só o Vôvô e eu, aquela histórica cidade, cheia de monumentos notáveis, entre os quais se destaca o emblemático Arco de Trajano.

               


E chegaram, finalmente, as tão ansiadas Férias da Páscoa. Partimos imediatamente para o Colégio de Tondela e daí, passando pelo Caramulo para visitarmos o merecidamente célebre Museu dos Automóveis Antigos, seguimos para o Porto, onde visitámos demoradamente o Palácio de Cristal, sem faltar o tradicional passeio de barco, no Lago. Admirámos ainda as esplendorosas talhas douradas da Igreja de S. Francisco e subimos ao alto da Torre dos Clérigos para de lá apreciarmos as vastas panorâmicas sobre a Cidade.


Tinha, pois, começado auspiciosamente aquele passeio cultural, mas ainda estava praticamente no início. Começáramos por Távora, para visitarmos a Tia Maria Alice e a sua família, então ainda sem a Cândida e Lele que viriam nos tempos próximos. Fomos, todos, ao Pereiro para eu lhes mostrar a casa onde nasci e os sítios encantados da minha infância e dali partimos para o Pisco, uma quinta onde o meu tio Carlos tinha feito a reprodução dum monte alentejano, com dependências para o caseiro, para os animais e até um pombal onde os pombos arrulhavam, fugindo em debandada cada vez que o altifalante emitia ordens para o pessoal, ocupado a tratar das extensas vinhas e pomares. Fomos também a Lamego, onde visitámos a Sra. dos Remédios com o seu monumental escadório e a Sé, esta um pouco apressadamente porque a minha irmã se sentia bastante enjoada, devido às muitas curvas da estrada Távora-Moimenta da Beira e à gravidez de que ainda se não tinha dado conta e de que havia de resultar, daí a alguns meses, mais uma sobrinha para mim: a Cândida.


Dali seguimos para o Nordeste Transmontano: passámos por Alijó e admirámos o seu Miradoiro, com uma imponente imagem a Nossa Senhora, Padroeira de Portugal e do Mundo, fotografámos a porca pré-histórica, que se encontra num monumento do centro de Murça,

dessedentámo-nos nas belas fontes de Mirandela e encantámo-nos com Romeu, «vila das rosas» e Vilaverdinha, aldeias transmontanas melhoradas, o que, na época, era autêntico pioneirismo. Já em Miranda do Douro, apreciámos os majestosas arcarias do antigo Paço Episcopal e os miúdos encantaram-se com o Menino Jesus da Cartolinha e os seus variados trajes para as diferentes festividades.

                   

 

Fomos dormir à Pousada, num quarto que tinha a seus pés uma imensa barragem de água muito azul e uma baliza deserta por trás do Paço, desafiou o Zé António para simular umas fantásticas defesas.


Daqui fomos para Bragança. Visitámos o Castelo, de lá a panorâmica sobre a cidade e o Quim ficou cheio de importância ao ser fotografado com a enorme chave que lhe emprestaram, qual pequeno alcaide do séc. XX.

          

Passámos depois pela «Domus Municipalis», impressionante pela originalidade daquela antiquíssima construção e pelo papel que, em tempos longínquos desempenhou na vida cívica do burgo.. Em Chaves, também não deixámos esquecido o vetusto Castelo, com as suas ameias ponteagudas, mas o que mais nos impressionou foram as típicas varandas e os velhos solares, muito bem conservados. Ficámos intalados na Estalagem Santiago, muito confortável e, depois dum curto passeio à beira-Tâmega, ainda tivemos tempo para ir espreitar o rally, a decorrer em Carvalhelhos. Atravessámos a deslumbrante paisagem das barragens e não quisemos deixar de ir a Montalegre, no Barroso, onde comemos o melhor bife das nossas vidas.


Seguiu-se então o Minho: em Braga visitámos o Bom Jesus, trepámos toda aquela escadaria com os seus passos do Calvário e, em Viana do Castelo, subimos ao Monte de Santa Luzia, admirando um panorama que parecia não mais acabar e fomos ver as citânias, impressionantes na sua antiguidade e manifesta prova de que o Mundo começou há muitos e muitos anos. Claro que passámos por outros sítios inesquecíveis: Vila do Conde Póvoa do Varzim, Ofir, Caminha e, por Valença, entrámos na Galiza.


