Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Sexta-feira, 05.12.08

 

 

Meus queridos netos:


Atenuada a emoção da nossa viagem a Israel e à Jordânia, retomo a evocação das memórias longínquas, fixando-me, agora, no ano de l973, em que o acontecimento mais notável consistiu numa nova ida a Moçambique, desta vez acompanhada pelo Vôvô.


Tendo sido novamente integrada no júri nacional de «exames de estado», em que eram avaliadas os estagiários desse ano a fim de se poderem candidatar ao lugar de professores efectivos, achámos que era uma boa oportunidade para o Vôvô ir conhecer a progressiva cidade do Maputo (então ainda Lourenço Marques), e lá fomos os dois, integrados no grupo de professores que ia desempenhar a referida tarefa, pagando o Vôvô a passagem dele como é óbvio.


Um grande amigo do Vôvô, o doutor Afonso Mendes, infelizmente já falecido há alguns anos, desempenhava então um importante cargo nos serviços públicos e foi ele o seu cicerone, tornando mais completas e enriquecedoras as horas em que eu estava a trabalhar e também as outras, pois convidou-nos, com a sua esposa, para um jantar em sua casa e levou-nos a visitara Namaacha, enfaticamente comparada à nossa serra de Sintra. Era um sítio muito aprazível, com farto arvoredo e uma cascata, destino obrigatório para quem queria afastar-se do bulício da cidade e dar um agradável passeio.


Outra das nossas ocupações foi a visita às galerias de arte: a de Malangatana, artista já muito conhecido pelas suas originais pinturas e esculturas e a de Samate, onde adquirimos dois quadros: um representando três figuras femininas em amena conversa (provavelmente sobre a vida das vizinhas), da autoria do próprio Samate e outro, de Mankew, uma tela toda coberta por atormentados rostos humanos, de olhos cerrados, em tons fortes e contrastantes, que muito nos impressionou pelo seu fundo dramatismo, quadros estes que, ainda hoje, ornamentam a nossa sala.


Também passámos pelo Mercado a renovar a provisão de caril, que ali era autêntico, e não podia deixar de levar o Vôvô ao chazinho da Cruz Vermelha, que tanto me tinha deliciado no ano anterior. Ali passámos um bom bocado da tarde, olhando as árvores da Marginal e o mar ao longe, dourado pelos últimos raios de sol. Aproveitei para comprar o livro de culinária «Coisas Boas», feito com receitas generosamente cedidas à Instituição por senhoras da sociedade laurentina e que, muitas vezes, foram o meu guia na confecção de pratos que todos achavam deliciosos.


Claro que não podíamos deixar de voltar à Matola, onde o Tio Ernestino e a esposa nos esperavam com um delicioso almoço e as sombras acolhedoras das árvores da sua quintinha. Não podíamos imaginar que, pouco mais de dois anos decorridos, o Tio Ernestino, já viúvo, nos viria bater à porta, em Lisboa, muito doente e de avançada idade, apenas com uma mala quase vazia. Mais uma vítima da descolonização que tudo perdeu, fruto de um árduo e modesto trabalho de muitos anos nos Caminhos de Ferro de Moçambique. Sobre o que foi a odisseia do Tio Ernestin, releiam a carta "Férias Adiadas", de Julho 2008, atrás transcrita.


Mas, a última visita que fizemos foi à sepultura do Tio Joaquim, irmão do Vôvô que, tendo ido trabalhar para os Correios de Lourenço Marques, aí morrera com pouco mais de vinte anos. O Vôvô, que nunca superara completamente a falta do irmão nascido dois anos depois dele e dotado de excelente carácter, o que os tornava ainda mais próximos, tirou uma fotografia à sepultura, recoberta de pedra mármore branca e onde, num vaso do mesmo mármore, deixámos flores. Para os Bisavós que, apesar dos muitos anos já volvidos, mantinham viva a dor e a saudade do filho falecido lá tão longe, foi um pequeno lenitivo aquela inesperada memória. Mas o que ainda mais os atormentou foi ter-lhes constado que ao Tio Joaquim, internado no Hospital durante vários dias, só na véspera do seu falecimento os médicos diagnosticaram uma febre tifóide e não a forte gripe de que vinha a ser erradamente tratado.


Mas não quero acabar esta carta num tom tão amargurado. Gostámos imenso desses poucos dias passados em Moçambique e bem gostaríamos de lá voltar, agora que essa terra maravilhosa se está a recompor de longas guerras e oferece ao visitante paisagens e gentes que a todos cativam, como se pode ver pelo actual incremento do turismo.


E agora sim. Termino com os habituais beijinhos que são sempre renovados pelo meu amor.

         Trabalhos de artistas moçambicanos adquiridos em Lourenco Marques em 1973

            

                                                   Samate

                                            

                                                                                 Mankew

           Homenagem aos familiares referidos nesta carta, já falecidos:

 

                          

                     Tio Joaquim
               

                    Os Avós com o Tio Ernestino e Esposa
                                           na sua quintinha da Matola
publicado por clay às 11:17 | link do post | comentar | favorito
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