Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 31.07.08

 

 

 

 

Meus queridos netos:


Se não vos faltou o tempo ou a paciência para ler várias cartas em que vos falei dos Açores, vou agora explicar-vos o porquê da nossa ida e prolongada estadia nessas ilhas paradisíacas, tão mal conhecidas dos portugueses.


Quando, em 1980, ocorreu nos Açores um terramoto que quase riscou do mapa as Ilhas da Terceira, S. Jorge e Graciosa, impossível seria imaginarmos a mudança que tal cataclismo traria para as nossas vidas.


O primeiro impulso das populações atingidas foi, tal como acontecera alguns anos antes com a erupção do vulcão dos Capelinhos, no Faial, fugir daquela dramática devastação para ir tentar a sorte na América, onde a maioria dos açorianos tem família, aí fixada há longos anos.

 

Avisadamente, o Governo Regional, apoiado pelo Governo da República, decidiu tomar medidas de fundo para travar essa debandada.


A primeira foi criar um Gabinete de Apoio à Reconstrução (G.A.R) que dotou com uma equipa constituída por engenheiros e outros técnicos, regressados de Angola devido à descolonização. Embora já estivessem quase todos reformados, já que o país não arranjou meios para os integrar, eram pessoas muito competentes, dinâmicas e devotadas à causa pública. E assim se evitou o êxodo e se deu alento às populações que, modelarmente se lançaram à tarefa de transformar as casas em ruínas em óptimas moradias com todos os requisitos modernos. E o êxito foi tal que, até do Japão, onde os grandes sismos são frequentes, vieram equipas técnicas estudar o caso dos Açores.


No Verão desse ano, convidaram o Vôvô, que tinha trabalhado em Angola, nas Obras Públicas, com quase todos aqueles técnicos, a juntar-se à equipa do G.A.R, ficando a seu cargo a parte administrativa, em que era perito. Mas como nós já tínhamos planeado umas férias em Nova Iorque, em casa da nossa amiga Maria José, o Vôvô pôs, como condição para aceitar o convite, esperarem por ele até Outubro, o que foi prontamente aceite.


Regressados dessa fabulosa viagem, lá partiu o Vôvõ para os Açores, por um período calculado em seis meses, mas que se prolongou por cinco anos. Instalou-se na Residencial Cruzeiro, um dos edifícios que tinha escapado incólume ao terramoto e onde se encontravam já quase todos os elementos do G.A.R. Entretanto, eu continuei em Lisboa para dar todo o apoio possível aos nossos filhos, que já tinham concluído, com muito boas notas, o Ensino Liceal. O Zé tinha entrado, por opção sua, no Instituto Superior de Agronomia e o Quim, hesitante entre Medicina e Informática, acabou por perder a sua oportunidade e teve de esperar um ano, em que fez o Curso de Inglês no Instituto Americano, ingressando, no ano seguinte, no Instituto Superior Técnico.


Eu dava explicações em casa, mas decidi aceitar a oferta dum lugar num Colégio, que detestei. Era frequentado só por alunos rejeitados pelos liceus, cábulas e indisciplinados e por estudantes trabalhadores que não conseguiam concentrar-se nos seus estudos, naquele ambiente adverso. Não aguentei ficar ali para além de dois meses mas, pouco tempo depois recebi, por intermédio dum dos meus explicandos que o frequentava, o convite para ir ocupar a vaga dum professor há pouco falecido. Tratava-se dum Colégio de renome e tradição, O Novo Académico, que estando longe de me satisfazer, me reteve até ao fim do ano lectivo, após ter conseguido resolver alguns problemas de indisciplina, neste caso pontuais.


