Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 02.04.09

 Meus queridos netos:


Creio que a minha verdadeira caminhada de fé começou, por absurdo que pareça, quando comecei, no Liceu, a estudar Filosofia e a colocar-me as questões existenciais, comuns no fim da adolescência. Tive então a sorte de, na minha aldeia, haver então um sacerdote jovem e razoavelmente culto, com o qual tive longas conversas, expondo as minhas dúvidas.


Recomendou-me, para leitura, o livro «Psicologia da Fé», do Padre Leonel Franca, S. J. Daí colhi a ideia, que nunca mais pus de parte, «O obstáculo principal da fé não está nas dificuldades intelectuais que ela suscita, mas nos sacrifícios que impõe”E, outra não menos importante: «O primeiro dos obstáculos à conquista da fé (…) é, incontestavelmente, a ignorância religiosa». E quão grande, tive de admitir, essa minha ignorância! Ajudou-me também o estudo que, um pouco mais tarde, fiz de Pascal, nunca mais esquecendo, a sua sensata teoria: se considerarmos que a vida eterna é uma aposta, mais vale apostar nela ainda que não exista, do que apostar contra ela e perder a aposta.


Mais tarde, de 1962 a 1965, teve início o Concílio do Vaticano II, com tantas inovações a nível do ritual litúrgico com o abandono da missa em latim, a insistência, junto dos fiéis, para que lessem a Bíblia e aprofundassem o conhecimento dos textos sagrados, sobretudo do Novo Testamento e a publicação dos Documentos Conciliares, completados, mais tarde, com o Catecismo da Igreja Católica. Tanta riqueza de doutrina!


Quando morreu o Papa João XXIII, o grande obreiro do Concílio, sucedeu-lhe João Paulo I, o papa do sorriso e do amor, cujo pontificado se resumiu a um mês. Dele e da sua morte já vos falou o Vôvô, numa das suas cartas. Passo, pois, para o Papa da minha predilecção, João Paulo II, que revolucionou as relações da Igreja com os vários povos da Terra que, incansavelmente, percorreu, mesmo quando a sua avançada idade e frágil saúde já faziam dessas visitas apostólicas situações de grandes sacrifícios. João Paulo II, a quem a sua nacionalidade polaca ajudou a conhecer, desmistificar e combater as doutrinas comunistas, deixou-nos uma vasta obra, de que realço «Para além do limiar da esperança», «Fé e razão», além de numerosas e importantíssimas Cartas Encíclicas: sobre a misericórdia divina, sobre a Família, sobre o trabalho humano, sobre o mistério e culto da Eucaristia, sobre Cristo, redentor do homem, sobre a Mãe do Redentor e tantos outros documentos onde o cristão pode ir buscar conhecimentos, orientação e conforto espiritual. Foi extraordinária a sua resistência ao sofrimento até ao último sopro de vida, quando humildemente exclamou: «Parto para o Pai» e a sua devoção por Nossa Senhora de Fátima, cujo santuário visitou três vezes para agradecer a Nossa Senhora o ter-lhe salvo a vida. Prestes a ser canonizado, é para mim, já agora, um santo junto de Deus. Sucedeu-lhe o actual Papa, Bento XVI, que também tem escrito livros admiráveis, entre eles, «Deus é Amor». Não tendo viajado tanto como o seu antecessor, encontra-se nestes dias em África e hoje em Luanda, onde foi levar a sua mensagem de justiça e solidariedade.


Nesta minha caminhada, tem-me sido de especial ajuda o facto de o Vôvô partilhar as minhas convicções e me acompanhar, todos os domingos, à celebração da Eucaristia. Apesar de todos os meus esforços, com a participação num Grupo Bíblico e o acompanhamento de acções de formação religiosa, tenho de confessar que ainda hoje dou por mim a questionar Deus, sobretudo quando se me deparam crianças com doenças muito graves, situações de guerra e de flagrantes injustiças. Mas habituei-me e a aceitar a minha insignificância e a pensar, como diz o povo, «que Deus escreve direito por linhas tortas». Acredito que cada um de nós é livre de decidir o seu destino, quando se trata de escolher entre o Bem e o Mal, mas nada podemos fazer de bom sem a Graça de Deus, obtida através da obediência aos Seus mandamentos e sem a oração.


