Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quarta-feira, 22.07.09

 Meus queridos netos:


O forno do povo, era, na pequena aldeia da minha infância, um dos poucos vestígios da antiga vida comunitária. Lembro-me dele aos dez anos, mais adiante direi porquê. E só me parece que ainda respiro, deliciada, primeiro o perfume acre e tão especial das estevas (no Alentejo aprendi a dizer “xaras”) a consumirem-se em altas labaredas vermelhas ou dos ramos de vide que resultavam da poda e que também eram muito apreciados para aquecer o forno; depois, quando se tirava cá para fora, o cheirinho apetitoso do pão de centeio que nos ia regalar durante toda a semana.


O forno funcionava assim: havia uma mulher de meia-idade que se encarregava de, com a lenha trazida pelos interessados, acender o forno, deixá-lo aquecer até atingir a temperatura adequada, enquanto remexia sabiamente o lume, para que o aquecimento atingisse toda a superfície. Chegada a esse ponto, varria, com uma comprida vassoura de ramas, o lar do forno, libertando-o de toda a cinza, para que o pão saísse sem qualquer mácula. Pegava então numa comprida pá (que eu acreditava firmemente ser igual à da padeira de Aljubarrota que, na escola primária nos enchia de orgulho por, com ela, ter conseguido derrotar os espanhóis), onde colocava, um a um, os pães do tabuleiro que tinha sido o primeiro a chegar. Cada mulher marcava o seu pão com um sinal combinado com as outras: uma cabeça feita com um forte repuxão na massa, uma cruz bem profunda para que não desaparecesse com a cozedura ou um raminho de carqueja, que saía lá de dentro carbonizado mas sempre no seu posto, ufano da missão tão bem cumprida.


Enquanto tudo isto se passava e, principalmente, terminada a azáfama, enquanto se aguardava, com toda a calma, a abertura do forno, a meia dúzia de mulheres ali reunidas tagarelavam, tagarelavam, desfolhando as vicissitudes das suas vidas e também, vamos lá, alguns “segredos” das do próximo: era então que se sabia quem estava prestes a ter mais um filho, quem namorava quem, a chegada mais ou menos remota dos parentes que trabalhavam nos hospitais do Porto como enfermeiras ou, mais frequentemente, simples auxiliares. Nesse tempo ainda se falava da emigração do século XIX para o Brasil, que, quando bem sucedida, trazia à terra respectiva os «brasileiros de torna-viagem», os quais, além de obras de beneficência, erguiam as suas casas tão imponentes, com dois andares, muitas vezes um mirante e um telhado com rebordo de madeira mais ou menos artisticamente trabalhado. Da minha aldeia também alguns tinham vivido essa aventura, entre eles os meus Avós maternos e o meu Pai mas, infelizmente, pouco tinham amealhado nessas terras longínquas e muitas vezes madrastas. Mas ainda estava longe a emigração em massa para França e para o Ultramar.


E chegava o momento tão ansiado, principalmente pelas crianças, que também acorriam ao forno do povo, principalmente no Inverno, quando, cá fora, o “barbeiro” a soprar do Marão, enregelava as mãos e as enchia de frieiras: o pão era retirado um a um, primeiro os que tinham entrado mais tarde, pois tinham ficado mais perto da «boca» do forno e depois os outros, o que fazia sempre dizer à padeira: «Vêem, como lá diz o Senhor Prior: Os últimos são os primeiros». Enchiam-se os tabuleiros, guarnecidos com as suas toalhas brancas de neve e sentia-se a felicidade simples daquela gente, ciente de que o pão lhe duraria até à próxima semana, em que todo este ritual se repetiria, imutável.


De cada tabuleiro saía um pão para a padeira (a sua única paga) e, em alguns casos, os pãezinhos das crianças. A minha Mãe fazia sempre, para cada um dos filhos, com a massa temperada com azeite, o que lhe dava um gostinho especial, pequenos pães em forma de lagartos, peixes, bonecas, tudo o que a sua fértil imaginação inventava e a ternura das suas mãos moldava amorosamente para nós.


Como esta carta já vai longa, fica para a próxima a explicação prometida atrás, da relação entre os meus dez anos e o forno do povo…


Beijinhos, acabados de sair do forno do meu coração, da Vóvó. E do Vôvô também.

 NOTA: Procurem no Arquivo ao lado "Maio 2007" e releiam o meu post "AS VOLTAS QUE LEVA O PÃO" no qual relato uma visita que fiz ao Museu do Pão em Seia.

publicado por clay às 17:26 | link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 28.05.07

Minha querida neta:

 

           Eu sei que tu aprendeste a fazer pão, quando tinhas aí uns sete anos, nas actividades para-escolares da Escola Alemã. Fizeste muito direitinho tudo a que a professora foi dizendo, regalaste-te com um dos pãezinhos feitos por ti e levaste, para casa, um outro que toda a gente provou e elogiou.

