Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 09.04.10

 

                             Esta história não se passou em Portugal. Ou talvez se tivesse passado, mas eu prefiro pensar que não.

 

                            Os factos que vou contar vi-os num programa da Televisão que, quando os sabemos escolher, também nos ensinam a ver o mundo, tanto o mundo maravilhoso da Natureza e dos avanços tecnológicos, como a face escura desse mundo, onde a poluição e a miséria dizimam milhões pessoas.

 

                           Pois o que eu vi foi mais ou menos o seguinte: nos arredores duma grande cidade, mesmo ao lado dum bairro de lata, onde se acumulavam milhares de pessoas, avultava uma imensa lixeira donde saíam fumos resultantes da combustão espontânea de detritos e um cheiro nauseabundo de putrefacção.

 

                          Contra todas as minhas expectativas, à primeira vista a lixeira tinha uma certa beleza, sobrevoada por inúmeros e grandes pássaros brancos, talvez gaivotas. Mas horror dos horrores! Passada a primeira impressão, o que nos atingia, como um murro no estômago, era a quantidade de crianças e adultos que meticulosamente a revolviam em busca de alguma coisa que lhes pudesse matar a fome.

 

                      Apesar dos meus esforços, a compaixão sobrepunha-se à repulsa. E, sentimentos de indignação assaltavam-me, em catadupa, ao ver tamanha injustiça: pessoas a fazerem dolorosas e caras operações ou dietas drásticas para emagrecerem e aqueles seres esqueléticos, em busca dum resto de pão ou de arroz, duma banana demasiado madura, quantas vezes contaminada e portadora de doenças e de morte.

 

                     A dada altura, a minha atenção fixou-se numa menina que não devia ter mais de seis anos e que, apesar da sujidade do seu vestido branco parecia saída dum sonho, um anjo, uma fada, podia ser. Estava apoiada a uma cabrinha malhada, esta muito entretida a comer papéis e algum raro talo de couve.

 

                   Quanto à menina, não foi capaz de se pôr a remexer no lixo. Olhou, olhou por muito tempo, até que, a certa altura, descobriu um bom naco de pão, miraculosamente limpinho e apetitoso. Apanhou-o, partiu um bocado que deu à cabrinha e pôs-se a comer o resto, sofregamente.

 

                 Foi então que estas imagens se misturaram na minha cabeça com outras que, havia já bastante tempo, diariamente passavam na nossa Televisão: seis ou sete crianças, vestidas de amarelo ou de azul, usando todos os seus pequenos truques infantis (ou de marketing) para convencerem as pessoas a fazer a separação dos lixos e a depositá-los nos respectivos vidrões para serem reciclados, como é dever de gente civilizada.

 

                Todos os argumentos valiam; «Vá lá, faça-me esse favor», «Gosto muito de si», «Eu porto-me bem», «Não custa nada» e outros semelhantes. Lembravam-me, apesar de ter sempre presente que se tratava de publicidade, pequenos anjos protectores da Terra, que não queriam ver coberta por inúmeras e gigantescas lixeiras, apesar de ainda não saberem que muitas lixeiras no mundo eram a fonte de subsistência para seres indefesos que não tiveram, como elas, a sorte de ter nascido naquela parte do mundo, tão pequena, em que a excessiva abundância gera focos de inadmissível desperdício.

 

               E pus-me a pensar cá para mim: de que é que se está à espera para acabar com estas intoleráveis diferenças: o fosso que vai da menina faminta da lixeira, às crianças tão bem vestidas e alimentadas do Eco-Ponto?

 

Clementina Relvas

                     

publicado por clay às 23:40 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
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