Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 28.02.08


Meus queridos netos:

Quando se deu o repentino e feroz eclodir da guerra, lá longe, no Norte de Angola, a nossa pequena família – o Vôvô, o Tio Zé e eu ( Tio Quim ainda não tinha nascido) – vivíamos na Caála (hoje Kahala), uma vila muito tranquila, onde quase toda a gente se conhecia e se estimava. Tínhamos uma grande moradia atribuída ao Vôvô devido às funções administrativas que exercia e que ele próprio dotou dum pequeno mas bem cuidado jardim, na parte da frente da casa. Atrás, estendia-se um vasto quintal, com variadas árvores de fruto – nespereiras, figueiras e duas imponentes mangueiras – instalações para os empregados e um galinheiro quase sem uso, a não ser no Natal, data em que, no ano seguinte, nos foram oferecidos alguns cabritos. Não nos serviram de muito, porque fomos assaltados e só nos deixaram o mais enfezado de todos.

Foi então que um comerciante, amigo do Vôvô, lhe ofereceu um cachorrinho “Leão da Rodésia”, que ele dizia viria tornar-se uma fera e nos deixaria totalmente a salvo dos ladrões. Não contava, porém, com a amizade que desde o primeiro dia se estabeleceu entre o cão e o Tio Zé que, tendo crescido ao mesmo tempo que ele, se lhe afeiçoara de tal modo que muitas vezes me deparei com esta cena insólita: o cão, que se tornou enorme, deitado de lado no chão da varanda, esperando pacientemente que o Zézinho acabasse de comer o lanche, fazendo do seu lombo o banco predilecto. Seguia-o por todo o quintal e esperava, pacientemente, que ele, não conseguindo chegar às nêsperas, se entretivesse a apanhá-las do chão e a comê-las, até que eu me apercebia do que se estava a passar e tentava fazer-lhe compreender que as nêsperas estavam sujas de terra e precisavam de ser lavadas. Mas a verdade é que nunca lhe fizeram mal à saúde e o ajudaram a criar defesas imunitárias.


A Vila era atravessada por uma longa Avenida bem cuidada, com canteiros de dálias e outras flores e, quase defronte da nossa casa, um pequeno lago com peixinhos vermelhos, que fazia as delícias da miudagem. Ao longo da Avenida, ladeada por moradias entre as quais a nossa casa, a do administrador e a do médico, corria o Caminho de Ferro de Benguela, por onde se escoavam, para o exterior, os minérios extraídos na região e outros produtos como o milho que se guardava em altos silos de que adiante falarei.

Todo o planalto do Huambo era lindíssimo e, dele, o que guardo mais presente na memória são os imensos campos de cosmos que, na

                       

época da sua floração, teciam um fantástico e quase interminável tapete de mil cores: rosa, branco, lilás, um deslumbramento.

Se me demorei um pouco nestas evocações idílicas, foi para melhor exprimir o choque que atingiu toda a gente – não só na Caála mas em toda a Angola – ao ouvirmos os relatos da horrível carnificina provocada pela F.N.L.A. e que se dizia se iria repetir, quando menos se esperasse, em qualquer ponto do território. Os boatos começaram a pulular e não pouparam a então pacífica vila onde vivíamos felizes. À falta de forças militares ou militarizadas, logo se organizaram milícias de civis, municiados com as poucas e antiquadas armas que havia na Administração do Concelho e armas ligeiras de alguns, raros, particulares. O Vôvô, devido à responsabilidade que lhe dava o seu cargo e com prática militar por ter sido ainda há pouco tempo oficial miliciano do exército, foi um dos organizadores desses grupos e estava integrado num deles. Todas as noites faziam rondas, no intuito de proteger as mulheres e crianças dum eventual ataque, frequentemente anunciado para a noite, com grande terror e alarido.

Ao princípio, eu ficava na grande casa térrea, bastante vulnerável, com janelas de vidro sem qualquer protecção, com o bebé e os empregados. Para maior segurança, fui, com outras mulheres, praticar tiro ao alvo. Não sei por que mágica, acertei bem no centro, logo à primeira tentativa mas o certo é que nunca mais repeti tal proeza. Apesar disso, o Vôvô insistiu em me deixar uma pistola na mesinha de cabeceira, enquanto ele cumpria o seu tempo de ronda. Dizia que, em caso de perigo, bastaria dar um tiro para o ar e assim dar o alarme. Ainda bem que nunca precisei de a usar, pois dificilmente accionaria o gatilho, quanto mais atirar contra uma pessoa, fosse em que circunstância fosse. Depois, como os boatos fossem cada vez mais frequentes e alarmantes, foi decidido concentrar todas as mulheres e crianças da Vila em alguns, poucos locais considerados mais seguros: no enorme silo do milho, na Escola Primária, num Cine Teatro e no Banco, o único edifício da Caála com rés-do-chão e primeiro andar. Esses locais ficavam sujeitos a uma vigilância especial, como é óbvio.

E assim, todas as noites, lá pegávamos nós, a Luísa e eu, não só no bebé, mas também num saco de fraldas e biberões bem como numa grande lata de leite em pó – fresco não havia na região – para o caso de ficarmos cercadas pelos atacantes. De manhã cedo, regressávamos a casa, aliviadas por mais uma noite que, embora fosse passada em branco, nada tinha registado de anormal.

Um dia aconteceu um episódio assustador, mas que acabou por ser cómico: como não tínhamos água quente canalizada, foi preciso resolver o problema dos banhos. O Vôvô mandou construir, no quintal, junto da casa de banho, uma espécie de forno a lenha, com tijolos. Lá dentro havia um tambor com água e uma serpentina metálica mergulhada nesta que depois de aquecida era transportada através de um cano até ao interior, onde um regador, voltado para baixo, substituía eficazmente um bom chuveiro. Ora, numa das manhãs em que, saídos dos nossos refúgios, entrávamos em casa pela porta do grande quintal das traseiras, eis que, de repente, se ouve um estrondo medonho e todos gritámos:
- Pronto! Agora é que são os terroristas!
Apertei o bebé contra o peito e encomendei-nos a Nossa Senhora, enquanto o Vôvô, destemidamente, se dirigia para o local donde partira o terrível barulho. Pois bem. O que se tinha passado? Fora o nosso forno que, mal alinhavado por um qualquer curioso, se tinha desmoronado com tal fragor. Como vêem não passou dum grande susto mas outros tivemos, ao longo daqueles conturbados anos, em que corremos perigo de vida mas de que sempre saímos incólumes. Como aconteceu, mais tarde, na floresta virgem do Maiombe, no enclave de Cabinda, no Norte, onde vivemos uma perigosa aventura, de que vos falarei noutra carta.

Beijinhos e até breve. 

                 
                      A Vila da Caála, ao fundo

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publicado por clay às 18:05 | link do post | comentar | favorito
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