Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 29.11.12

 

Ilustração de Cristina Kohlhoff Feijó Relvas

 

O ar está a tornar-se irrespirável, letal. Tudo, pessoas e coisas, progressivamente se esfumam, como naquelas

manhãs em que os aviões têm de continuar em terra, apesar dos protestos dos que veem os seus planos gorados: passeios, negócios, encontros sentimentais, tudo aquilo de que a vida é feita e agora parece prestes a soçobrar no nada.

 

Os arranha-céus apagam a sua majestosa imponência numa nuvem de fumo que lembra o rescaldo dum grande incêndio, mas a verdade é que estão incólumes. Se incêndio houver, ainda mal começou, embora ameace vir a ter proporções dantescas.

 

Que estranho fenómeno! - pensa o relógio, de si para si: Colorido e nítido aos olhos que sabem e querem ver, tem um lugar central, no meio dum abundante feixe de ramos, despidos de folhas e um molho de lisos troncos, com as raízes desaparecidas por um corte certeiro, como se se tratasse dum arranjo envenenado para dar a

alguém que se ame – continua o relógio nos seus funestos pensamentos.

 

E aquele grupo de seres, cujas formas e feições estão reduzidos a esboços, eles que, ameaçados como os arranha-céus, estão a caminho da destruição total? Caminham como cegos. Desviados para os mais fúteis pensamentos, julgam-se eternos, sem se aperceberem do lixo espalhado por toda a parte, das emissões de carbono emitidas pelas fábricas, por carros que proliferam aos milhares mas que só os perturbam quando lhes roubam o espaço para estacionarem o seu; e fenómenos da natureza que dantes eram mais raros e menos destruidores. Sim. As calotes de gelo a derreterem nos polos, provocando todas essas calamidades ...  Nada disso os preocupa, embora sintam os olhos cada vez mais nublados, tanto que já nem se apercebem do relógio, das suas cores vivazes e que insiste em comer o tempo que se esvai.

 

O relógio? Será que o relógio, o tempo,sairá incólume, para medir a eternidade que nos foi prometida por Deus?

 

Lisboa, 29 de Novembro de 2012

 

Clementina Relvas

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Quinta-feira, 08.07.10

Aquela numerosa família, era uma das que, só no Botswana, contribuía para, nas contas de traficantes de marfim e dos fazendeiros cobiçosos de vastos espaços para as suas plantações, se atingirem as cifras astronómicas dos muitos milhares destes paquidermes. O que as autoridades prometiam não agradava aos primeiros, nem aos defensores dos direitos dos animais e muito menos aos elefantes, se o seu cérebro descomunal tivesse o dom de adivinhar o futuro. Quanto aos fazendeiros, falava-se de altas compensações aos responsáveis.

 

A verdade é que, até agora, todas as manadas se dedicavam a percorrer diariamente, seguidas pelas crias, milhares de quilómetros da savana, só parando para comer a sua ração de folhas e de capim, se esfregar no tronco das raras árvores que encontravam de quando em quando e para as prolongadas e deliciosas banhocas nos charcos, cada vez mais secos, que lhes proporcionavam a sua melhor distracção.

 

Era já ao cair do dia, quando os poentes africanos tingiam, repentinamente, duma fantasmagoria de ouro e cor de laranja, os longínquos limites da Terra, que aquela família de elefantes se metia charco ou rio dentro e se rebolava na lama molhada para ter o bom pretexto de longa e abundantemente se aspergirem com a tromba, o seu natural e ecológico chuveiro.

 

Claro que quem mais se divertia eram os filhotes, atirando-se para o lamaçal onde não se cansavam de brincar uns com os outros e buscando depois, com as pequenas trombas erguidas, chamar a atenção dos mais velhos para a necessidade de mais uma chuveirada, se é que em animais tão, como dizer sem risco de equívoco, em animais tão pequenos já podia haver segundas intenções. Por ali se ficavam até a noite cair, prosseguindo depois a marcha, nesse dia ou no seguinte, até ao local que tinham por destino, a quilómetros e quilómetros de distância. Feitas as contas, se as soubessem fazer, toda a savana era sua.

 

Mas, de há uns tempos a esta parte, algo se sentia no ar que não augurava nada de bom. É verdade que havia menos elefantes desdentados pois, dizia-se, os traficantes de marfim estavam sob apertada vigilância e, se apanhados em acto de delito, sujeitavam-se a pesadas coimas e até mesmo a longas penas de prisão. Mas, por outro lado, constava que, embora com uma forte oposição dos seus defensores, os grandes fazendeiros procuravam obter enormes áreas de terra que, destinadas à agricultura e à pecuária, não podiam estar sujeitas à devastação causada pelos passeios dos elefantes. E então, que sugeriam?

Erguer-se-iam numerosas cercas bem sólidas e, em seu entender, suficientemente espaçosas para o dia-a-dia de cada família de elefantes.

 

- Mas isso é o que eles chamam uma prisão! E bem estreita para as nossas necessidades - dizia o chefe da manada.

- É mesmo não perceberem nada de elefantes habituados à savana - acrescentava outro.

- Eu não quero ser intriguista, mas a minha prima já me veio falar duma história de corrupção, que eu não entendo o que seja – opinava uma mais velha.

