Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 11.12.08

Meus queridos netos:

 

Hoje cá está novamente o Vôvô a “meter a sua colherada na conversa”, como soe dizer-se, para vos contar mais uma das histórias por ele vividas. Numa carta anterior, dizia a Vóvó , por graça, que eu, ao contar estas pequenas histórias, gostava de as ornamentar com “um bocadinho de pó de arroz e algumas verduras para as tornar mais apelativas”… Nem sempre isso aconteceu e, principalmente, não vai acontecer nesta que agora vos escrevo, pois tudo quanto se segue é verdade, pura verdade.

 

Começo por falar da vossa Bisavó Inês, minha mãe, que nunca me canso de homenagear com os maiores elogios e saudade: Ela que, com 33 anos de idade, se meteu num navio com o meu pai e um bebé ao colo, de seis meses apenas, (o bebé era eu, como vocês já sabem!), a caminho de Timor, no já longínquo ano de 1926, e onde viriam a nascer os outros meus três irmãos, o vosso Tio Joaquim, já falecido, e que mereceu uma justa referência na carta anterior da Vóvó, e os Tios João e Zeca, graças a Deus de boa saúde. Não admira pois que tivesse passado por inúmeros sacrifícios, numa época em que tudo faltava com nefastas consequências na saúde e forças físicas, e em que uma viagem de barco de Lisboa até Timor chegava a demorar três e mais meses, com transbordos constantes, que ela estoicamente sempre suportou, com o afável auxílio do Bisavô, vindo a viver até aos 90 anos, (1893-1983). Quase no fim da vida, com as moléstias que a apoquentavam, por vezes falava na morte próxima como qualquer mortal. Então, dizia-lhe: “A Mãe não morre!”. Ela respondia ironicamente: “pois não…, se até o Papa morre!”.


Ora era precisamente aqui que eu queria chegar e já vão saber porquê.


Em 1978, eu e a Vóvó resolvemos realizar um dos sonhos da nossa vida: Visitar Roma e, obviamente, o Vaticano. Fomos integrados numa excursão organizada por uma ainda hoje conhecida Agência de Viagens, ficando instalados num bom hotel no centro da cidade. Do programa fazia parte uma ida à Praça de S. Pedro, no Vaticano. Era o dia 28 de Setembro de 1978 e calhava nesse dia o Papa dar a bênção à multidão, de uma das janelas dos seus aposentos, como é tradição. Porém, quando, ainda cedo, tomávamos o pequeno-almoço no hotel, ansiosos que chegasse o momento, surge repentinamente na sala a nossa Guia anunciando em voz alta: “Senhoras e senhores, a nossa ida ao Vaticano, agora, fica sem efeito, porque o Papa morreu esta noite” .


Nem queríamos acreditar no que estávamos a ouvir. Alguém até disse que estaríamos perante uma brincadeira de mau gosto. Como seria isso possível se o Papa era uma pessoa relativamente nova e tinha sido eleito há pouco tempo, há cerca de um mês, mais precisamente no dia 26 de Agosto de 1978?


Mas era verdade. Este acontecimento marcou indelevelmente aquela data e deixou o mundo boquiaberto. E o nosso pensamento, meu e da Vóvó, foi o de tomarmos, por nossa conta e risco, o caminho do Vaticano e, pela primeira vez, entrámos na bela e enorme Praça de S. Pedro. Uma considerável multidão se aglomerava já à porta dos aposentos privados do Papa. Mas quando disseram que nesse dia não havia mais visitas, e fecharam os portões, gerou-se uma confusão terrível. A multidão cada vez maior, empurrava para a frente sem dó nem piedade, de tal forma que a Vóvó por pouco não ficou esmagada contra um gradeamento metálico, donde saiu a custo com a minha ajuda e a de outros. Tivemos de desistir.


No dia seguinte, o corpo do Papa foi trasladado para a Basílica. Voltámos então ao local, onde uma longa fila se havia já formado alongando-se até ao fundo do extenso templo. Nela nos integrámos e, vagarosamente, passo a passo, fomos chegando até junto do catafalco, onde jazia João Paulo I. Quando passámos rente a ele, ainda tentei tirar duas fotografias que, dada a interdição do uso do flash, ficaram inutilizadas, com grande pena minha. Nessa altura, pude relembrar o dito da minha mãe, “até o Papa morre”, e este de uma forma tão inesperada que ainda hoje a sua morte gera vários tipos de polémica.


