Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sábado, 03.10.09

Meus queridos netos:

 

Desde que aprendi a ler, sempre a leitura foi o meu prazer maior. Embora então não houvesse, como agora, numerosos autores especialmente dedicados a escrever livros infantis e juvenis, que, além de conteúdos interessantes, quer sejam mais realistas ou mais fantasiosos, têm ainda o atractivo (sobretudo os infantis), de serem extremamente apelativos, quando não de grande qualidade artística na sua apresentação gráfica.


Não vos posso dizer, com segurança, quais os livros infantis que se editavam no meu tempo; para adolescentes, lembro-me dos da Condessa de Ségur, do Coração, de Edmundo de Amicis, d’As mil e uma noites, dos livros de Max du Veuzit (que, aliás, era acusada, pelas nossas professoras de serem prejudiciais à formação moral das adolescentes, pois só alimentavam as suas fantasias, alheando-as do mundo real). O que não impediu, seu grande sucesso, não havendo praticamente nenhuma rapariga que não tivesse lido e relido, pelo menos John, o chauffeur russo, da sua autoria. Outra escritora que também foi muito popular entre as jovens desse tempo foi Odete de Saint Maurice, avó das irmãs Medeiros, filhas de António Vitorino de Almeida, sobretudo graças ao seu romance Sou uma rapariga do liceu e aos seus programas radiofónicos.


Claro que, no fim da adolescência, eram-nos recomendadas as obras de Júlio Dinis, de Almeida Garrett, de Alexandre Herculano e poetas como João de Deus, Augusto Gil, além dos poetas medievais, Gil Vicente e Camões que estudávamos no liceu. Mas a verdade é que, quem, como eu, tinha o "vício" de ler, desde sempre aproveitou os livros, poucos, de que podia dispor. À falta de livros infantis, ouvi inúmeros contos tradicionais, que a minha Mãe sabia de cor e nos contava, uma e muitas vezes, ao serão ou quando tinha algum tempo livre. Penso que a sua principal fonte de inspiração foram os Tradicionais Contos Portugueses, embora esse livro, da autoria de Teófilo Braga (escritor açoriano que também foi Presidente da República) nunca lho tenha visto nas mãos. Mas, editado em 1883, teve tão grande expansão que, mesmo nas aldeias mais remotas, contos como Os dez anõezinhos da tia Verde Água, As três cidras do Amor ou o Caldo de pedra, eram contados às crianças e muito apreciados por todos. Ou talvez nem tivessem lido o livro e se limitassem a recorrer à tradição, onde o escritor tinha ido recolhê-los.


Nestas circunstâncias e tanto quanto me recordo, as minhas primeiras leituras, antes de vir para Lisboa, limitaram-se a Os Lusíadas, a Bíblia e um livro de ambiente medieval, cuja acção, lendária, teria decorrido nos princípios do século treze, se chamava Genoveva de Brabante, o nome da heroína e que algum meu familiar tinha adquirido em fascículos. A sua influência foi tal que, ainda hoje, ao consultar o Google, encontrei várias referências a esta obra e até quem desejasse comprá-lo, para oferecer à sua bisavó.


Claro que, mais tarde, e, sobretudo, desde que comecei a frequentar o Curso de Filologia Românica, procurei ler os clássicos portugueses e estrangeiros (principalmente os franceses) e também os modernos e contemporâneos com os quais consegui constituir uma biblioteca notável, embora muitos dos livros que li me fossem emprestados, ou lidos em bibliotecas públicas.


Mas o que não posso deixar de vos dizer é que encontrei livros bons e livros maus e também que deixei alguns de parte, ou pela sua má qualidade literária, ou porque não me interessavam naquela fase da vida, ou porque tinham um conteúdo que me chocava pela crueza e, por vezes, masoquismo com que representavam a vida e frequentemente se reflectia numa linguagem grosseira a que sou decididamente "alérgica".


Daí que, aconselhando-vos a leitura como a melhor maneira de conhecer o mundo e a nós mesmos, peço-vos que, sempre que tal for possível, procureis livros próprios para a vossa idade e eviteis aqueles que nos arrastam para ambientes e circunstâncias tão degradantes, iguais (ou piores) àquelas de que vos chegam ecos pela comunicação social. É claro que tereis de viver no mundo como ele é (dividido entre o Bem e o Mal), mas espero que sempre se vos depare um caminho recto, assim como a possibilidade e a perspicácia para fazer a melhor escolha. Na vida, como nos livros, no cinema, na Internet - temas para cartas futuras.


Por agora, muitos beijinhos da Vóvó

 

 

 

 

publicado por clay às 00:03 | link do post | comentar | favorito
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