Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 24.11.07

      Meus queridos netos:

 

 

Terminado o Curso de Românicas, só arranjei colocação compatível nos Açores, o que logo me agradou porque me dava o ensejo de viajar que é, juntamente com ler bons autores, o que mais gosto de fazer. Procurando algumas informações sobre o que podia esperar-me no Liceu Antero de Quental, de Ponta Delgada, só consegui contactar com uma colega que lá tinha leccionado no ano anterior e me deu as piores referências possíveis: alunos indisciplinados, pessoas fechadas e até hostis para os colegas do Continente, enfim, um rol de desgraças que lhe tinha causado uma depressão. A senhora era tímida, muito míope, o que vai ter o seu interesse no decorrer da narrativa. Mas lá chegaremos.

Por agora, eis-me a bordo do paquete Carvalho Araújo, onde logo me relacionei com duas colegas, uma do meu grupo e outra de Físico-Químicas, todas nós principiantes. Era a primeira vez que andava de barco – eu ia para S. Miguel e só havia aviões para Santa Maria – e os primeiros dias, com o mar agitado, passei-os intermitentemente na cama, enjoada.

Depois as coisas acalmaram e o nosso grupo aumentou, ao conhecermos um médico escolar, que já tinha estado no Liceu em dois anos anteriores e um amigo indiano da colega de Físico-Químicas, que ia como delegado do Procurador da República para o Nordeste.

Foram poucos mas muito agradáveis os dias da viagem – exceptuando o enjoo, claro – e aí se cimentou entre nós cinco uma amizade que nos uniu durante todo o ano lectivo e nos permitiu relacionar-nos com pessoas da Ilha, fazer passeios de carro, conduzido pelo médico e cujo aluguer dividíamos entre nós e assim conhecer a fundo toda a Ilha de S. Miguel.

Instalámo-nos numa pensão que se situava no Largo onde se suicidou o grande e infeliz poeta Antero de Quental, cuja obra sempre me fascinou. Era também nesse Largo que ficava a Igreja do Senhor Santo Cristo dos Milagres, a cuja famosíssima procissão, em Maio, assistimos das janelas do nosso quarto

Pouco tardou que nos apresentássemos ao serviço e, como é natural quando se chega a um meio que nos é estranho, todas nos sentimos vagamente apreensivas. Mas sem razão porque, em breve, éramos, as três, tratadas como as «estrelas» do Liceu que, embora tendo um corpo docente constituído, em grande parte, por professores açorianos, todos muito mais velhos do que nós e conceituadíssimos no seu meio, nos acolheram como as meninas que iam rejuvenescer e alegrar o ambiente. Falou em nosso favor um pormenor inesperado: como éramos muito jovens, nunca nos passou pela cabeça tratar os professores mais velhos e com tanta experiência por colegas, mas sim por Senhor Doutor. E só muito tarde viemos a saber o quanto isso tinha sido importante. Foi o saudoso Dr.Cortes-Rodrigues quem, um dia, me disse:

 - Todos gostámos muito da vossa atitude educada e modesta. Podiam tratar-nos por colegas, que o são, mas só o fez quem o não era: a doutora de corte e costura. Referia-se ele à professora de Trabalhos Manuais que, pelo seu modo de ser, nunca entrou para o nosso grupo.

Nessa altura – 1954-1955 – o Liceu Antero de Quental tinha um escol de professores ilustres, dignos do grande poeta, seu patrono. Pela minha parte, nunca esquecerei as gentilezas que recebi da parte do Dr. Cortes-Rodrigues, professor de Português, grande poeta que tinha sido companheiro das lides literárias de Fernando Pessoa e com ele tinha colaborado no Orfeu. Além de nos convidar para passeios, entre os quais, já lá para o fim do ano, o que preencheu o dia esplendoroso que passámos no Ilhéu de Vila Franca do Campo, também nos recebeu, algumas vezes, a jantar em sua casa onde, sendo então viúvo, imperava a sua única filha, a Ernestina, perfeita na arte de receber os amigos do seu Pai.

Outro poeta, o Dr. Ruy Galvão, professor de Filosofia, era mais retraído, mas ambos me distinguiram com poemas seus, que conservo religiosamente e que vão aparecer no final desta carta.