- Nós somos tantos e temos tanta força, porque não organizamos uma revolta de elefantes e não os impedimos de construirem as cercas?- sugeriu um pequenote que só sonhava com filmes que nunca vira e com heróis de banda desenhada que já algumas vezes lhe tinham aparecido entre as patas, deixadas por algum miúdo, mais interessado no safari.

 

Este foi um assunto de que tomei conhecimento num documentário exibido na Televisão e que me tirou o sono. Excepto as conversas dos elefantes, claro, porque é um problema do nosso tempo e não daquele em que os animais falavam. Mas não são conversas difíceis de imaginar…

 

E também não faço ideia do pé em que se encontra uma tão grande monstruosidade, que espero se não torne real.

                   Lisboa, 6 de Julho de 2010                                  

                        Clementina Relvas

 

 

 

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Sexta-feira, 25.06.10

 

                         Quando começaram a atirar imprestáveis para aquela sucata, lançaram para lá, à toa, uma velha enxada que o seu dono tinha usado durante muitos anos e guardado depois, saudosamente, já que, só lá de quando em quando, a utilizava para dar um jeito em canteiro mais esquecido.

         Agarrada à enxada, ia uma sementinha que, com a queda, foi parar a um pequeno pedaço de terra ainda a descoberto, ao lado dum velho regador já sem o ralo e com muitos furos e amolgadelas.

         Ao fim dalgum tempo, a sementinha espantou-se de sentir a terra húmida e, quase sem dar por isso, começou a inchar, a inchar e em breve saiu cá para fora um caulezinho de nada que se foi desenvolvendo, derramando-se em folhas e, por fim, num botãozinho duma flor.

        Enquanto se desenvolvia, a sementinha agora planta ia-se entretendo a observar o que se passava a sua volta.

       A princípio, assustou-se muito com os estrondos que faziam, ao cair, velhos frigoríficos já sem gás, máquinas de lavar entupidas de cálcio e até alguns automóveis que, ao vê-los, se ficava com a estranha impressão de que bem gostariam de contar as suas vidas recheadas de viagens e aventuras, mas rematadas por um fim dramático, como bem se podia adivinhar pelas suas destroçadas carcaças.

      Depois, quando se sentiu já mais adaptada àquele estranho ambiente, começou a reparar em coisas mais pequeninas: máquinas de café, torradeiras e um velho regador que lhe tinha calhado por vizinho e que, sem ela dar por isso no fundo da sua prisão, lhe tinha ido preservando a vida pois, a cada vez que chovia, lá guardava ele o seu bocadinho de água que não se escapava pelos buracos e ia deixando cair, espaçadamente, sobre a sementinha e, mais tarde, no pé da pequena flor.

       Ah! Ainda não revelei que o botãozinho desabrochara num malmequer de enormes pétalas brancas, distribuídas à volta dum centro amarelo, onde as abelhas iam desencantar o pólen, levando assim, para aquele sítio que parecia amaldiçoado, uma pequena festa de danças e de zumbidos.

        Mas, há sempre um mas…

        Claro que a flor, por mais resistente que fosse, não podia durar sempre. Simplesmente, aconteceu um milagre: quando retiraram a sucata para a reciclarem, ficou ali uma enorme mancha de terra, preta dos óleos e da sujidade que por ali se foram acumulando.

       Aconteceu – e aí está o milagre – que o filho do patrão, um rapaz dos seus dezasseis anos, tinha recebido, como prenda de aniversário, uma moderníssima máquina digital, que jamais abandonava, sempre na esperança de tirar a tal fotografia, a fotografia duma vida. Vendo o esplendoroso malmequer, completamente sozinho naquele enorme e feio descampado, foi seduzido pelo contraste e logo lhe tirou uma fotografia, que lhe pareceu ser a tal.

       De facto, algum tempo depois, houve um concurso para fotografias que tivessem por tema a ecologia. O rapaz concorreu cheio de esperança e com fundada razão: ganhou o primeiro prémio.

       Não me digam que ainda não repararam num anúncio da Televisão que divulgou por milhões de pessoas a imagem do malmequer afortunado, não deixando que ele morresse nunca.

       Mas ele sim, reparou. Ficou feliz e cheio de orgulho, mas com uma estranha dor a minar-lhe e coração: gostaria de ver, ali a seu lado, o velho regador que, meio desfeito, o tinha ajudado a passar de sementinha a flor, como uma mãe carinhosa que, cumprida a sua missão deixa o seu filho livre de seguir o seu destino.

 

 

                            Clementina Relvas

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Sábado, 19.06.10

                           

 

                  Todos os anos, quando o Inverno estava prestes a chegar, aquela andorinha integrava o seu bando e rumava ao sol do Norte de África.

 

                 Aí, em vez de fazer o seu ninho de gravetos e de lama no beiral da Igreja paroquial, como era seu costume, ia instalar-se no rebordo da Mesquita, onde sempre tinha sido muito bem recebida, pois era tida por mensageira da paz e da fertilidade. É verdade que, cinco vezes ao dia, o brado do muezzin, chamando os crentes à oração, lhe transtornava um pouco o sossego mas, como ela era tolerante e muito prática, aproveitava esses momentos para ir dar um passeio: umas vezes dirigia-se às margens do Nilo, onde contemplava as falucas , os cavalos puxando carruagens já muito usadas, com turistas deslumbrados, sempre a disparar as suas máquinas fotográficas ou pondo-se à conversa com outras vizinhas, que adoptavam o mesmo estratagema; outras vezes dirigia-se ao Grande Bazar e, embora soubesse que aí não era muito desejada, escondia-se num buraquinho donde podia observar os frutos variados e apetitosos, as especiarias tão coloridas e perfumadas que quase a faziam desfalecer, as extensas montras dos ourives cheias de brilhos ou o estendal de tapetes com os mais variados desenhos e cores. Era divertido, mas também um pouco fatigante, sobretudo devido ás intermináveis discussões necessárias para se chegar a acordo sobre um preço que satisfizesse vendedor e comprador.