Destas convicções resulta que o meu grande conforto na velhice, quando, ainda por cima, me vejo sujeita às maiores provações é a leitura e meditação da Bíblia, especialmente do Novo Testamento: os Evangelhos, os Actos dos Apóstolos e as Epístolas, sobretudo as de S. Paulo, o santo que mais admiro juntamente com S, Francisco de Assis. Lamento não ter tido a sorte de, como Santa Teresinha do Menino Jesus, ter nascido para ser santa, ela que entrou no Carmelo aos quinze anos, movida por uma fé inabalável. Mas cada ser criado por Deus tem de fazer o seu percurso, sempre apoiada n’Ele. Basta pensar em S. Paulo que, de convicto perseguidor de cristãos, foi miraculosamente convertido em Apóstolo e destinado a percorrer o mundo de então para levar aos gentios a palavra de Cristo, quase sempre à custa dos maiores sofrimentos, chegando o atingir um tal grau de perfeição que pôde testemunhar: «Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim». E neste ano em que se comemoram os duzentos anos do seu nas cimento, tem sido o meu grande companheiro e fonte de inspiração para o meu livro de poemas «Nos passos de S. Paulo».


Também aprendi a acreditar que todos nos podemos santificar na vida quotidiana, realizando cada uma das nossas tarefas para louvar a Deus, servindo o próximo e nunca nos dando por satisfeitos com o patamar de perfeição que alcançarmos. Nunca nos devemos dar por satisfeitos mas também nunca devemos desanimar. Devemos ter sempre presente que Deus, nosso Criador, tanto nos amou e nos ama que mandou o Seu único Filho, Jesus Cristo, a dar a vida por nós, pecadores.


Todos os dias Lhe peço que vos ampare e vos encaminhe no caminho da Verdade, Ele que é o Caminho, a Verdade e a Vida, que já vos conhecia pelo nome ainda antes do vosso nascimento e que sempre estará disposto, se assim o pedirdes, a estender-vos a Sua mão de Pai.


É só o que posso fazer pela vossa alma, mas creio que não é pouco.


Beijinhos da Vóvó

 


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Sexta-feira, 27.03.09

 Meus queridos netos:


Um aspecto fundamental da minha vida sobre o qual ainda não vos falei é o que diz respeito à minha relação para com Deus.


Nascida numa família católica tradicional, fui baptizada com poucos meses de idade, tornando-me assim católica, apostólica, romana e, o mais maravilhoso de tudo, filha de Deus e revestida da Sua Luz. Quando cresci o suficiente para me portar bem na Igreja, ia todos os Domingos à Missa com os meus pais e irmãos. Estávamos muito longe do revolucionário Concilio do Vaticano Ii: a Missa era rezada em Latim, com o sacerdote de costas voltadas para a comunidade e a minha cultura religiosa era baseada nas homílias, em português, sobretudo quando se referiam às parábolas de Jesus, algumas das quais, como a do Bom Samaritano, fui encontrar mais tarde nos meus livros da Escola Primária.


À noite, depois da ceia, rezávamos, todos juntos, por uma enfiada de intenções: pelas almas do Purgatório, pelos doentes e moribundos, por todos os pecadores, pelos viajantes, pelos que não têm que comer ou que vestir e assim por diante. Quem orientava a oração familiar era a minha Mãe e todos a seguíamos, de pé, excepto o meu Pai que tendo em conta o seu cansaço com as lides da lavoura, tinha o privilégio de rezar sentado.


