Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 27.05.09

 

 

Meus queridos netos:

 

Vindos de Taormina, seguimos a nossa viagem para Palermo e, depois duma sumaríssima panorâmica da cidade, embarcámos no ferry, aliás um grande navio, o RAFFAELE RUBATTINO, que nos levaria a Nápoles e onde nos esperavam camarotes individuais, com vista para o exterior, duas camas confortáveis e casa de banho privativa. O acesso aos camarotes não foi fácil, pois tivemos de subir, com as malas, dois grandes lanços de escadas rolantes. Mas, depois de nos instalarmos e após uma rápida visita de reconhecimento, foi-nos servido, no magnífico salão de jantar, uma boa refeição com várias escolhas e comida saborosa.

 

Além dos camarotes havia outro amplo salão com cómodas poltronas, destinadas aos passageiros que, não tendo adquirido alojamento, ali teriam de passar a noite. E muitas hipóteses de diversão: uma sala de jogos, cinema, numerosas televisões de plasma dispersas por toda a parte e várias lojas para os apreciadores de compras. Nós ainda demos uma espreitadela para o deck, mas estava tudo às escuras e, assim, recolhemos ao camarote para uma noite de repouso, que o dia seguinte, como os anteriores, também se anunciava exaustivo.

 

Após um frugal pequeno-almoço (um croissant e um capuccino), desembarcámos, no dia seguinte pela manhã, no continente italiano, mais propriamente no porto de Nápoles, cidade que atravessámos sem podermos seguir as infindáveis indicações do guia: um habitante por m2, só suplantado por Curitiba, no Brasil; 150 igrejas, muitas universidades, entre elas uma portuguesa e outra brasileira, o famoso Teatro da Ópera, o mais antigo do mundo, o bairro de Santa Luzia, onde se originou a célebre canção desse nome, a única italiana composta por um francês e que o nosso motorista cantou com uma bela voz de tenor e todo o seu fervor napolitano; falou-nos duma portuguesa ilustre, Leonor da Fonseca Pimentel, que foi ministra da efémera República italiana, fundou várias instituições e até o 1º jornal político italiano. Ficou conhecida pela Portuguesa de Nápoles e, além da sua acção como bióloga e pedagoga, lutou pelos ideais da malograda República Napolitana e acabou enforcada por crimes contra o Estado. O guia debitava o seu discurso, misturando igrejas e cancro dos pinheiros e detendo-se um pouco mais no estádio de futebol de Nápoles, dedicado a S. Paulo, pois há uma lenda que diz ter havido ali uma Igreja dedicada a este santo e que teria sido destruída para construir este grande estádio, com lotação para 81.000 pessoas.

 

Referindo-me ainda a Leonor da Fonseca Pimentel, sobre a sua vida foi escrito um romance, de grande sucesso em toda a Itália, adaptado ao cinema pela realizadora italiana Antonietta de Lillo com a actriz portuguesa Maria de Medeiros na protagonista e que, em 1999, o seu bicentenário foi devidamente comemorado em Portugal através de eventos levados a cabo pelas Universidades Nova de Lisboa e de Évora.

 

E deixemos Nápoles com o desejo de voltar, apesar das suas ruas sujas, casas degradadas e muitos grafitti. Vamos a caminho de Puzzuoli, porto pesqueiro mas também industrial (exportação de produtos alimentares, sobretudo conservas) e que foi o primeiro porto de Itália e aqui desembarcou S. Paulo.

 

Junto deste porto, ergueram uma pequena igreja comemorativa, como se pode ler numa lápide na parede, onde também há outra comemorativa da visita do Papa João Paulo II. Aqui perto, no bairro Terra, nasceu a conhecida actriz de cinema, Sofia Loren e também foi neste porto que decorreram as filmagens do notável filme “O Carteiro de Pablo Neruda”. De Puzzuoli, parte, para Roma, a Via Domiciana por onde seguia o peixe fresco, a lombo de burro ou de cavalo.

 

Nesta região há 71 vulcões, entre os quais um que se encontra um dentro doutro e com a vegetação invertida, devido ao abaixamento do terreno. Pela estrada por onde vamos agora, tem-se uma vista panorâmica sobre a península de Sorrento e avista-se, ao longe, a Ilha de Ischia. É uma região muito fértil e bonita e por aqui andou, durante quatro anos, entre Capri e Nápoles, o pintor português Henrique Pousão, que tem quadros no Museu de Arte Moderna, de Nápoles.

 

O vulcão Vesúvio, que agora vemos nitidamente do bairro de Margelino, tem 1276 ms. de altura e dele se separou outro, mais pequeno. A erupção mais violenta ocorreu em 79 d.C. e soterrou Pompeia, mas, em l631, deu-se uma outra grande erupção, que matou mais de 4.000 pessoas. A última ocorreu em 1944.

 

Parámos na «varanda de Nápoles» para admirar a baía, passámos por um palácio do rei Humberto I, que foi casado com a princesa Margarida, que deu o nome a essa famosa pizza napolitana.

 

E eis que entra no porto de Nápoles o navio Fantasia, enorme, mais parecendo um prédio de oito ou nove andares flutuante!

 

Desculpem, meninos, esta carta tão caótica, mas a culpa foi do guia que misturava tudo e falava sem cessar.

 

Beijinhos dos Vóvós e até… Atenção! Pompeia, na próxima carta!

                              Raffaelle Rubattino

                                                 Nápoles à vista!


publicado por clay às 12:12 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
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