 

                 Assim, mal lhe parecia que, por agora, o muezzin se tinha calado, regressava ao aconchego do seu ninho, no rebordo da Mesquita. Dormia então a sua soneca, reparando as forças para a viagem que, a seu devido tempo, a havia de trazer, de novo, ao doce sol de Portugal e ao beiral da sua Igreja que, em vez do vozeirão do muezzin, desfiava alguns acordes duma suave melodia, para anunciar as horas ou chamar os fiéis para a missa.

 

                 Mas, naquele ano, na sua viagem de regresso, o seu coração foi ficando apertado, primeiro com maus augúrios e depois com o que via: ao longo da Europa, o caminho que mais gostava de percorrer – não conseguia localizar certas aldeias que simplesmente tinham sido arrasadas pelas cheias; via florestas inteiras com os ramos despidos, atingidas pelas chuvas ácidas. E sentia-se desnorteada, pois nenhuma daquelas paisagen lhe era familiar.

 

                 Ao passar sobre um lago, no Sul de Espanha, ia-lhe caindo a alma aos pés: dezenas de aves e de peixes mortos ocultavam as margens, onde tinha pensado parar um pouco para recobrar as forças. Teve de seguir caminho e, um pouco mais adiante, poisou num bonito castanheiro mas logo se apercebeu de que ele estava doente, com o grosso tronco cheio de manchas vermelhas, verdadeiras chagas, de difícil cicatrização.

 

                 Olhando à sua volta, viu que já estava na fronteira de Portugal, portanto perto da sua primeira casa, onde iria construir ou reparar o seu ninho e criar uma nova família.

 

                 Tomou alento e foi voando, sem a alegria dos anos anteriores, mas sempre esperando voltar a encontrar os prados verdejantes, os ribeirinhos límpidos e múrmuros e, finalmente, a sua Igreja branquinha, de torres esguias e beiral acolhedor. Mas o seu coração ia parando, ao sobrevoar o regatinho que deixara límpido e agora estava acastanhado com as descargas provenientes de pocilgas que, como cogumelos, foram crescendo a toda a volta da aldeia.

 

                 Era meio-dia. Estava frio, ao contrário do que sempre tinha acontecido. Procurou a Igreja, ansiosamente, mas só viu um montão de ruínas. Até as duas torres esguias tinham sido devoradas por um incêndio, culpa de alguém que, maquinalmente, atirara um fósforo ainda aceso para a bonita mata circundante, onde ela tinha sempre mesa posta, no Verão, graças aos inúmeros piqueniques, sobretudo de emigrantes a celebrar o reencontro com a terra, a família e os amigos.

 

     Sem pontos de referência, desolada, a andorinha, enfiando-se no buraco duma parede semi desfeita escondeu a cabeça debaixo das asas e desatou a chorar.

    …………………………………………………………………

 

     Mas eis que chega a velha Titá, sua amiga de muitos anos e lhe pergunta se não quer continuar sua vizinha, num sítio lindo que tinha encontrado: o beiral duma pequena capela, há pouco erigida no alto do Monte Verde, assim chamado porque tinha à sua volta uma aprazível e bem cuidada mata, onde se continuavam a fazer animados piqueniques.

 

     Claro que aceitou, não acham?

 

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Sexta-feira, 11.06.10

 

                              Tinha sido, pelo menos até àquele dia, a mais imponente ave daquela capoeira: o seu corpo, livre de qualquer senão, era coberto de penas luzidias, de vários matizes e dispostas em camadas impecáveis. Quanto à crista, bem vermelha e recortada, constituía, indubitavelmente, a sua coroa de glória, só comparável à voz, tão potente e cristalina que, ao ouvi-la, até os mais dorminhocos acordavam bem dispostos.

 

                            Sabia promover a paz na capoeira, com paciência e diplomacia e não havia notícia de, pelo menos nas redondezas, haver um galo que pudesse rivalizar com ele. E assim vivia, feliz, até que um dia…

 

                           Um dia a dona chegou com um grande cesto de milho que, como era seu costume, começou a espalhar no terreiro, de forma a  que todos pudessem comer, sem atropelos. Um frémito de excitação propagou-se a todo o bando, maravilhado com a  abundância do milho e o tamanho dos seus grãos.

 

                             Houve, porém, uma excepção de peso: o nosso galo Farrabrás, que nem sequer tocou no milho.

 

                            Ao princípio, a sua abstinência passou totalmente despercebida. Mas, uma vez saciadas, algumas galinhas houve que perguntavam a si mesmas se ele não estaria doente. E a sua preocupação agravou-se quando, no dia seguinte e no outro e no outro, o galo se manteve fiel ao jejum, como se tivesse feito alguma promessa ou jura. Mas não. O que havia acontecido é que, uns dias atrás, ele tinha surpreendido uma estranha conversa entre os dois filhos da dona da casa, ambos a fazer investigação científica. Dizia o rapaz:

 

                       - Milho transgénico? Mas tu não vês que é o milagre do Século XXI? Haverá um tal aumento de produção que nunca mais se falará em fome.