Como, entretanto, o contrato do Vôvô tinha sido renovado por, pelo menos, um ano e o Secretário Regional da Educação me convidara para ir dar apoio aos professores de Francês em todo o Arquipélago (excepto no Corvo, onde só se ministravam, por meio de Telescola, os quatro primeiros anos do currículo escolar então em vigor), pesados os prós e os contras, achámos que fazia sentido eu aceitar o emprego e, quando chegaram as férias grandes, despedi-me do Colégio e parti com o Vôvô a caminho dos Açores. Os nossos filhos (respectivamente com vinte e dezoito anos de idade) ficaram em Lisboa, instalados na nossa casa, com direito a uma mesada adequada e com uma mulher-a-dias que lhes tratava da roupa e das limpezas. Iam frequentar as respectivas universidades e pensámos que uma maior independência lhes daria um novo e maior sentido das responsabilidades. Quanto a mim, ia estar de novo junto do Vôvô, de quem sentia tanta falta e, o que não era para desprezar, dado o que tínhamos perdido em Angola, acrescentar um ordenado razoável à minha desfalcada reforma: Longe de mim o imaginá-lo mas o proveito ainda foi maior porque consegui somar mais quatro anos ao meu tempo de serviço, interrompido pela descolonização. Telefonávamos aos filhos pelo menos uma vez por semana e, de três em três meses vínhamos a Lisboa visitá-los, abastecer-lhes a despensa com carne e queijo dos Açores e tratar dos nossos assuntos.


Na Terceira, fiquei também instalada na residencial Cruzeiro, dotada de razoável conforto e onde só me cobravam um pequeno suplemento sobre a despesa do Vôvô e o pequeno-almoço. Como ainda não se tinham reabilitado os poucos restaurantes que funcionavam antes do sismo, comíamos, em geral, na cantina dos funcionários públicos ou na da Polícia, nem sempre muito bem. A primeira tinha um cozinheiro de tal calibre que os comensais estavam sempre ansiosos que ele fosse de férias, pois o ajudante que o substituía cozinhava muito melhor.


Foi com o maior dos entusiasmos que comecei o meu trabalho e comecei da melhor maneira pois, logo no primeiro dia fui encarregada de ir à Ilha das Flores levar as provas de exame, que eram a nível nacional. O meu Director, mais novo do que eu, teve algum receio de que eu não gostasse da missão, mas logo o tranquilizei, dizendo:


- Quando me quiser mandar a qualquer ilha, não hesite pois, para passear, estou sempre pronta mesmo que fosse de burro, quanto mais de avião.


E lá fui, contemplando, do alto, o arquipélago como se observasse um mapa e, embora não tenha saído do Aeroporto da iIha das Flores daquele tempo, que todos chamavam aero-vacas, dadas as suas reduzidas dimensões e a presença dos pacíficos ruminantes quase dentro do seu perímetro.


Foi-me dada uma grande liberdade de acção para programar e efectuar o meu trabalho: nos dois primeiros anos fiz, essencialmente, formação em Angra, para onde convocava um ou dois professores das diferentes escolas. Mas as deslocações de avião, o alojamento e as ajudas de custo eram tão onerosas que, a certa altura, já bem consciente dos problemas decorrentes de ter que lidar com aquela dispersão das ilhas por tão vasto espaço, só transponível por avião, propus ao meu Chefe ser eu a deslocar-me às escolas e aí, detectados os problemas, procurar resolvê-los in situ. Ele aplaudiu a minha proposta e foi assim que passei a viajar de avião, de Ilha para Ilha, quase todas as semanas.


Era um trabalho muito cansativo, com alguns percalços sem consequências devidos à instabilidade do tempo (poços de ar, nevoeiros que, por vezes, me retinham a meio do caminho por longos períodos) mas como era sempre muito bem recebida e, nessa altura, já todas as Ilhas dispunham de bons alojamentos, eu até costumava dizer, por graça: «Até que enfim! Agora só trabalho tanto como um homem». É que estava livre das tarefas de casa e a fazer aquilo de que gostava.


Prometo continuar esta saga mas, por agora, muitos beijinhos e até breve.

 

 


publicado por clay às 12:04 | link do post | comentar | favorito
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