Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 07.09.10

                                                        

                

Não era um papagaio qualquer, daqueles a quem certos donos ensinam meia dúzia de palavras inconvenientes que os obrigam a memorizar. Não. Aquele, de coloridas penas brilhantes, fora trazido ilegalmente do Amazonas, onde vivia feliz e, também ilegalmente, comprado pelo seu actual proprietário. É verdade que dispunha de alimentação adequada e abundante e até, tinha de confessar, era frequente ser mimoseado com festinhas da patroa, a D. Rosalinda, uma santa. Já  com as crianças  era conforme. Ocasiões havia em que se entretinham com a frase: «Dá cá o pé, loiro» mas é o davas. Depois da tentativa de lhe arrancarem algumas das suas mais belas penas para enfeitar um cocar parecido com o do herói índio da sua última banda desenhada, bem podiam dizer e repetir aquela senha que a ave não arredava pé do grosso tronco que lhe servia de poleiro.

 

Saudades tinha, sim e muitas, da sua imensa floresta, dos cedros vermelhos, onde, através dum perfeito mimetismo, conseguia enganar os companheiros quando andavam a brincar às escondidas. E das palmeiras tão copadas  e tão chegadas umas às outras que ao fim dum dia inteiro a saltitar nas suas palmas, era sempre como se só então esse jogo tivesse principiado. Dos igapós, debruçados sobre infindáveis extensões alagadiças, gostava menos, embora por vezes se entretivesse a mirar lá de cima os caranguejos, os peixes de todas as espécies e também os crocodilos preguiçando ao sol. Mas, desde pequenino, evitava aqueles espaços de que nenhuma ave gostava muito.

 

Mas deixara-se levar pelo interminável rio das divagações.  No que ele estava a pensar era nas suas relações com a família de acolhimento. Da D. Rosalinda nada mais tinha a dizer. Resumira tudo numa palavra. As duas crianças tinham desistido, após muitos e baldados esforços, de lhe roubarem alguma das suas penas mais coloridas e também de lhe ensinarem o que os pais diziam ser palavrões, a pedirem pimenta na língua. O dono era simpático, só que, ao limpar o seu poiso ou ao mudar-lhe a água e repor-lhe a comida, lá se punha ele, agarrado às costas, a dizer:

 

- Ai, os meus bicos de papagaio!

 

Embora não fizesse a menor ideia de qual fosse a razão do mal- estar do dono, porque bicos não vislumbrava nenhum, ao ver a cara contristada da sua amiga Rosalinda, também ele se sentia triste. Escondia a cabeça debaixo duma asa, enquanto o patrão desabafava:

 

- Este papagaio, apesar de ser quase mudo, às vezes até parece que compreende tudo quanto se passa.

 

Mas havia os meninos da vizinhança – e até alguns adultos – que também o queriam levar por maus caminhos. E um dia, depois de muitas tentativas inúteis, um rapazinho mais reguila lançara-lhe para a janela onde estava empoleirado:

 

- Olha lá, ó loiro, se continuas assim teimoso, não tarda nada vou aí acima e ainda ficas sem o bico.

E logo o papagaio, sem papas na língua:

- Experimenta e vais ver. Não ganhavas nada com isso, porque o meu patrão tem muitos que só o fazem sofrer e logo me dava outro.

                                

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publicado por clay às 01:41 | link do post | comentar | favorito
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