 

                            Ao que a rapariga retorquiu:

 

                       - Estás louco! Hás-de ler um relatório científico que ainda ontem me chegou às mãos e que me deixou aterrada.

 

                       - Porquê, poderás dizer-me?

 

                       - Olha, chegaram à conclusão de que o milho transgénico é uma bomba de pesticidas, com graves consequências nos animais e nos humanos e, além disso, as experiências em cobaias mostraram que a sua ingestão fez com que os machos crescessem  menos e as fêmeas se desenvolvessem muito mais.

 

                        Foi só ao ouvir esta última parte da conversa que o galo se sentiu seriamente preocupado: a ser assim, ele deixaria de ser o rei da capoeira, enquanto as galinhas ganhariam corpo e poder.

 

                       Vendo tão seriamente ameaçado o seu estatuto, o galo resolveu protestar à sua maneira: fazer uma greve de fome, evitando assim comer o milho transgénico.

 

                       A sua dona não era capaz de entender tão estranha como inesperada atitude. Que se passaria com o galo? Que fazer para preservar tão cobiçado animal? Vendo-o emagrecer, pender a crista sem graça e permanecer calado por mais bonita que se apresentasse a manhã, a dona começou a dar-lhe os seus miminhos de dieta, que ele devorava com fome de tigre. E, pouco a pouco, retomava o seu antigo e esplendoroso vigor, enquanto as galinhas, de papo cheio, iam morrendo sem causa aparente mas que o veterinário, consultado pelos proprietários a conselho dos filhos, atribuía às quantidades significativas de pesticidas, recolhidas nas análises que, dizia ele, também  iam exterminando borboletas e outros insectos que viviam perto do campo de  milho transgénico, conforme vários testemunhos que já lhe tinham chegado aos ouvidos.

 

                       Quando a dona do galo se convenceu de tal problema, jurou que nunca mais recorreria ao milho transgénico, por mais barato e apetitoso que parecesse.

 

                        E, daí a alguns dias, o galo cantou tão alto e afinado que toda a gente naquela terra, até mesmo os mais dorminhocos, acordava sempre bem disposta e feliz.

 

 

                             Clementina Relvas

 

                     

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Sexta-feira, 04.06.10

  

                                                     O peixinho Barbatanas – assim lhe chamavam os amigos em razão da sua cauda, longa e brilhante – era um lindo peixe vermelho e dourado que vivia numa lagoa, formada por um braço de rio, onde sempre se sentira seguro e feliz, na companhia de algumas rãs que passavam a vida a coaxar, ou a ver as acrobacias das libelinhas, em danças improvisadas ao som da música das cigarras.

 

            Não sabia bem que idade tinha, mas sempre, até àquela data, se sentira forte e saudável, nadando sem descanso até à hora de ir para a cama, que, por um feliz acaso, fizera debaixo duma grande folha de nenúfar, o que o protegia do vento e dos rigores do sol, já que a chuva não podia ser desagrado para quem nascera e vivia dentro de água.

 

            Sentia-se privilegiado, pois nunca lhe faltara a comida, a amizade dos amigos e, sobretudo, o amor duma criatura tão encantadora que não parecia pertencer àquele mundo, e que ele sempre tratara por «minha sereia».

 

            Tudo seria perfeito, se o peixinho Barbatanas e a sua numerosa família, bem como alguns amigos ou meros conhecidos não tivessem começado a definhar a olhos vistos: tinham perdido o apetite, moviam-se lentamente, como por obrigação e desinteressaram-se do coaxar das rãs e da dança das libelinhas, também elas atingidas por um torpor que não deixava pressagiar nada de bom.

 

            Estavam as coisas neste ponto, quando resolveram fazer uma reunião aberta a quantos nela quisessem participar. Vieram novos e velhos, mulheres e crianças, alguns mais interessados na quebra da rotina do que na discussão de tão importante problema. Mas o peixinho Barbatanas é que não quis perder aquela oportunidade: afastou os brincalhões e os fala-barato e rodeou-se dum grupo de pessoas que estavam sempre prontas a ajudar a resolver os problemas da pequena comunidade. Depois de muitas sugestões, mais ou menos interessantes – e algumas delas disparatadas – tomou a palavra um peixe ainda muito novo mas que todos consideravam inteligente e ponderado, além de que era, sem qualquer sombra de dúvida, o mais viajado de todos. De vez em quando, desaparecia por uns tempos da lagoa e regressava sempre cheio de novidades. Nesse dia, tinha ele voltado a casa, após uma longa ausência e eis o que se apressou a propor: que fizessem das fraquezas forças e fossem em busca dum lugar mais seguro para viver. Dizia ele que a comunidade estava doente porque no braço de rio, um pouco mais acima, havia uma enorme pocilga que poluía as águas, especialmente as águas paradas da lagoa. Mas, se quisessem aceitar a sua sugestão, estava disposto a servir-lhes de guia, até à nascente do rio, um lugar tão despoluído e formoso que alguém se lembrara de lhe chamar «Olhos de Água».

