Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 13.09.10

                                     

 

          Quando chegava da Escola, o menino trazia sempre novos números de circo: ou imitava a cara zangada da professora porque a turma se tinha portado mal; ou a dum colega divertido com a traquinice dum amigo. Outras vezes imitava vozes irritadas, irónicas, trocistas. Gaguez só a imitou uma vez e fê-lo até muito bem. Mas logo a Mãe o proibiu, terminantemente, de se servir dos defeitos físicos de alguém para as suas actividades histriónicas. Sim, que a Mãe estava convencida de que ia sair dali um palhaço – que ele também imitava às mil maravilhas – ou, na melhor das hipóteses, um actor de teatro ou de telenovelas.

Pelo sim, pelo não e para ver se o vezo era passageiro, costumava dizer em ar de troça:

 

                    - Sempre me saíste cá um macaquinho de imitação!

que só conhecia os três macacos da escultura de cerâmica que um dia tinham oferecido à Mãe como prenda de anos, respondeu logo:

 

          - Ó Mamã, mas tu é que me dizes para fazer como os teus macaquinhos: não ver o que não deve ou não merece ser visto, não ouvir coisas que prejudiquem os outros e, quanto a falar, quanto menos melhor. E a verdade é que eu nunca vi um macaquinho ao vivo.

          - Resposta na ponta da língua tens tu sempre pronta a ser disparada.

 

          A Mãe ficou a magicar. De facto, era muito injusto chamar ao filho macaquinho de imitação, se ele nem sequer sabia, verdadeiramente, ao que ela se estava a referir. E resolveu levá-lo ao Jardim Zoológico.

Num belo dia de começo do Verão, estava o roseiral já todo em flor, lá foram os dois, logo pela manhã, visitar o Jardim Zoológico. Os golfinhos, tão habilidosos e simpáticos, ficariam para outra vez. Hoje, dedicar-se-iam quase só aos macacos.

 

          Dirigiram-se logo para as jaulas dos grandes chimpanzés, que se balouçavam em cordas e lianas como autênticos acrobatas. Principalmente os machos porque as mães, essas, estavam muito entretidas a amamentar os filhotes e…a catar-lhes as cabeças. O menino disse, a medo:

 

          - Ó Mamã, parecem mesmo pessoas!

          - E ainda não viste nada. Passemos às jaulas dos saguis. Repara na sua longa cauda, pendente do ramo onde descansam. As desta raça não servem para se dependurarem dos troncos ou dos balouços, como as do macaco-prego. Mas às vezes dão saltos bruscos e são muito divertidos: gostam de fingir brigas entre eles e de brincar ao esconde-esconde.

          - Como eu e os meus amigos?

          - Tal qual. E se eu te disser que há muitas variedades de macacos, grandes e solitários como aquele orangotango, babuínos de focinho comprido, pequenos micos ou saguis…

          - Quase podiam juntar-se numa grande cidade, não achas?

          - Cidade, não direi. Mas numa aldeia… Tem cuidado, não te debruces, porque o muro é muito alto.

          - A aldeia dos macacos? Pois é, já estou a ver: casinhas pequenas, mas de dois andares, caiadas de branco e com listas azuis, telhas verdadeiras e até uma torre muito alta, como se fosse a igreja da aldeia.

          - Mas claro que não é uma igreja. É uma espécie de silo, com algumas aberturas – os macacos são muito curiosos – e tem, por dentro, uma escada em caracol, pois eles divertem-se a fugir lá para cima, agarrados à banana que quase todos os meninos lhes atiram.

          - E para que serve aquele poço e o arco de ferro por cima dele?

          -Se reparares bem, verás que não é um poço. E aquele arco, assim como as barras de ferro que lá vês são, digamos assim, o ginásio dos macacos.

          - Pois é. E olha que até têm piscina mesmo à mão de semear! Estes não têm medo da água?

          - Estes não. E se soubermos que a aldeia dos macacos foi projectada por um grande arquitecto, Raul Lino, em 1927, ainda nem a minha mãe tinha nascido, dá um bocado que pensar.

 

          O menino já estava cansado de tanta macacada e não resistiu a perguntar à Mãe, antes de se virem embora:

 

          - Sabes duma coisa, Mamã? Agora é que já não sei se sou eu o macaquinho de imitação ou todos estes animais que muitas vezes me pareceu estarem a fingir de pessoas.

                                

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publicado por clay às 12:34 | link do post | comentar | favorito
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