É claro quem sempre eu compreendia muito bem as intenções por que rezava: por exemplo, o que eram as Almas do Purgatório, mas nenhum de nós, as crianças, se atrevia a fazer perguntas sobre matérias tão misteriosas. E era por isso que, às vezes, saltitando de pé para pé, já cansada, lá entoava a litania, mas sem grande convicção.


O padre, então encarregado da nossa paróquia e de mais outras duas pertencentes a freguesias vizinhas, era já bastante velho e tornara-se um pouco rotineiro. Reunia nas suas missas quase todos os paroquianos – grande raspanete levava algum que faltasse… Os homens estavam separados das mulheres e crianças, mas todos eram seus amigos, tendo por ele o maior respeito.


Quando chegou a altura de fazer a minha Primeira Comunhão, depois de algumas lições de Catequese, onde se aprendia, entre outra coisas obscuras para crianças de cinco ou seis anos que os inimigos do Homem eram três: Mundo, Diabo e Carne. O meu mundo era a minha aldeia e, mais tarde, o dos mapas e dos globos escolares; o diabo sabia eu muito bem o que era: um monstro horrível, com chifres e garras afiadas, sempre pronto a castigar os meninos que se portassem mal; mas a carne? A carne é que era o busílis porque, embora raramente, o meu Pai comprava-a na feira, além de que matávamos o porco e comíamos toda carne, muitas vezes, embora nunca durante a Quaresma.


Devo dizer, no entanto, que não me perturbavam muito esses mistérios, insondáveis para mim. Mais me preocupou e fez sofrer o facto de, no dia da minha Comunhão, para a qual eu sabia que devia estar em jejum natural, me ter deixado tentar por um pequeno cacho de uvas, pois, perto do meio-dia, a fome já apertava. Depois de muitas hesitações, lá arranjei coragem para falar do pecado à minha Mãe que, antes da Missa, me levou ao Senhor Prior, para ele me dar a competente absolvição. Livre de tão grande aflição, já pude gozar, à vontade, a minha festa: o meu vestido novo, branco e o almoço melhorado desse dia.


Já com o Crisma foi mais grave: já com os meus treze ou catorze anos andava na Escola Comercial e, depois duma prelecção colectiva em que nos explicaram, sumariamente, o significado desse Sacramento, juntaram um imenso grupo de alunas que escolheram, para Madrinha, cada uma a professora de quem mais gostava e, terminada a cerimónia nunca mais se falou nisso.


E ainda mais me chocou e entristeceu o Crisma dos meus filhos: frequentavam, na altura, um Colégio interno, de orientação católica, mas nós, os Pais, só soubemos que tinham sido crismados, na cerimónia presidida pelo Bispo, quando eles nos escreveram a dizê-lo e a mandar-nos, cada um, a pagela comemorativa que lhes tinha sido oferecida.


Aí, já tinha corrido muita água sob as pontes, já tinha tido lugar o Concílio do Vaticano II, donde emanou o Catecismo da Igreja Católica e que tão grandes e importantes reformas trouxe para a Igreja Católica.


Na próxima carta, falar-vos-ei da minha caminhada de Fé, que, graças a Deus, continua.


Beijinhos dos Vóvós
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Segunda-feira, 23.03.09

 

 

 

Hoje estou triste, ó Deus,
e não Te reconheço:
olho o mundo em redor,
o mundo a ferro e fogo,
quando Tu deste a vida
por um mundo melhor.

 

Hoje estou triste, ó Deus,
porque me sinto só,
pobre e desamparada.
Eu quero acreditar, Senhor,
que Tu «és tudo em todos»
e em mim não sinto nada.

 

Olha: já não estou triste
pois, a falar Contigo,
mesmo neste lamento,
senti-Te a consolar-me,
a dar-me novo alento.

 

Não estou triste, ó Deus,
porque a minha tristeza
era falta de Ti.
E agora sim: vejo-Te
em cada irmão
como nunca Te vi.

 

 

Lisboa, 2 de Maio de 2006
    Clementina Relvas


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