Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Quinta-feira, 07.08.08


Meus queridos netos:

 

Terminado o ano lectivo com tão bom aproveitamento, fomos buscar os nossos filhos a Tondela e, antes de regressarmos a Portalegre, não podíamos deixar de passar por Lisboa para completarmos o seu conhecimento do património artístico.


Assim, visitámos com eles o Mosteiro dos Jerónimos – a belíssima Igreja de Santa Maria de Belém, erguida sobre uma ermida chamada, por D. Henrique, ermida dos Reis de Belém, o que explica o facto de ele se encontrar representado no magnífico painel da capela-mor, onde se encontram os túmulos de D. Manuel e D. Maria, sua esposa, do lado do Evangelho, bem como os de D. João III e D. Catarina, do lado da Epístola e ainda o túmulo de D. Sebastião. A ampla nave acolheu, mais tarde, os túmulos de Vasco da Gama e de Luís de Camões, símbolos máximos da nossa epopeia marítima. No piso superior do coro alto, admirámos o magnífico cadeiral, uma das mais importantes obras de talha renascentista. Também a sacristia, situada ao lado do Cruzeiro, mereceu bem a nossa visita, não só pela mestria e originalidade da construção, mas também por nela se encontrarem vários quadros representando, na maioria, a vida de S. Jerónimo. Na Sala do Capítulo, detivemo-nos um pouco diante do túmulo de Alexandre Herculano, que foi de Santa Maria de Belém. A construção do Mosteiro, iniciada em 1501 ou 1502, foi dirigida, primeiro por Diogo Boitaca e por Francisco Arruda , ficando a parte escultórica (que sofreu alterações no decorrer dos séculos), a cargo do célebre escultor francês Nicolau de Chanterène, depois substituído pelo não menos conhecido, João de Ruão.


Não podíamos deixar de visitar demoradamente o Claustro, em dois andares sobrepostos, e com uma exuberante decoração, de peixes, cordame, âncoras e outros elementos do estilo manuelino mas onde sobressai a sequência de dez medalhões, representando os Instrumentos da Paixão de Cristo. É no Claustro que se encontram os restos mortais de Fernando Pessoa, para aí trasladados em 1965, em reconhecimento da importância do seu livro Mensagem, onde, tal como Camões, faz reviver os feitos heróicos dos portugueses e a grandeza de Portugal. E Aos rapazes não passou despercebida uma mão a segurar um feixe de plantas, que todos os visitantes querem tocar, o que manifestamente a tem desgastado.


No dia seguinte, percorremos, palmo a palmo, a Torre de Belém, mandada construir por D. Manuel I para substituir a nau, habitualmente fundeada a meio do rio Tejo, para proteger aquela parte da cidade de ataques inimigos. A Torre de Belém, com a Fortaleza de Cascais e a de S. Sebastião, em Porto Brandão, constituía uma triangulação de tiro de grande eficácia. Composta por um baluarte quase ao nível da água, destinado a fins claramente militares e uma Torre que evoca a época cavaleiresca, é um dos monumentos mais belos da Europa. Foi mandada construir, em 1515, por D. João II, ao Mestre Francisco de Arruda, e é um belo exemplo do estilo gótico tardio, mais conhecido por manuelino como o que encontramos no Mosteiro dos Jerónimos. O baluarte ou casamata tal como o resto do monumento tem decoração plateresca, com motivos fantásticos, como a face monstruosa dum ser híbrido que se encontra junto à base da esplanada, que nos proporcionou uma vista deslumbrante da margem sul do Tejo. A Torre é dividida em quatro andares: o primeiro é completamente liso mas tem, da parte de fora, um nicho com uma imagem de Nossa Senhora e o Menino e era a sala do Governador; o segundo, a sala dos Reis, apresenta um balcão corrido, saliente, com sete arcos de volta perfeita; o terceiro encontra-se decorado com duas enormes esferas armilares com as armas Portugal entre as duas janelas; o quarto também é completamente liso e ligeiramente recuado, sendo a sua base decorada por merlões em forma de escudos. O topo da Torre é marcado nos vértices por guaritas semelhantes às do baluarte mas mais pequenas e coroado por ameias de topo piramidal.
As restantes fachadas são discretas, sendo no entanto de assinalar as janelas geminadas e balcões salientes. Na fachada norte, as guaritas, encontra-se um nicho com baldaquino, protegendo as imagens de S. Vicente (padroeiro de Lisboa) e a de S. Miguel Arcanjo.