 

            Houve muitas hesitações, pois estavam habituados àquele lugar, mas, ao olharem os olhos mortiços das crianças e a debilidade dos mais velhos, resolveram seguir o conselho do peixinho viajante e puseram-se a caminho: custava-lhes imenso respirar, porque a água se mostrava cada vez mais poluída, mas, com algumas curtas pausas para descansarem e o encorajamento do seu guia, lá conseguiram ultrapassar o esgoto da pocilga e ficaram encantados com a pureza da água que, daí para a frente, corria limpa e saltitante, muito melhor que a da lagoa, mesmo nos tempos felizes. Bem queriam aproveitar aquela corrente ali à mão, a desafiá-los para umas cambalhotas, principalmente aos mais pequenos, mas eram estes que se mostravam mais abatidos, com grande preocupação dos adultos.

 

            Ora, pausa aqui, pausa ali, recomeçavam a respirar melhor e aumentava a sua expectativa em relação ao que aquele sítio mágico, os Olhos de Água, teria para lhes oferecer.

 

            Quando lá chegaram, todos abriram a boca de espanto: esperavam a nascente dum rio, com poucas larguezas para brincarem, mas o que se lhes deparou foi uma grande piscina natural, rodeada de pequenos arbustos verdejantes, sem os nenúfares para se abrigarem mas com tocas na rocha, que começaram a distribuir pelas várias famílias. E, maravilha das maravilhas! Havia por ali muitos peixinhos, grandes e pequenos, que, tinham a certeza, em breve se viriam a tornar seus amigos.

 

            Tudo isto aconteceu na primavera, mas mal o calor começou a apertar, foi como se a sua piscina tivesse sido atingida por um… como direi? Terramoto, maremoto ou, pensando numa palavra mais adequada mas que não existe, um verdadeiro piscina-moto: aos fins-de-semana, começaram a chegar famílias com muitas crianças e todos, miúdos e graúdos, em breve se libertavam das poucas roupas que traziam e, ficando em fato de banho, era certo e sabido que saltavam logo para a água e por ali ficavam a regalar-se, nadando, mergulhando ou simplesmente, se não sabiam nadar, chapinhando pelas bordas da piscina.

 

            Ao princípio, os peixinhos ficaram numa aflição, sem saber que voltas dar à vida, mas em breve descobriram uma solução: enfiarem-se nas suas tocas e, se possível, aproveitarem para dormir uma soneca, enquanto a «invasão» não acabasse. E acabava. Primeiro, uma vez refrescados e cansados do exercício, todos se dirigiam para os abundantes farnéis, colocando sobre mesas desdobráveis deliciosos petiscos. Depois, tinham de fazer a digestão antes de voltarem à água. E, lá pelo fim da tarde, após mais uns mergulhos, todos regressavam a casa, deixando a piscina calma e silenciosa. E, quem havia de dizer? Espalhados pela piscina, ficavam muitos fragmentos de pão e até autênticas iguarias, que saciavam os peixinhos, pelo menos durante alguns dias. Isto, apesar de as mães estarem constantemente a recomendar: «Não sujem a água, meninos, senão em breve não terão onde nadar!».

 

            Ignoravam que, nos buracos, à volta da piscina, havia muitos peixinhos à espera de se regalarem com aqueles restos, deixando de novo a água limpa para as suas acrobacias e para novos mergulhos dos visitantes dos fins-de-semana.

 

            Um dia, os mais pequenos, nas suas brincadeiras, elegeram rei o peixinho viajante que, graças aos seus conhecimentos, os encaminhara para aquele autêntico paraíso terreal.

 

                                 Clementina Relvas

           

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Sábado, 29.05.10

             Quando o burrinho Filó nasceu, naquela pequena aldeia transmontana, havia muitos burros à sua volta: uns, os adultos, carregavam sacos de milho ou de centeio para o moinho da ribeira, feixes de lenha para a lareira, grandes molhos de erva para se alimentarem ou levavam à feira o próprio dono, à falta de melhor transporte, que mais não fosse um cavalo, que sempre era sinal de mais posses; os mais pequenos, e esses já eram poucos, brincavam na rua uns com os outros ou, se calhava encontrarem-se sozinhos nos quintais, perseguindo uma galinha que toda se espanejava à sua frente ou algum cachorro que ainda mal sabia ladrar.

          Comida com fartura, em casa ou no lameiro, água fresca à discrição no velho fontanário e uma festa no lombo ou no meio da testa, era tudo o que precisavam e que lhes parecia não haver de acabar nunca. Mas a vida é cheia de ratoeiras e essas não cabiam nos seus projectos.

         O Filó era um privilegiado: tinha pai, tinha mãe, dois irmãos mais velhos e uma catrefada de primos. Além disso, a dona era uma simpatia de pessoa, sempre a fazer-lhe festinhas, a chamá-lo pelo nome que ela própria escolhera e a escovar-lhe o pêlo até ficar luzidio como seda. O dono era mais sisudo, mas também boa pessoa. Que ele tivesse visto, nunca a vara, que empunhava para guiar os animais, fora usada para, com ela, os fazer andar mais depressa.

       Aqueles donos, em seu entender, apenas tinham um contra: sem filhos pequenos – os dois, já adultos, tinham casado e ido morar para longe – era uma constante mágoa para o Filó ver os seus amigos com crianças escarranchadas no lombo, sempre alegres e ruidosos que era um gosto vê-los.

