Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 15.09.08


Meus queridos netos:

 

Mais uma vez as acácias floriram, numa embriaguez de rubro, para nos darem as boas vindas e transformarem em doce lembrança os mágicos meses passados em Portugal.

 

 Mais uma vez o alvoroço de preparar o regresso ao trabalho – se é que se pode chamar trabalho a bênção que nos foi dada e negada a tanta gente, de aprendermos a ler e a interpretar os livros e, através deles, o mundo à nossa volta. Mais uma vez Luanda, a cidade do nosso coração, e a vida a decorrer ainda, apesar de tudo, sem sobressaltos de maior.

 

Convidada para Metodóloga, tive que deixar a disciplina de Português, minha preferida, para a minha amiga Ana Maria, e aceitar o Francês, em que ela não se sentia tão à vontade como eu. Deixei também as minhas funções na Mocidade Portuguesa, que representavam um enorme acréscimo de trabalho e que nunca mais retomei, apesar de o meu lugar ter ficado sempre disponível, à minha espera. E, só com a intervenção do Vôvô, me dispensaram do cargo de vice-reitora do Liceu, agora com mais de dois mil alunos, distribuídos por três turnos de manhã, à tarde e à noite. Esse lugar foi brilhantemente desempenhado pela minha colega Estefânia e mais algumas havia capazes de levar a bom termo tal missão.

 

Começámos, pois, as actividades do estágio, com um grupo de professores muito empenhados e que se haviam de revelar óptimos profissionais, já na Metrópole, para onde concorreram e onde foram colocados após os acontecimentos do 25 de Abril. Para mim (e para eles) foi um ano de intensíssimo trabalho, já que todos tínhamos o gosto de actualizar e adquirir conhecimentos e o sonho de fazer da nossa Escola um lugar onde, além de se ensinar e aprender, todos, professores e alunos, fôssemos participantes, cooperantes e felizes. Pela minha parte, comecei a utilizar os novos meios audio-visuais que então começavam a estar disponíveis, especialmente o projector de slides e o gravador.

 

Que longe estávamos do computador, da Internet e do Magalhães! Mas houve turmas em que conseguimos «editar» jornais de parede, ou mesmo pequenos jornais policopiados em que participavam alunos de todas as disciplinas e que eles próprios se empenhavam em ilustrar.

 

Da turma do 3º ano A, um pouco contra a minha vontade, pois, embora ele fosse bom aluno, eu não queria a responsabilidade da sua avaliação, fazia parte o Zé António. Portou-se sempre muito bem e as notas eram-lhe sempre atribuídas, como aliás aos restantes alunos, pelo grupo de estagiários que o defendiam, com unhas e dentes, do que eles diziam serem os meus escrúpulos de Mãe. Correu tudo bem até ao fim, sem atingirmos, é claro, todas as metas com que tínhamos sonhado, mas fazendo, apesar de tudo assim, um trabalho que ainda hoje tenho por muito positivo.

 

Mesmo ao lado do Liceu Salvador Correia, funcionava a Escola Preparatória D. João II, que o Quim começou então a frequentar com resultados satisfatórios, mas sempre acompanhado por mim nas Letras e pelo Vôvô na Matemática.

 

Quando chegou o fim do ano lectivo, fui convocada para integrar um júri de exames de âmbito nacional, para irmos a Moçambique fazer a avaliação das estagiárias do Liceu Salazar, onde se concentrava um grupo de professores já com muita experiência. Esse trabalho, além de me dar a oportunidade de visitar Lourenço Marques (agora Maputo), foi também a ocasião de conhecer, pela primeira vez, o meu Tio Ernestino, irmão do meu Pai, de há longos anos estabelecido naquela província ultramarina e, que, por nunca lhe terem dado a pensão de reforma a que tinha direito há muito tempo, continuava ao serviço dos Caminhos de Ferro, agora sentado num banquinho a dobrar jornais, dizendo a quem o queria ouvir, de cada vez que recebia o seu ordenado: «Quem me comeu a carne, que me roa os ossos». Vivia ele com a sua esposa numa quintinha na Matola, onde eram muito estimados porque, como nunca tinham tido filhos, tinham criado um bom número de crianças que, agora adultas, os estimavam como pais.

 

Uma das estagiárias era a minha amiga Mami, que fizera comigo o curso de Românicas e me tivera sempre a par da sua vida (casamento, dois filhos então já na Suíça) e que, na altura da descolonização veio leccionar para Cantanhede e, mais tarde para Tomar, onde a visitei na aldeia próxima em que tinha uma bonita casa, poucos meses antes da sua morte prematura.

 

De Lourenço Marques, ficou-me a imagem do luxuoso Hotel Polana, onde ficámos hospedados, muito frequentado por sul-africanos e onde era nítida, ao contrário do que se passava em Angola, uma grande descriminação racial, sobretudo em relação ao pessoal, tratado com bastante sobranceria. Também me lembro do Mercado, onde vendedores predominantemente de origem indiana e pejorativamente chamados «monhés», vendiam toda a espécie de especiarias, entre elas um caril delicioso. Toda a sua área era um delírio de cores e de cheiros que me fizeram esquecer as outras bancas, provavelmente semelhantes às dos mercados de Luanda. Recordo, sim, a silhueta da moderna Sé Catedral e também os deliciosos scones que as senhoras da Cruz Vermelha serviam, para fins beneficentes, com os seus chazinhos e outras iguarias, numa tenda erguida na Avenida Marginal, com vista para um mar azul que parecia não ter fim.

 

Mas a cereja no topo do bolo foi o passeio que nos ofereceram, até ao rio Limpopo onde, além do memorial em honra de Mouzinho de Albuquerque, vi, pela primeira vez, uma enorme manada de hipopótamos refastelados na lama das margens ou nadando, regalados, com os seus corpos disformes, alheios a tudo o que não fosse buscar refrigério para o calor sufocante.

 

No ano seguinte, voltei a Moçambique, mas agora com o Vôvô. Do que foi essa viagem, falarei na próxima carta.

 

Beijinhos e beijocas da Vóvó.


publicado por clay às 18:36 | link do post | comentar | favorito
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