Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 04.03.09

Meus queridos netos:


Preenchendo a vaga da Vóvó, enquanto ela descansa e busca nos mais recônditos cantinhos da sua memória belas histórias por ela vividas que certamente vos irá contar em próximas cartas, aqui estou eu, o Vôvô, para mais uma pequena conversa convosco.

 

Numa carta anterior falei, com muita ternura e saudade, da vossa Bisavó Inês, minha mãe, a propósito da morte do Papa João Paulo I. Hoje, também por me lembrar dela, vou falar-vos de outro grande vulto da Igreja. E porquê? dirão vocês. É o que vão saber um pouco mais adiante.

 

A vossa Bisavó Inês, embora crente, não era pessoa muito frequentadora da Igreja. Ela, lembro-me bem, contava que, quando ainda era novinha, frequentou a creche da fábrica onde a mãe dela trabalhava, a minha avó Casimira, e foi ali que aprendeu a ler e a escrever muito bem. Como a referida fábrica era dos ingleses, a religião praticada era a anglicana e, antes de as aulas começarem, rezavam sempre o Pai Nosso, fazendo uma vénia e apoiando a testa na mão direita, absorvendo-se na oração. Mais tarde, já mulher e casada com o meu Pai, partiu para Timor comigo ao colo, como já vos contei. E lá, quando calhava, ia assistir às missas católicas onde se mantinha sempre muito séria e silenciosa mas, quando se rezava o Pai Nosso, levava a mão à testa e inclinava-se para a frente tal como fazia quando era pequenina! Nós, eu e meus irmãos, só começámos a estranhar este lindo gesto dela quando chegou a altura de frequentarmos a catequese da Missão Católica, pois ali nunca nos ensinaram a proceder daquele modo. Mais tarde, com os anos, ela foi perdendo o hábito.

 

Naqueles tempos já recuados (anos trinta do século XX), Timor ainda fazia parte da Diocese de Macau, lá longe junto à China. Só em 1941 foi criada a Diocese de Dili, capital de Timor, com Bispo próprio. Portanto, as visitas pastorais do Bispo de Macau a Timor eram muito espaçadas devido à distância pelo que, quando se realizavam, constituíam sempre um acontecimento notável, a quebrar a rotina do dia-a-dia timorense.

 

Era então Bispo de Macau e Timor, D. José da Costa Nunes. Parece que ainda o estou a ver, com a sua barbicha e óculos de aros dourados, sempre com um sorriso nos lábios. Para um labárak (garoto em linguagem tétum) da minha idade, isolado no meio daquelas grandes e muitas vezes enevoadas montanhas de Timor, a novidade de tal personagem não podia deixar de impressionar. Foi ele quem me deu o sacramento do crisma. Quando estava na fila para o receber, o rapaz timorense à minha frente, ao chegar a vez dele, talvez um pouco intimidado, não se aproximou do Bispo o suficiente para ele lhe tocar na cara. Então D. José disse-lhe: “Ó rapaz, aproxima-te mais de mim, julgas que o meu braço é o Ramelau?” Ramelau é o monte mais alto de Timor, com cerca de 3.000 metros! Oh, como eu me lembro tão bem destas coisas tão antigas e me esqueço de outras tão recentes! Mas não se aflijam, porque é normal em pessoas da minha idade.

 

D. José da Costa Nunes era filho de um casal de agricultores modestos da ilha do Pico, Açores. Ingressou na vida religiosa onde viria a atingir uma altíssima posição. De facto, muito novo, foi nomeado Bispo de Macau, cuja diocese abrangia vasta área da Ásia, como a região sudoeste da China, Singapura, Malaca, etc. e Timor, como já disse atrás. Mais tarde, como Arcebispo, foi-lhe conferido o título de Patriarca das Índias Orientais, com sede em Goa, cargo que deixou alguns anos depois para ingressar como vice-camerlengo da Cúria Romana, dignidade muito importante no Vaticano. Acabou por aceder ao cardinalato no tempo do Papa João XXIII. Como Cardeal, participou no célebre Concílio Vaticano II, onde teve papel de grande relevo e fez parte do conclave que elegeu o Papa Paulo VI. Ele próprio até podia ser eleito Papa. Até à sua morte, em 1976, com 96 anos de idade, foi uma figura muito importante da Igreja católica romana, da qual os açorianos muito se orgulham, homenageado em vários pontos do país e até do Oriente, com escolas, lares, bustos, com o seu nome e outros memoriais. Está sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma.