Numa das mísulas que serve de suporte a uma guarita, encontra-se representado o rinoceronte, oferecido pelo sultão de Cambaia a D. Manuel e depois, por este, ao Papa Leão X, na célebre embaixada portuguesa a Roma, em 1514. A última sala, também conhecida por capela a mais pequena, é também a mais notável do ponto de vista arquitectónico e apresenta um pavimento em xadrez preto e branco. Quanto à restante decoração, é tão exuberante, que ficou um pouco ofuscada pelas esferas armilares e a Cruz de Cristo, motivos recorrentes neste notável monumento.


Os rapazes fizeram questão de serem fotografados na esplanada do topo, tendo por fundo as guaritas com as suas cúpulas de gomos, encimadas por cinco bolas (ou balas…), as ameias e o Tejo como pano de fundo.

               
Para terminar esta visita, fomos até ao Monumento das Descobertas, onde o Zé o Quim, quiseram subir, para tocar as estátuas dos nossos heróis, dispostas, em fila, atrás do seu grande mentor, o Infante D. Henrique.

                

Completaram essa lição de Historia de Portugal com a visita ao Museu da Marinha: aprenderam a distinguir as naus dos galeões e das caravelas e verificaram que, não só no passado, os portugueses foram os destemidos viajantes a quem o mar nunca meteu medo, fosse desafiando as lendas assustadoras dos confins do Mundo, fosse vencendo os perigos do mar gelado até à longínqua Gronelândia, nas prolongadas campanhas da pesca do bacalhau. E descobriram, com espanto, como a nossa arte de marinharia tinha suscitado génios não só no domínio da cartografia, mas em todos os domínios científicos com ela relacionados, com particular admiração para o astrolábio, do nosso sábio Pedro Nunes.


E ficamos por aqui, procurando não esquecer quanto vimos e aprendemos.


Beijinhos da Vóvó


NOTA: Muitos dados desta carta foram colhidos no livro PORTUGAL, PATRIMÓNIO MUNDIAL, que me avivaram a memória e despertaram em mim o desejo de voltar a visitar, agora mais detidamente, estes dois símbolos da nossa grandeza.

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Terça-feira, 15.07.08

 

Meus queridos netos:

 

Acabadas as tarefas do meu estágio, viemos novamente, em 1971, passar umas longas férias a Portugal.


Como já vos contei, eu estava ainda muito combalida por um esgotamento nervoso e, logo que os grandes calores de Dezembro trouxeram, com as primeiras chuvas, as férias grandes, partimos para Portugal, desta vez num óptimo avião da T.A.P. e em primeira classe.


Quando chegámos ao Aeroporto da Portela, estava um frio de rachar e logo o Zé António se saiu com esta exclamação:


- Olha, Mamã, já viste aqueles senhores que vieram esperar o avião com os robes de lã como o Papá usa lá em casa? É que eles nunca tinham visto um sobretudo, incompatível com as temperaturas tropicais!

 

Depois duma pequena pausa em Lisboa para desalfandegarmos um Audi acabado de chegar da Alemanha e que foi o nosso primeiro carro ainda não usado por outra pessoa, foi nele que seguimos rumo a Portalegre onde, como da primeira vez, fizemos o nosso quartel-general.

 

No entanto, os filhos foram para um Colégio interno, em Tondela, o Quim para a 4ª classe e o Zé para o 1º ano do Ciclo Preparatório, pois eu não estava em condições físicas e psicológicas para cuidar deles e os acompanhar nos estudos. Tínhamos tido muito boas referências deste Colégio e, para acompanhar a sua evolução, nós íamos visitá-los pelo menos uma vez por mês.


