Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Terça-feira, 06.11.12

                                                                                                                                                                   

           José Miranda Relvas.jpg

Meus queridos netos: 

 

   Em  5 de Novembro de 1893 nascia no concelho de Portalegre, freguesia da Urra, a vossa bisavó Inês. Faria hoje 119 anos se fosse viva!  

 

            Estava-se já, então, em plena época industrial. Na cidade havia uma grande fábrica inglesa, a Robinson, para o aproveitamento da cortiça. Era lá que a mãe da bisavó Inês, Casimira de seu nome, trabalhava com muitos outros empregados e empregadas. A fábrica tinha já preocupações sociais: entre outras regalias, tinha uma escola, de inspiração anglicana, onde os filhos do pessoal em idade escolar aprendiam a ler em português, a escrever com uma caligrafia impecável e também a fazer contas. Às meninas ensinavam, ainda, rudimentos de costura e de bordados. 

 

           A mãe, operária da fábrica, não tinha deixado passar essa oportunidade de dar à única filha, os conhecimentos a que ela nunca tivera acesso. E, assim, a Ignez, como então assinava, se tinha tornado uma menina muito prendada para o seu meio. Pequena, de feições miúdas mas regulares, tinha conquistado muitos afectos pela sua delicadeza e pela bondade do seu coração.

 

           E foi assim que viria a conquistar o coração de José, o vosso bisavô, ao tempo um rapaz que, feito o serviço militar, ao ter de escolher, quando decorria a primeira guerra mundial em que Portugal participou, entre França e o longínquo Timor, optou por este último para onde seguiu, e ali serviu quase até ao fim da sua vida, como sargento do exército e também em funções civis.

 

           Passados alguns anos, regressou à sua cidade, para se recompor dos males provocados por um clima adverso e pela solidão em que vivera, só mitigada pelas cartas da Inês, que demoravam a chegar. Ao reencontrar-se com aquela rapariga recatada e singela, não foi difícil convencê-la a casar consigo e a partir com ele para Timor.

 

          Decorria o ano de 1925 quando ficou grávida do seu primeiro filho, o vosso avô. Atrasos nos transportes, apenas marítimos naquele tempo, impediram que o vôvô nascesse em Timor ou em plena viagem, que chegava a durar dois meses e até mais! Finalmente, o menino nasceu em Portalegre e finalmente puderam partir, tinha ele apenas oito meses pelo que, ainda hoje, por graça, o Vôvô costuma perguntar: 

 

                 - Sabem que meio de transporte me levou para Timor?

 

 E, perante a curiosidade dos ouvintes, brinca, dizendo:

 

                 - Foi o colo da minha mãe!

 

                Timor, conhecido por Timor-Leste após a independência, por se tratar de cerca de metade duma ilha, era então uma colónia portuguesa, em que a outra parte pertencia  à Holanda e hoje à Indonésia.

 

                  Toda a ilha é extremamente montanhosa. Nela não existiam estradas; as deslocações eram penosas e demoradas, a dorso de cavalo, pelas íngremes e toscos caminhos através de montes e ravinas. Tatamailau, também conhecido por Montes Ramelau, com cerca de três mil metros de altitude, era o pico mais alto de todo o então território português, Não foi pois para aquela jovem franzina, propriamente um passeio turístico aprazível.

 

                Imaginemos, agora, uma menina criada na cidade, sempre ansiosa por ir passar algum tempo no monte alentejano da mãe do seu noivo. Aí, sentia uma grande felicidade, rodeada de árvores de fruto, animais domésticos e muitas flores plantadas na borda do tanque, onde a água permanentemente corria e dessedentava todos, com o cocho de cortiça sempre dependurado do muro caiado de branco e debruado a tinta azul. Como se haveria de sentir, transplantada, com a sua vida de recém-casada e um filho pequeno, para aquelas paragens tropicais, onde tudo era diferente e a sua própria língua incompreensível para os que a rodeavam e só se exprimiam em tétum.

 

              Mas depressa se habituou ao clima, ao ambiente, aos timorenses. Não era bem o seu Alto-Alentejo mas, nas várias localidades onde habitaram no decorrer dos anos, José bem procurou recriar um pouco do ambiente que deixara, promovendo com carinho o cultivo daquela terra fértil, onde cresciam tomates, cebolas, feijão-verde, alfaces, couves, enfim, tudo o que podia produzir aquele solo e clima. É verdade que dispunha de grande abundância de frutos exóticos: bananas, mangas, papaias, abacaxis, que mulheres do povo lhes iam vender à porta de casa. E também ovos, batata-doce, espigas de milho e outras iguarias locais. Mas, quando chegava a época das cerejas, ou das vindimas, ou das castanhas, aí as saudades apertavam, apertavam e doíam.

 

          Inês tinha uma máquina de costura e muito do seu tempo era passado a fazer roupinhas para o bebé, em breve dois e, mais tarde, quatro, todos rapazes. Os tecidos vinham, como aliás a maior parte dos produtos, incluindo os alimentares, de Surabaya, na Ilha de Java. Era também de lá que vinham os bébés, na crença dos mais miúdos! 

 

           Não tardou a ser procurada por mulheres timorenses, exímias na arte dos desfiados, uma espécie de crivo feito em bretanha finíssima e de que, geralmente, resultavam autênticas obras de arte, com anjos, flores, muita beleza e engenho. Na varanda da casa, trabalhavam horas infinitas, entregues ao seu trabalho e à espera de uma retribuição que aumentasse, um pouco, os seus parcos haveres. Com elas e com algumas senhoras da reduzida elite local, foi aprendendo algumas palavras e frases em tétum, indispensáveis à comunicação. Em breve trocavam receitas de culinária, especialmente de doces e passavam tardes inteiras a experimentá-las.