 

Depois, com a tua independência, quiseste repetir a experiência, mas sozinha, claro, e ao fim de algum tempo tendeste (ou seja moldaste) uns pãezinhos muito bonitos que levaste ao forno, a cozer. Quando passou o tempo que a professora tinha indicado para a cozedura, tiraste-os do forno e oh! tristeza, os pãezinhos não tinham crescido. Ficaram muito sossegadinhos com a forma que lhes tinhas dado, mas o pior foi quando lhe ferraste os teus dentinhos: duros que nem uma pedra. Não choraste porque não és menina de chorar, pelo menos para fora, mas foste-o mostrar à Mami que logo calculou onde devia estar o mistério. De facto, em cima da mesa, estava o fermento branquinho que até te pareceu ter um ar levemente trocista.

 

Agora, já sabes fazer bolos – com a experiência é que melhor se aprende – e fazê-los sobretudo quando um de nós faz anos: para o vôvô com pouco açúcar, para não lhe aumentar o risco dos diabetes, para mim, sem creme para não ficar a D. Redonda e para os outros, o que tu gostas mais de fazer é uma montagem de chantilly e frutas frescas variadas e coloridas, com tanta arte, que até os olhos se regalam. Mas muito mais se regala o paladar pois é de comer e chorar por mais.

 

Vieram estas recordações, e muitas outras de que vou falar, da visita que, com o vôvô, fiz há dias ao Museu do Pão, na cidade de Seia. É um espaço muito amplo e muito bem organizado: uma casa moderna, construída para o efeito, e onde se pode ver todo o ciclo do pão, desde a sementeira do grão até, quando as searas já estão maduras, a ceifa, que consiste em cortar as espigas, à debulha, ou seja, retirar o grão da cápsula de palha que o envolve. Depois vêem-se três moinhos antigos, cada um com duas mós (pedras redondas) que, roçando uma na outra, transformam os grãos em farinha. Os moinhos podiam ser manuais (mais pequenos) ou então puxados por animais ou movidos a água ou vento.

 

Tudo isto está muito bem ilustrado com gravuras apelativas e legendas simples, tal como o que se segue. Mas aqui vêm misturar-se as tais outras minhas recordações de que te falava. Sim, em minha casa, havia uma divisão na cave onde se fazia o pão. Era aí que a minha mãe peneirava a farinha, para lhe extrair o farelo e o pão sair branquinho, a masseira, uma grande caixa de madeira onde se juntava a farinha, o fermento que se tirava da massa da semana anterior, e que era desfeito antes de juntar a farinha e água necessárias até a massa ter a consistência desejada. Mas para chegar a esse ponto, só te digo, Cristina, tinha de se dar muitas voltas: primeiro juntando suavemente os elementos e depois sovando-os – sim, como se estivessem a levar uma sova. Uma vez pronto – não era difícil de adivinhar à experiência de minha mãe que repetia esta tarefa todas as semanas – passava-lhe um pouco de farinha para o moldar melhor e fazia uma cruz em cada pão, dizendo:

 

São Vicente te acrescente,

São João te faça pão,

e a Virgem Santa Maria

te deite a sua benção (o acento circunflexo no e omitia-se por causa da rima)

 

Depois era só pôr-lhe um sinal distintivo: um pedacinho de pau, uma bola de massa, no topo, ou outra coisa assim, porque, na aldeia, só havia um forno – o forno do povo – e várias pessoas coziam o pão ao mesmo tempo. E nunca vi que ninguém se tivesse enganado ao recolher o seu pão.

 

Ficávamos, então, com pão para toda a semana e, mesmo um bocadinho duro nos últimos dias, sempre nos perecia o melhor pão do mundo.

 

Mas havia outro reino onde eu assistia a uma tarefa semelhante: era na escola primária que funcionava na casa da senhora professora que, por sinal, era minha tia. Quando era o dia de amassar o pão, lá era eu destacada para ir deitar a água na massa à medida que a empregada o achava necessário. E bem gostava eu desta tarefa: é que num banco preguiceiro fechado, ao lado da masseira, havia uma colecção de livros, meio reais meio lendários, sobre figuras conhecidas da nossa História. E eu, olho na massa, olho no livro, passava ali um bom bocado de sonho.

 

            Tudo isto me veio à memória no Museu do Pão, onde encontrei eco de todas as minhas impressões de infância: quatro salas com todas as fases do fabrico do pão, uma outra dotada de um vidro para se poder ver, de longe, - e assim evitar contaminações -como tudo isso era feito. Havia também pães, feitos sem fermento, que eram autênticas esculturas, com muitos e variados bonecos, alguns bem engraçados.

 

            Mas além de tudo isto, há ainda uma cafetaria com uma varanda panorâmica para a serra e um restaurante que não vi porque levávamos outro destino através da Serra da Estrela até à Covilhã, o que de facto fizemos mas com um nevoeiro de cortar à faca e de cortar de medo a respiração. Ah! É verdade: cá fora havia dois carrinhos pequenos e um comboiozinho – não tão zinho assim – para transportar grupos, principalmente de meninos das escolas que, graças àquela visita, ficam a saber as voltas que leva o pão até chegar à padaria.

publicado por clay às 01:12 | link do post | comentar | favorito
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