Ainda em Janeiro, fomos todos a Távora, visitar a minha irmã e a sua família e regressámos por Viseu, onde visitámos o Museu Grão Vasco, a imponente Sé Catedral e também, em homenagem patriótica, a Cava de Viriato com a estátua deste guerreiro, chefe dos Lusitanos e, portanto, nosso valoroso antepassado. Fizemos uma paragem em Fátima, onde, com a oferta das nossas velas, demos graças a Nossa Senhora por todas as vezes que, intercedendo em nosso favor, nos cumulara com tantas bênçãos.Passadas as férias do Carnaval na Broa e com frequentes passeios, com os Bisavós, à Serra de S. Mamede, toda coberta de neve, que os nossos filhos, deslumbrados, puderam apreciar pela primeira vez, partimos a caminho do Colégio de Tondela, não sem fazermos uma pausa que nos permitiu visitar Coimbra: tanto a velha Cabra como a moderna Cidade Universitária, o magnífico Jardim Botânico e ainda o Museu Machado de Castro. Não podíamos deixar passar a ocasião, dada a idade dos nossos acompanhantes, de fazer uma visita demorada ao Portugal dos Pequeninos, com a competente explicação de monumentos e arquitectura civil, ali amorosamente preservados, em minuciosa e perfeitas miniaturas, para memória dos vindouros.
Dali fomos ao Mosteiro da Batalha, procurando fazê-los compreender, não só o alto significado histórico daquele monumento como também, na medida do possível, a sua riqueza arquitectónica, que tão bem ilustra o gótico flamejante. Ficaram estupefactos com a beleza das Capelas Imperfeitas e estranharam a designação até lhes termos explicado que se designavam assim porque nunca foram concluídas, portanto per-feitas, ou seja, completamente feitas.

          


Entretanto chegou o dia dos meus anos e, instalados em Mérida, no Parador Via de La Plata, visitámos, só o Vôvô e eu, aquela histórica cidade, cheia de monumentos notáveis, entre os quais se destaca o emblemático Arco de Trajano.

               


E chegaram, finalmente, as tão ansiadas Férias da Páscoa. Partimos imediatamente para o Colégio de Tondela e daí, passando pelo Caramulo para visitarmos o merecidamente célebre Museu dos Automóveis Antigos, seguimos para o Porto, onde visitámos demoradamente o Palácio de Cristal, sem faltar o tradicional passeio de barco, no Lago. Admirámos ainda as esplendorosas talhas douradas da Igreja de S. Francisco e subimos ao alto da Torre dos Clérigos para de lá apreciarmos as vastas panorâmicas sobre a Cidade.


Tinha, pois, começado auspiciosamente aquele passeio cultural, mas ainda estava praticamente no início. Começáramos por Távora, para visitarmos a Tia Maria Alice e a sua família, então ainda sem a Cândida e Lele que viriam nos tempos próximos. Fomos, todos, ao Pereiro para eu lhes mostrar a casa onde nasci e os sítios encantados da minha infância e dali partimos para o Pisco, uma quinta onde o meu tio Carlos tinha feito a reprodução dum monte alentejano, com dependências para o caseiro, para os animais e até um pombal onde os pombos arrulhavam, fugindo em debandada cada vez que o altifalante emitia ordens para o pessoal, ocupado a tratar das extensas vinhas e pomares. Fomos também a Lamego, onde visitámos a Sra. dos Remédios com o seu monumental escadório e a Sé, esta um pouco apressadamente porque a minha irmã se sentia bastante enjoada, devido às muitas curvas da estrada Távora-Moimenta da Beira e à gravidez de que ainda se não tinha dado conta e de que havia de resultar, daí a alguns meses, mais uma sobrinha para mim: a Cândida.