 

Nas suas visitas a Timor, percorria a antiga colónia portuguesa de lés a lés, o que naquele tempo não era fácil, pois as vias de comunicação eram quase inexistentes. As deslocações faziam-se em regra a cavalo, nos célebres cavalinhos timorenses (os Kudas), por montanhas que então me pareciam enormes com vales profundos, por caminhos pedregosos que só estes animais aguentavam, embora nem fossem ferrados. Apesar de o país não ser grande, as viagens por vezes demoravam dias.

 

E foi assim que certo dia o nosso Bispo chegou a Maubara, locali-dade a cerca de 80 quilómetros a oeste de Dili, na costa Norte do país, onde o vosso Bisavô, embora fosse militar, desempenhava funções de autoridade civil daquela zona (Chefe de Posto). Maubara era a sede do Posto com o mesmo nome e resumia-se a várias casas de comércio, todas chinesas, e à casa do Chefe de Posto, um casarão de estilo colonial, com larga varanda a toda à volta, coberta a chapas de zinco, como quase todas as casas do Timor daquele tempo. Ficava situada num ponto alto muito (bárak) arborizado com uma soberba vista para o mar (táci) e praia ao redor da qual ficavam as casas dos chineses. Como não existia ali Missão Católica (apenas uma igreja bastante frequentada pela população timorense) e muito menos um Hotel, o Bispo iria pernoitar na casa do Chefe de Posto, a casa dos vossos Bisavós, claro, como era tradição.

 

Ora é aqui que entra a Bisavó Inês e era aqui que eu queria chegar, depois deste palavreado todo.

 

Receber em casa hóspede tão ilustre era uma honra e um grande prazer para os Bisavós. Por tal motivo os preparativos, para o receber com a dignidade que se impunha, começaram bem cedo. A vossa Bisavó, como boa dona de casa e esposa e mãe extremosa que sempre foi, não consentiu que ficassem por mãos alheias os seus créditos, e foi ela própria que tratou de tudo: as refeições, as sobremesas e, principalmente, o alojamento. E foi assim que preparou com o máximo esmero o melhor quarto da casa, com uma cama digna de um Bispo, com os seus melhores lençóis de desfiados (bordado típico timorense).

 

D. José foi recebido em triunfo pela população e depois recolheu a nossa casa, onde jantou, conversou, e encantou, principalmente os labáraks (eu e meus irmãos mais pequenos). Quando se aproximava a hora de recolher aos seus aposentos, surgiu na sala o criado do Bispo, que sempre o acompanhava, ainda me lembro bem, um chinês que eu achava muito parecido com o “china-padeiro” lá da terra que era quem fabricava e nos fornecia o pão. O homem, cheio de vénias, chegou-se ao pé de D. José e segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido. O Bispo ficou muito sério durante algum tempo, olhou para meus pais mas depois fez um pequeno sorriso. O que seria?

 

Bem, não vou perder mais tempo com o que se passou logo a seguir àquele instante. Apenas direi que, passado um bocado, a Bisavó Inês apressou o passo em direcção ao quarto que fora preparado para o Bispo e eu, sorrateiramente e cheio de curiosidade, fui atrás dela. Céus! Exclamou minha mãe. É que em plena colcha de seda, a melhor que havia em casa e cobria a cama do Bispo, estava a nossa gata a dar de mamar a três lindos gatinhos que ali mesmo, momentos antes, dera à luz! Logo na cama do Senhor Bispo, clamou minha mãe, muito perturbada . ..

 

Hoje, quando me lembro deste episódio, na altura tão dramático para a minha mãe, sorrio como também sorriu D. José, pois tudo se resolveu. Apenas lamento não me lembrar do nome da gatinha-mãe, mas recordo-me muito bem de como era: muito mansinha, nossa amiga e branca com malhas pretas, ou seria preta com malhas brancas? Ora esta!

 

Beijinhos do Vôvô

 

publicado por clay às 00:29 | link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
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