Passámos por Vigo, admirando as espectaculares rias baixas, a deixarem emergir as numerosas Islas Cies, mas seguimos para Santiago de Compostela, onde a majestosa catedral de granito não iludiu as nossas expectativas. Estava-se em Ano Santo, o que nos possibilitou assistir à cerimónia do botafumeiro, um descomunal turíbulo que oito homens balançavam para encher com perfume de incenso todo o interior da Igreja, em cujas varandas superiores se acolhiam, em tempos idos, os peregrinos sujos e doentes. que tornavam o ar irrespirável e malsão.

 

 

Foi essa antiquíssima cerimónia e o gesto simbólico de dar uma cabeçada na escultura do Apóstolo, na esperança de, assim, verem acrescentados os seus dotes intelectuais, que maior impacto tiveram nos dois rapazinhos. A nós, além da sensação de pequenez que tivéramos, logo à chegada, perante a gigantesca mole granítica da Catedral, a harmonia grandiosa da Praça do Obradoiro, com o conhecido e caro Hostal de los Reys Católicos, a artística escadaria conhecida por Ferradura, deslumbrou-nos, sobretudo, o interior da Catedral, com os seus magníficos altares, especialmente o altar-mor, dedicado a Santiago, onde se encontra uma escultura do Apóstolo, cuja capa todos querem abraçar, os órgãos monumentais que, nas grandes ocasiões, inundam de música todo o espaço como se os anjos do Céu se tivessem congregado ali para louvar a Deus e nos transportarem até Ele., o rico Museu da Catedral e o claustro com suas arcadas, donde se avistam as bem lançadas torres e coruchéus.


Seguimos, então, para La Coruña, onde o monumento dos Anjos músicos representou, para nós, as boas vindas da “Galícia, terra meiga» e pudemos apreciar, do alto da Torre de Hércules, a vasta e interessante panorâmica da cidade e do mar que a rodeia. Regressávamos, agora, por Vigo mas, entretanto, alguém fez uma esmorradela no nosso Audi, logo se prontificando a mandar arranjar a chapa e a dar-nos uma pequena indemnização para, em Portugal, restaurarmos a pintura e, assim, não perturbarmos muito a nossa viagem. Aproveitámos a inesperada pausa para subir ao Monte Castro, magnífico Miradoiro donde se avista não só a cidade mas também um largo espaço das rias e se pode admirar um monumento aos galeões que, no princípio do século dezoito, naufragaram naquelas águas: três âncoras elegantemente justapostas sobre uma vasta base de mármore. À noite, no hotel, assistimos pela primeira vez ao Festival da Canção, vendo a Tonicha representar Portugal com a simples mas melodiosa canção “Menina”, muito divulgada, depois, pela Televisão e pelas rádios.


Ainda visitámos a Catedral de Pontevedra e eu, que tanto admiro a poesia de Rosalía de Castro, tentei uma peregrinação à casa da poetisa galega, prémio Nobel da Literatura, mas encontrava-se em grande estado de degradação, fechada e com tábuas espalhadas em redor, talvez o começo dos preparativos para a sua reconstrução. Quisemos terminar a nossa viagem à Galiza com a visita à Catedral de Tuy, ali perto da fronteira portuguesa, mas encontrámo-la encerrada.


Assim, regressámos a Portugal para completar um circuito que, como vêem, foi enriquecedor de todos os pontos de vista. Mas como já devem estar cansados de nos acompanhar nesta longa viagem, a ela voltarei na próxima carta pois as férias da Páscoa ainda mal vão a meio.

 

A nossa longa estadia em Angola sem virmos a Portugal e o desconhecimento que os nossos dois filhos (agora já mais crescidos) tinham do nosso querido país mais que justificavam esta autêntica peregrinação que acabo de vos relatar com continuação na próxima carta.


Muitos beijinhos e abraços desta Vóvó que, enquanto Deus lhe der forças para isso, não trocará por nada esta queda de andarilha.

 

publicado por clay às 00:56 | link do post | comentar | favorito
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