Dali seguimos para o Nordeste Transmontano: passámos por Alijó e admirámos o seu Miradoiro, com uma imponente imagem a Nossa Senhora, Padroeira de Portugal e do Mundo, fotografámos a porca pré-histórica, que se encontra num monumento do centro de Murça,

dessedentámo-nos nas belas fontes de Mirandela e encantámo-nos com Romeu, «vila das rosas» e Vilaverdinha, aldeias transmontanas melhoradas, o que, na época, era autêntico pioneirismo. Já em Miranda do Douro, apreciámos os majestosas arcarias do antigo Paço Episcopal e os miúdos encantaram-se com o Menino Jesus da Cartolinha e os seus variados trajes para as diferentes festividades.

                   

 

Fomos dormir à Pousada, num quarto que tinha a seus pés uma imensa barragem de água muito azul e uma baliza deserta por trás do Paço, desafiou o Zé António para simular umas fantásticas defesas.


Daqui fomos para Bragança. Visitámos o Castelo, de lá a panorâmica sobre a cidade e o Quim ficou cheio de importância ao ser fotografado com a enorme chave que lhe emprestaram, qual pequeno alcaide do séc. XX.

          

Passámos depois pela «Domus Municipalis», impressionante pela originalidade daquela antiquíssima construção e pelo papel que, em tempos longínquos desempenhou na vida cívica do burgo.. Em Chaves, também não deixámos esquecido o vetusto Castelo, com as suas ameias ponteagudas, mas o que mais nos impressionou foram as típicas varandas e os velhos solares, muito bem conservados. Ficámos intalados na Estalagem Santiago, muito confortável e, depois dum curto passeio à beira-Tâmega, ainda tivemos tempo para ir espreitar o rally, a decorrer em Carvalhelhos. Atravessámos a deslumbrante paisagem das barragens e não quisemos deixar de ir a Montalegre, no Barroso, onde comemos o melhor bife das nossas vidas.


Seguiu-se então o Minho: em Braga visitámos o Bom Jesus, trepámos toda aquela escadaria com os seus passos do Calvário e, em Viana do Castelo, subimos ao Monte de Santa Luzia, admirando um panorama que parecia não mais acabar e fomos ver as citânias, impressionantes na sua antiguidade e manifesta prova de que o Mundo começou há muitos e muitos anos. Claro que passámos por outros sítios inesquecíveis: Vila do Conde Póvoa do Varzim, Ofir, Caminha e, por Valença, entrámos na Galiza.


Passámos por Vigo, admirando as espectaculares rias baixas, a deixarem emergir as numerosas Islas Cies, mas seguimos para Santiago de Compostela, onde a majestosa catedral de granito não iludiu as nossas expectativas. Estava-se em Ano Santo, o que nos possibilitou assistir à cerimónia do botafumeiro, um descomunal turíbulo que oito homens balançavam para encher com perfume de incenso todo o interior da Igreja, em cujas varandas superiores se acolhiam, em tempos idos, os peregrinos sujos e doentes. que tornavam o ar irrespirável e malsão.

 

 

Foi essa antiquíssima cerimónia e o gesto simbólico de dar uma cabeçada na escultura do Apóstolo, na esperança de, assim, verem acrescentados os seus dotes intelectuais, que maior impacto tiveram nos dois rapazinhos. A nós, além da sensação de pequenez que tivéramos, logo à chegada, perante a gigantesca mole granítica da Catedral, a harmonia grandiosa da Praça do Obradoiro, com o conhecido e caro Hostal de los Reys Católicos, a artística escadaria conhecida por Ferradura, deslumbrou-nos, sobretudo, o interior da Catedral, com os seus magníficos altares, especialmente o altar-mor, dedicado a Santiago, onde se encontra uma escultura do Apóstolo, cuja capa todos querem abraçar, os órgãos monumentais que, nas grandes ocasiões, inundam de música todo o espaço como se os anjos do Céu se tivessem congregado ali para louvar a Deus e nos transportarem até Ele., o rico Museu da Catedral e o claustro com suas arcadas, donde se avistam as bem lançadas torres e coruchéus.