       Mas o pior estava para vir. Um dia o dono lembrou-se de comprar uma pequena camioneta para o serviço da quintarola e, se tir-te nem guar-te, vendeu os seus burros a uns ciganos que por ali andavam em busca de bons negócios. Foi horrível. Mas o que mais lhe custou foi ouvir o dono dizer:

       - Dá-me mais uma notinha e leva também o jumento pequeno, que não me serve para nada.

      Sentiu-se inútil, claro, e desprezado como se aquele bocado de vida que lhe coubera até ali mais não fosse que um fingimento, um insuportável hipocrisia.

      É verdade que, à sua dona, ainda lhe vieram lágrimas aos olhos e disse, condoída:

      - Coitadinho do Filó! Tão estimadinho, tão engraçado com aquela estrela na testa, tão meu amigo que tanto se divertia a dar-me leves cabeçadas sempre que chegava à minha beira e agora…

      Agora lá foram todos para o acampamento dos ciganos, onde havia muitos meninos mas que, fartos de ver passar por ali tantos cavalos e burros, não se interessavam por eles, até porque sabiam que a estadia nunca teria longa duração.. Um mês, nem tanto, para a família do Filó e mais quatro burros ainda possantes que tinham passado pela mesma tribulação. Tribulação que não se podia comparar à de um casal de burros, já velhinhos, tolhidos pelo reumatismo e que passavam o dia estendidos na palha, a um canto.

      Dizia um:

      - Vê-se mesmo que são burros.

             Ao que outro replicava:

      - Pois, não admira que já ninguém lhes dê valor. E eu até ouvi dizer que são uma espécie em extinção, que em breve não haverá mais nenhum.

            Mas eu vos digo que bem se enganavam em tudo:

            Uma manhã, por sinal uma daquelas manhãs de sol em que só apetecia correr atrás das galinhas e encher o acampamento de zurros de alegria, apareceu por ali um jovem casal que se mostrou extasiado:

      - Olha, é mesmo aquilo de que precisamos para a nossa clínica. Seis burros adultos e mais quatro jumentinhos já dá para começarmos. E; com aquela CERCI ali ao lado, freguesia não nos vai faltar. E até se me corta o coração ao ver aqueles meninos deficientes a quem a hipoterapia havia de fazer muito bem.

        - Eu quero aquele pequenino, com a estrela na testa – disse a rapariga, uma morena simpática e desembaraçada. Será a minha mascote. Vou chamar-lhe Flor, que é o que ele me faz lembrar, não sei porquê. E vou-me divertir a treiná-lo, nas horas vagas, de modo que todos os meninos o escolham para os seus jogos.

       - Pois olha, quanto a mim, só uma coisa me preocupa: aqueles dois burros velhinhos, já tão trôpegos e para ali abandonados e maltratados.

       - Vamos levá-los também. Ensinaremos as crianças a ocuparem-se deles: irão dar-lhes os remédios que vamos comprar e logo se vê o que acontece.

       Fechado o negócio, lá foi o jovem casal, seguido pela récua de burros, até uma vila dos arredores, onde já tinham montado um pequeno hipódromo, com todos os apetrechos que a sua recente formação julgara indispensáveis.

       E foi, de facto, um sucesso: os meninos deficientes, ajudados pelos dois instrutores, aprenderam a montar, começaram a comunicar com eles por meio de festinhas e palavras muito carinhosas ou, se não podiam falar, com gestos ainda mais meigos.

       O Filo, agora Flor, em breve se tornou o ídolo não só da jovem instrutora mas de todos os meninos, que não deixavam passar um dia sem lhe trazerem cenouras, quadradinhos de açúcar e até uma flor com que lhe enfeitavam a pequena cabeçada. Em troca, e como já estava a ficar espigadote, deixava-os montar e dar pequenos passeios, com todo o cuidado para não caírem.

       E os dois burros velhinhos? – perguntareis.

       - Olhem, os remédios fizeram-lhes muito bem, curaram-lhes o reumatismo e já por ali trotam, alegres. sempre rodeados de crianças, cujo convívio lhes restituiu a alegria de viver. E, quem havia de dizer, passaram a ser os mais disputados pelas crianças, à medida que estas iam recuperando, porque eram os mais experientes e dotados duma paciência sem limites.

 

                       Clementina Relvas

                                                                                                                                                                                

                                                                     

 

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publicado por clay às 01:14 | link do post | comentar | favorito
Domingo, 25.04.10

 

 

        Não há dúvida de que aquela clareira, rodeada de pinheiros mansos, era uma pequena amostra do Céu  Em primeiro lugar, havia essas   árvores de copas redondas, com grande abundância de pinhas e ramagens para brincar às escondidas. Durante todo o verão os grilos animavam o recinto, que mais parecia uma discoteca. E às vezes era: quando um dos grupos de crianças que frequentavam o local resolvia fazer uma dança de roda ao som de bonitas canções aprendidas na Escola . Mas isso era depois do lanche. Aliás, muitas vezes os mais pequenos esqueciam as suas brincadeiras e punham-se a observar o esquilo que, entre os ramos, lhes fazia negaças, enquanto com os dentinhos afiados, ia tirando, um a um, os pinhões com que se regalava. Também lhe deviam saber a pouco os bocadinhos de bolacha, de bolo ou mesmo de pão que os meninos deixavam cair na clareira, sempre na esperança de verem o guloso aproximar-.se. Mas qual quê! É verdade que, mal se afastavam por um bocadinho, nada restava ao regressarem. Mas, nunca tendo visto o esquilo, sempre ficavam na dúvida se teria sido ele ou um dos numerosos pardais, que por ali cirandavam o beneficiário das suas migalhas.