O Dr.João Bernardo era um verdadeiro melómano. Foi ele quem, no Centenário da morte de Almeida Garrett, organizou o «Serão de Arte» que teve lugar na Academia Musical de Ponta Delgada com música clássica e poesia, tendo eu sido encarregada de declamar o início de D. Branca, o célebre poema «Saudade». O texto de ligação foi propositadamente escrito pelo Dr. Cortes-Rodrigues, e o Sarau foi um verdadeiro sucesso, naquele meio tão devotado à cultura
     O Dr. Pavão, também professor de Português, era um dos mais novos desse grupo e encontrei-o, mais tarde, já como professor da Universidade de Ponta Delgada. Estava eu, vários anos depois, a trabalhar na Ilha Terceira, quando até me convidou para sua assistente. Foi com pena que declinei tão honroso convite, mas o meu destino não passava pelo ensino universitário, que me tinha passado ao lado primeiro em Lisboa, quando já tinha constituído família em Luanda, depois em Angola, onde a Faculdade de Letras foi instalada em Sá da Bandeira e agora nos Açores. Desta vez, além de me achar já demasiado cansada para iniciar uma carreira universitária, também se deu o caso de eu morar na Ilha Terceira e, ao fim de quatro anos, estar ansiosa por regressar a Lisboa, onde estavam os nossos filhos, já na Universidade.

Mas, voltando aos professores, havia, ainda o professor de Matemática Dr. Rego da Costa, cuja esposa preparava uns deliciosos gelados de maracujá, com que, de vez em quando, nos regalava.

Contudo, a nossa grande companheira e amiga foi a Dra. Maria Emília Benevides, professora de Físico-Químicas, que logo se tornou a patrona da Manuela e, em seguida, adoptou o grupo dos cinco. Tinha carro e carta de condução, o que, na época, não era frequente numa senhora, para mais já de certa idade. Com ela visitámos quase todos os lugares turísticos da Ilha, incluindo as suas estufas de ananases, na Ribeira Grande. Passámos inúmeros serões em sua casa onde, além do marido, vivia também um irmão deste, que não casara. Não faltavam, pois, parceiros para a canasta, jogo de cartas então muito em voga. E, em seguida, deliciosos bolos caseiros e chá ou licores, entre eles o famoso licor de maracujá Ezequiel, uma especialidade da Ilha que várias gerações com este nome celebrizaram e preservaram até hoje.

A Dra. Maria Emília era, como já supõem, muito mais velha do que nós, quase na idade da reforma, mas uma pessoa afável, bem disposta e muito respeitada na cidade Só era igualada pelo seu marido na lhaneza do trato e na amizade que nos dispensava.

Quanto ao ambiente com que nos deparáramos à chegada, não deixou de ser cada vez mais aberto e afectuoso, tendo sido sempre cumuladas, as três, de favores e gentilezas.

Assim, nas férias da Páscoa, o nosso colega melómano, Dr. João Bernardo, pôs à nossa disposição uma casa nas Furnas, à beira dum riacho, com muitas azáleas floridas e um pomar de laranjeiras. Aí colhíamos as laranjas para os sumos que diariamente tomávamos antes do pequeno-almoço. Este, além do café com leite, incluía sempre queijo fresco e massa sovada que o filho do dono do restaurante onde comíamos ia, logo de manhã, levar-nos a casa.

 Foram umas férias de sonho, com passeios a pé e a cavalo naquele paraíso das Furnas. Paraíso mascarado de inferno, por causa das erupções vulcânicas, que enchiam o ar de vapor sulfuroso. Às vezes também saíamos de barco a remos, que era fácil alugar com marinheiro, quando não havia um aluno disponível para ser nosso guia e companheiro.

Houve tanta coisa boa nesta nossa passagem pelos Açores, que vos prometo outra carta, pelo menos, sobre o Liceu e os nossos alunos.

                Seguem-se os dois poemas prometidos:

Um poema filosófico, na linha de Antero de Quental, que o Dr. Ruy Galvão me dedicou e outro do Dr. Côrtes-Rodrigues, lamentando o nosso regresso ao Continente.

 

                                                   

  

    Beijinhos da Vóvó.

 

 
publicado por clay às 12:20 | link do post | comentar | favorito
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