Seguimos, então, para La Coruña, onde o monumento dos Anjos músicos representou, para nós, as boas vindas da “Galícia, terra meiga» e pudemos apreciar, do alto da Torre de Hércules, a vasta e interessante panorâmica da cidade e do mar que a rodeia. Regressávamos, agora, por Vigo mas, entretanto, alguém fez uma esmorradela no nosso Audi, logo se prontificando a mandar arranjar a chapa e a dar-nos uma pequena indemnização para, em Portugal, restaurarmos a pintura e, assim, não perturbarmos muito a nossa viagem. Aproveitámos a inesperada pausa para subir ao Monte Castro, magnífico Miradoiro donde se avista não só a cidade mas também um largo espaço das rias e se pode admirar um monumento aos galeões que, no princípio do século dezoito, naufragaram naquelas águas: três âncoras elegantemente justapostas sobre uma vasta base de mármore. À noite, no hotel, assistimos pela primeira vez ao Festival da Canção, vendo a Tonicha representar Portugal com a simples mas melodiosa canção “Menina”, muito divulgada, depois, pela Televisão e pelas rádios.


Ainda visitámos a Catedral de Pontevedra e eu, que tanto admiro a poesia de Rosalía de Castro, tentei uma peregrinação à casa da poetisa galega, prémio Nobel da Literatura, mas encontrava-se em grande estado de degradação, fechada e com tábuas espalhadas em redor, talvez o começo dos preparativos para a sua reconstrução. Quisemos terminar a nossa viagem à Galiza com a visita à Catedral de Tuy, ali perto da fronteira portuguesa, mas encontrámo-la encerrada.


Assim, regressámos a Portugal para completar um circuito que, como vêem, foi enriquecedor de todos os pontos de vista. Mas como já devem estar cansados de nos acompanhar nesta longa viagem, a ela voltarei na próxima carta pois as férias da Páscoa ainda mal vão a meio.

 

A nossa longa estadia em Angola sem virmos a Portugal e o desconhecimento que os nossos dois filhos (agora já mais crescidos) tinham do nosso querido país mais que justificavam esta autêntica peregrinação que acabo de vos relatar com continuação na próxima carta.


Muitos beijinhos e abraços desta Vóvó que, enquanto Deus lhe der forças para isso, não trocará por nada esta queda de andarilha.

 

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Terça-feira, 06.05.08

 

 

Meus Queridos Netos:

           Quando regressámos a Portalegre, foi tempo de matarmos as muitas saudades dos nossos filhos e dos Bisavós. Distribuíram-se as prendas trazidas de França, sobretudo agasalhos para os miúdos e algumas guloseimas para todos. E chegaram, finalmente, os dias tranquilos, de recuperar energias. Aconchegados na casa paterna, saíamos uma ou outra vez para um almoço familiar alargado com os primos da Broa, à sombra das árvores de fruto que rodeavam o grande tanque, em cujas bordas a Tia Florinda cultivava as suas flores, com especial desvelo pelos manjericos, perfumados e resistentes durante longos meses e onde os pequenos se entretinham a fingir que pescavam ou que nadavam numa pequena altura de água e com a ajuda de duas improvisadas pranchas de 

               Nessa altura ainda tínhamos a companhia da vossa trisavó Casimira, com noventa e cinco anos, bastante lúcida mas já quase cega e que havia de falecer em vésperas de fazer cem anos. E a tarde corria mansa, com o primo Emílio e a Maria Deodata, sua mulher, em amena conversa com os restantes familiares e as suas duas filhas, a Zulmira e a Inês Maria entretidas com os primos, apesar da diferença das idades. Mais do que agora, o ar estava cheio de sons e de perfumes: chilreavam os passarinhos, zangarreavam os grilos e as cigarras, e o perfume dos manjericos, aliado ao das xaras e dos eucaliptos transformavam aquele canto da horta num pequeno Éden, em que todos nos sentíamos felizes e que muitas vezes relembrámos com saudades