 

      Depois, os meninos iam-se embora, muito felizes pela tarde tão divertida e nem lhes passava pela cabeça que o esquilo era, às vezes, uma esquila, ou seja, tratava-se dum casal que procurava revezar-se na guarda e alimentação de duas crias fofinhas, enquanto se divertiam um pouco com as brincadeiras dos meninos. Mas nada de confiança: sempre lá do alto ou quando a clareira ficava completamente livre.

 

     Então, os grilos faziam cri-cri, as borboletas, silenciosas e ligeiras, volitavam de corola em corola, evitando as abelhas zumbidoras, azafamadas na sua tarefa de recolherem o pólen para, no cortiço, fabricarem o mel.

 

     Um dia toda a pacata família ficou aterrorizada, ao ouvir o guarda do parque dizer para o seu ajudante:

 

     - Isto não pode continuar assim. Eu sempre disse que aqui não era lugar para esquilos. Todos os dias temos de varrer os restos das pinhas que deixam cair, lá do alto, para a clareira dos piqueniques que, tal como o resto do parque, tem de estar sempre um brinquinho.

 

     O ajudante ainda disse, meio a medo:

 

     - Mas estes esquilos são tão simpáticos e discretos que não lhes podemos fazer mal. Além disso, têm aqui a sua casa e a sua pequena família…

 

     - Mas, olha lá! Quem é que pensou fazer-lhes mal? Vamos apenas mudá-los para o Espaço Aventura, onde já têm uma boa dúzia deles.

 

      O ajudante referiu, entre dentes, o perigo que representava para os esquilos a estrada que separava as duas partes do parque, com carros sempre a ultrapassarem os limites da velocidade. mas o guarda tinha bom ouvido e disse:

 

       - Também já tinha pensado nisso. Vou colocar na estrada um sinal de trânsito só para eles, com um esquilo desenhado e a devida faixa vermelha.

 

            E tudo foi feito como estava planeado, embora com algumas correrias, para, com a rede, apanharem todos os esquilos e levá-los para a nova  morada. Aí, tinham vários vizinhos instalados em frondosas árvores. Nalgumas delas tinham mesmo construído umas pequenas casas muito engraçadas, com um portinha para espreitar o que se passava nas redondezas e todas pintadas de cores vivas e alegres. Até lhes davam água e ração, para que nada lhes faltasse.

 

            Mas faltava. E sabem o quê? O cri-cri dos grilos da clareira, as ligeiras borboletas e as atarefadas abelhas, mas, sobretudo, as brincadeiras dos meninos, com quem eles próprios jogavam às escondidas, lá de cima, enquanto os ouviam dizer:

 

              - Coitadinho! É só um e vive sozinho.

 

             - Não é nada. São dois e desconfio que até têm filhotes e que é para os mimarem que vêm buscar as migalhas que lhes deixamos.

 

             - És teimoso que nem um burro. Já te disse que as migalhas são o petisco dos pardais. Apanham-nas tão lépidos que nunca os esquilos conseguiriam chegar antes deles.

 

            Tinham, realmente, saudades da clareira. E dos meninos. Mas em breve, rodeados de amigos, chegaram à conclusão de que, também ali foram encontrar um pedacinho do Céu.

 

Clementina Relvas

publicado por clay às 00:42 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 14.04.10

 

Um aspecto da destruição da Floresta Amazónica, considerada o "pulmão" do nosso Planeta. É a maior floresta tropical do mundo. (Fonte: Google)

        

Aqui havia uma frondosa floresta, com árvores cuja idade já ninguém conhecia e raras, muito raras. Para mim, era um vestígio da obra incomparável de Deus, que, no momento da Criação, tudo fez para um mundo perfeito. Havia sequóias, cuja altura desafiava os céus e assim podiam brincar com as nuvens, tão diferentes em forma e densidade; havia gigantes fetos arbóreos cuja copa se abria generosa, para acolher aves de toda a espécie, quando fazia sol ou se chovia. E outras, muitas outras, com nomes exóticos que a minha memória não foi capaz de guardar.

 

                Um dia apareceu por ali um grupo de homens, ignorantes e pobres – características que em geral andam juntas – comandados por um outro, impante de orgulho e de anéis de ouro, que, apontando para uma potente e moderna serra mecânica, lhes disse peremptório:

 

                - Eu quero isto arrasado quanto antes. Com as máquinas que estão para chegar e a força dos vossos braços movidos pelo meu dinheiro que, aliás estais sempre a achar pouco, não vou aqui deixar pedra sobre pedra, ou melhor, uma árvore, um arbusto, mas só o chão coberto de capim, que em breve as chamas vão reduzir a cinzas. Depois semearei forraginosas e trarei para aqui as minhas duzentas vacas, que em breve parirão, transformando a minha manada na maior que, por aqui, jamais se viu.

 

                Os operários ficaram, ao mesmo tempo, deslumbrados e receosos da tarefa que os esperava, mas, na sua imaginação, já viam aquele vasto território transformado num verdejante prado e o patrão a enriquecer dia a dia, mas sem nunca perder a arrogância e a avareza. Seria o rei daquela pradaria e, pelo menos, dar-lhes-ia trabalho que os livraria de morrer de fome, com as suas famílias.