É que o cardeal Albino Luciani, patriarca de Veneza, um homem simples, nomeado Papa com grande surpresa sua, logo pensou governar a Igreja com simplicidade e humanidade, tal como um pároco em relação à sua Paróquia. De entrada escandalizou a Cúria ao recusar a cerimónia da coroação. Recusou também o trono baldaquino e a tradicional cadeira gestatória, na qual o Papa era transportado aos ombros de altos dignitários da Igreja. Escolheu um nome duplo, João Paulo, o que nunca havia acontecido na Igreja. E anunciou que preferia ser tratado por “Pastor” em vez de “Pontífice”. Disse que Deus não era só “o nosso Pai mas, mais do que isso, a nossa Mãe”. Num país machista como a Itália, a interpretação abusiva de que Deus era mulher, chegou a provocar debates sobre a existência desse quarto membro da Santíssima Trindade… E logo de início descobriu a existência de corrupção no Banco Vaticano, o que viria a ser confirmado depois da sua morte.

 

 

 

Ora estes factos não podiam deixar de causar grande estranheza entre os tradicionalistas da Santa Sé. No seu livro “Em Nome de Deus Os Trinta e Três Dias”, David Yallop, um seu biógrafo, começa por dizer: “Quando Albino Luciani abriu as janelas dos aposentos papais, vinte e quatro horas depois da sua eleição, o ar fresco e os raios de sol penetraram por uma Igreja Católica que se tornara cada vez mais escura e sombria durante os últimos anos de Paulo VI”.


Embora Albino Luciani tivesse, desde há muito, alguns problemas de saúde era, como digo atrás, um homem relativamente novo, em comparação com os anteriores Papas quando foram eleitos. E, para mais, o seu pontificado mal tinha começado. O infausto acontecimento não podia deixar de impressionar as pessoas e até suscitar as maiores controvérsias, que se avolumaram quando se soube que fora embalsamado sem ser autopsiado antes, e que alguns dos seus pertences pessoais haviam desaparecido, para não citar outros pormenores que os mais desconfiados lançaram na opinião pública.


A tese de assassinato até foi posta e ainda hoje há quem a defenda, citando profecias, desde Nostradamus até à portuguesa Irmã Lúcia, uma das videntes de Fátima. Mas nada está provado e o certo é que, a seguir, foi eleito um Papa não italiano, o polaco Cardeal Woityla que, em homenagem ao seu antecessor, escolheu o nome João Paulo II.


Na minha já longa vida, reinaram no Vaticano nada menos do que sete Papas dos quais o único que o Vôvô viu em pessoa foi João Paulo I, mas morto, por uma extraordinária coincidência! Por ele nutro uma profunda admiração e até veneração, sentimento este sem dúvida reforçado por ter estado um dia tão perto dele.


Não termino sem vos revelar que esta carta me foi sugerida por um filme há dias exibido na RTP1, denominado “Albino Luciani, o Papa Sorriso” que tanto eu como a Vóvó muito apreciámos. Trata-se de um filme italiano magnificamente realizado, muito equilibrado, parecendo-nos ter sido rodado, em muitas das suas cenas, no interior do Vaticano, nos aposentos então frequentados por João Paulo I. Até a escolha dos actores foi criteriosa, de semblantes muito semelhantes aos das personagens verdadeiras, principalmente o do Papa. Só não gostei da actriz escolhida para representar a Irmã Lúcia, uma mulher de aspecto exageradamente sofisticado mas de ar severo e até tenebroso, quando aparece a revelar as suas predições a Albino Luciani, ainda antes de ser Papa. Tão longe da verdadeira Irmã Lúcia, quando a víamos aparecer na Televisão com os seus óculos de aros muito grossos, sorridente e com um aspecto muito simples… Aliás a representação da Irmã Lúcia neste filme exerce, em todo ele, uma função importante que me pareceu algo exagerada.


Do filme foi feita uma gravação que fica ao vosso dispor no meu arquivo de DVD´s.


E hoje fico por aqui. Quem sabe se um dia destes não aparecerei aqui novamente para contar outra história vivida…

     O Papa Sorriso                         Como nós o vimos

                                Fotos retiradas da Net

 

Beijinhos do Vôvô


 


publicado por clay às 15:32 | link do post | comentar | favorito
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