                  Frequentemente dávamos grandes passeios pela Serra de S. Mamede, até Castelo de Vide ou apenas até à Penha, onde visitávamos a capelinha e apreciávamos a paisagem estendida a nossos pés até se perder de vista. Acompanhavam-nos os Bisavós, que assim aproveitavam para sair de casa, embora o Bisavô fosse todos os dias ao Café Alentejano, encontrar-se com o seu grupo de amigos, os catuas, como lhes chamava em língua tétum que tinha aprendido em Timor. Às vezes fazíamos piqueniques em sítios pitorescos e aí nos deliciávamos com o paio de lombo, os queijos da região e o saboroso pão alentejano. Não faltavam, também, algumas frutas da época e as deliciosas boleimas, com o seu recheio de maçã e o seu gostinho a açúcar meio caramelizado e a canela.

                  Quem fazia as compras, no mercado, era o Bisavô ou uma mulher de recados, a Senhora Adelina, mas quem sempre pontificou na cozinha era a Bisavó, que fazia deliciosas comidas regionais, um inesquecível caldo verde, cujas couves lhe levavam, a cortar, muito fininhas, uma grande parte da manhã e um cabrito no tacho que era de comer e chorar por mais. Não podia conceber que alguém invadisse os seus domínios e foi com muita relutância que me deixou fazer um bolo para um lanche, com a batedeira que, na melhor das intenções, eu tinha trazido de Luanda.

                 Daí em diante, todos os sábados íamos abastecer-nos de deliciosos doces regionais, feitos pelas irmãs Martelas. Eu só tinha pena do Bisavô que, sofrendo de diabetes, tinha de se contentar com uma espécie de pitas, feitas de massa e azeite e sem pitada de açúcar. E contentava, pois, dotado duma grande força de vontade, nunca se deixou tentar pelas guloseimas.

               Mitigadas as saudades, resolvemos ir dar um passeio, o Vôvô e eu, por alguns sítios pitorescos ao Norte de Lisboa. Já se começava a sentir o Inverno mas, apesar disso, fomos aproveitando a proximidade ou a presença do mar: ficámos numa Residencial na Ericeira, onde, ao jantar e ao serão, junto à lareira, éramos os únicos hóspedes; em Santa Cruz, estive em risco de ser levada por uma onda, junto da rocha que ali faz uma espécie de arco e que eu quis ver mais de perto; em Peniche, mirámos ao longe as Berlengas, de que estávamos afastados por ondulação que nenhum pescador quis arrostar.

              Regressámos a casa retemperados e por lá nos ficámos durante todo o Inverno, fazendo pequenos passeios e uma ou outra deslocação a Lisboa, uma das vezes com os pequenos e a sua ama, a Alice. Ficámos instalados na Casa de Santa Zita, à Estrela, num ambiente familiar. Fomos, com os três, visitar alguns monumentos mais emblemáticos de Lisboa: o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e, claro, o Jardim Zoológico. Não nos alargámos mais porque eles ainda eram muito pequenos e não conseguiriam reter muita informação.

                Deixámo-los novamente em Portalegre e partimos num outro passeio, desta vez no Algarve: S Brás de Alportel, Faro, Loulé, e por aí fora até à Pousada do Infante, em Sagres, cuja paisagem muito nos impressioou.

                  Em Portalegre recebemos a visita do Gilbert, da Milú e dos seus Pais e também das pequenas Marie, minha afilhada e Jeanne e com eles percorremos os arredores: Castelo de Vide e Marvão, cujo castelo encantou os quatro miúdos, que até foram autorizados a brincar com umas velhas espingardas e uns capacetes do Museu.

                 O fim das férias aproximava-se a passos largos, apesar das prorrogações que, por mais do que uma vez, nos tinham sido concedidas pela Junta Médica que via a necessidade de recuperarmos duma demasiado longa permanência, seguida, em clima tropical.

                E assim regressámos a Luanda, de novo no Infante Dom Henrique, com mais saúde e felizes pelo tempo passado com familiares e amigos, em vários pontos de Portugal.                

 

                                   Até à próxima carta. Beijinhos da Vóvó

                       

           

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