 

                Ora, acocorado atrás dos outros todos, estava um índio que tinha nascido ali perto e que, da sua infância, recordava um desafio que tinha feito a si próprio: trepar até ao cimo duma sequóia e, lá do alto, desvendar todos os segredos da floresta e do rio, que, num jogo de esconde-esconde, se negava a mostrar-se em toda a sua extensão e a sua força. A verdade é que, por mais esforços que tivesse feito, nunca tinha conseguido ultrapassar a altura do coqueiro que o avô plantara no quintal, mas a sua consolação era que nenhum dos seus amigos, por mais ágeis que fossem, tinham conseguido levar a cabo tal façanha.

 

                Tinha ouvido conversas de estrangeiros que falavam dessas transformações que estavam a ocorrer em toda a parte como se dum flagelo se tratasse, deixando as populações locais sem ar puro para respirarem e, pior que tudo, afastando para longe as chuvas benfazejas que faziam crescer o milho. Por ele, o que mais lhe doía era pensar que tinha de desistir do seu sonho e renunciar àquelas árvores que tinham dado sentido à sua infância e que nada mais voltaria a ser como fora.

 

                Ocultou a cabeça num chapéu de abas largas, recordação dum desses estrangeiros, deixou correr duas lágrimas teimosas e afastou-se devagar, pensando que, sozinho, nada podia fazer para evitar a catástrofe, mas, pelo menos, o seu coração estaria tranquilo e puro para rezar aos seus deuses por aquela abençoada terra onde nascera e que era parte da sua pobre vida.     

          

Clementina Relvas   

 

publicado por clay às 14:03 | link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 09.04.10

 

                             Esta história não se passou em Portugal. Ou talvez se tivesse passado, mas eu prefiro pensar que não.

 

                            Os factos que vou contar vi-os num programa da Televisão que, quando os sabemos escolher, também nos ensinam a ver o mundo, tanto o mundo maravilhoso da Natureza e dos avanços tecnológicos, como a face escura desse mundo, onde a poluição e a miséria dizimam milhões pessoas.

 

                           Pois o que eu vi foi mais ou menos o seguinte: nos arredores duma grande cidade, mesmo ao lado dum bairro de lata, onde se acumulavam milhares de pessoas, avultava uma imensa lixeira donde saíam fumos resultantes da combustão espontânea de detritos e um cheiro nauseabundo de putrefacção.

 

                          Contra todas as minhas expectativas, à primeira vista a lixeira tinha uma certa beleza, sobrevoada por inúmeros e grandes pássaros brancos, talvez gaivotas. Mas horror dos horrores! Passada a primeira impressão, o que nos atingia, como um murro no estômago, era a quantidade de crianças e adultos que meticulosamente a revolviam em busca de alguma coisa que lhes pudesse matar a fome.

 

                      Apesar dos meus esforços, a compaixão sobrepunha-se à repulsa. E, sentimentos de indignação assaltavam-me, em catadupa, ao ver tamanha injustiça: pessoas a fazerem dolorosas e caras operações ou dietas drásticas para emagrecerem e aqueles seres esqueléticos, em busca dum resto de pão ou de arroz, duma banana demasiado madura, quantas vezes contaminada e portadora de doenças e de morte.

 

                     A dada altura, a minha atenção fixou-se numa menina que não devia ter mais de seis anos e que, apesar da sujidade do seu vestido branco parecia saída dum sonho, um anjo, uma fada, podia ser. Estava apoiada a uma cabrinha malhada, esta muito entretida a comer papéis e algum raro talo de couve.

 

                   Quanto à menina, não foi capaz de se pôr a remexer no lixo. Olhou, olhou por muito tempo, até que, a certa altura, descobriu um bom naco de pão, miraculosamente limpinho e apetitoso. Apanhou-o, partiu um bocado que deu à cabrinha e pôs-se a comer o resto, sofregamente.

 

                 Foi então que estas imagens se misturaram na minha cabeça com outras que, havia já bastante tempo, diariamente passavam na nossa Televisão: seis ou sete crianças, vestidas de amarelo ou de azul, usando todos os seus pequenos truques infantis (ou de marketing) para convencerem as pessoas a fazer a separação dos lixos e a depositá-los nos respectivos vidrões para serem reciclados, como é dever de gente civilizada.

 

                Todos os argumentos valiam; «Vá lá, faça-me esse favor», «Gosto muito de si», «Eu porto-me bem», «Não custa nada» e outros semelhantes. Lembravam-me, apesar de ter sempre presente que se tratava de publicidade, pequenos anjos protectores da Terra, que não queriam ver coberta por inúmeras e gigantescas lixeiras, apesar de ainda não saberem que muitas lixeiras no mundo eram a fonte de subsistência para seres indefesos que não tiveram, como elas, a sorte de ter nascido naquela parte do mundo, tão pequena, em que a excessiva abundância gera focos de inadmissível desperdício.

 

               E pus-me a pensar cá para mim: de que é que se está à espera para acabar com estas intoleráveis diferenças: o fosso que vai da menina faminta da lixeira, às crianças tão bem vestidas e alimentadas do Eco-Ponto?

 

Clementina Relvas

                     

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