 

          E os anos foram passando, como sempre passam, sem a gente dar por eles. Os filhos cresceram, frequentaram as escolas da Missões Católicas em Maubara, em Manatuto, em Ainaro, conforme os postos administrativos em que o pai ia sendo colocado. Nessas escolas, as aulas eram ministradas em tétum, por missionários, que, na mesma língua, proferiam as homilias das missas, então ditas em latim. E os meninos, portugueses e timorenses, brincavam juntos a todos os jogos que conheciam no mais perfeito entendimento. A bisavó Inês, embora tivesse sido educada numa escola de inspiração anglicana, assistiu durante todos estes anos às Missas rezadas nas Missões Católicas, com todo o respeito e fervor. O vosso Vôvô conta que a única coisa diferente que a viu fazer foi ela, com uma pronunciada vénia,  pôr a mão direita na testa, sobre os olhos e em forma de pala, sempre que na missa se rezava o Pai-nosso, o Padre-nosso como naquele tempo se dizia.

 

         Chegou a altura em que o filho mais velho, o Vôvô claro, para poder frequentar o ensino secundário, que então acabara de ser criado em Timor, teve de deixar a casa paterna numa daquelas localidades e ir viver com a família dum amigo do Pai, em Dili, a capital. A adaptação foi difícil mas, em breve, as cartas para os Pais traziam notícias de bom aproveitamento, de integração no novo meio e de entusiasmo pelos novos amigos. Ele agora até costuma dizer, por graça, que foi um dos fundadores do ensino liceal em Timor! 

 

        Até que… Até que a Segunda Guerra Mundial se ia aproximando de Timor e o Pai, que se livrara da Primeira, trocando a França por Timor, resolveu, em 1939, trazer a família para a segurança da sua pacífica cidade natal, que deixara há vários e ininterruptos anos, no gozo da sua primeira licença graciosa, como então era designada. A vossa bisavó Inês esteve assim nada menos do que 14 anos seguidos sem voltar à terra que a viu nascer e a todos os seus familiares, principalmente a sua mãe Casimira, que encontrou já muito velhinha. O Vôvô e os seus três irmãos viram Portugal pela primeira vez já muito crescidos!

 

        A longa viagem de regresso, em vários navios de bandeira holandesa, que então dominava a região, foi um nunca mais acabar de aventuras para os quatro rapazes: de barco em barco, escalando vários portos em várias ilhas daquelas paragens orientais até chegarem a Batávia, a capital, hoje Jakarta. Aqui os pais adoeceram, com certa gravidade, principalmente a vossa bisavó, tendo-lhes valido a grande ajuda do cônsul honorário português, que curiosamente se chamava Remédios.

 

        O Sr. Remédios foi incansável e tudo fez até colocá-los num grande paquete holandês directo para a Europa, o "Indrapura", cujo destino era Génova e depois Lisboa. Foi uma viagem longa e sem incidentes, pois os pais haviam recuperado a saúde. Foi neste navio que os rapazes viram pela primeira vez na sua vida cinema sonoro, que ainda não tinha chegado a Timor: o Robin Hood com Errol Flynn.

 

       Mas a guerra mundial aumentara de intensidade e esperava-se que a Itália nela entrasse ao lado dos nazis, o que veio a acontecer. A Holanda acabava de ser ocupada pelos nazis pelo que o navio holandês teve de regressar à procedência. Por isso, a partida  teve de ser transferida para Nápoles, e foi para esta cidade que tiveram de se dirigir por via-férrea, onde embarcaram, finalmente, noutro grande paquete, agora de nacionalidade italiana, o "Satúrnia", que os trouxe até Lisboa, donde seguiram para a cidade natal dos pais, onde conheceram pela primeira vez as avós e restantes parentes.

 

         Ao chegarem à sua cidade, instalaram-se numa casa arrendada, no Centro, e prosseguiram os seus estudos em escolas adequadas às suas diferentes vocações. E temperavam as saudades de Timor e dos seus amigos, com visitas ao monte da Avó Maria, onde encontraram as delícias de que, tanto e em tom saudoso, lhes falava a sua Mãe.

 

          Mas , terminada a licença graciosa, o Bisavô teve de regressar, sozinho, a Timor, para aí cumprir o tempo de serviço que lhe faltava para a reforma. Só que “o homem põe e Deus dispõe” e, em breve, Timor foi invadido pelos japoneses, o que causou inúmeras mortes e fugas para a Austrália. Mas José recusou abandonar Timor, mantendo-se fiel ao Governador da Colónia e foi dos que, com alguns outros portugueses, acabaram por ser encerrados num campo de concentração, durante quatro anos, sujeitos à disciplina e ao rigor desses lugares.

 

        Mas, também na Metrópole, reinava o mais completo desconhecimento do que, entretanto, ocorria em Timor. As famílias ignoravam se os seus parentes estavam vivos ou mortos, num sofrimento inexprimível.

 

        E assim se passaram quatro longos anos. Eram os duros anos da guerra, em que tudo escasseava e as famílias estavam dependentes das senhas de racionamento e da espera, em longas filas, para comprarem fosse o que fosse, pois tudo era essencial à sobrevivência.

 

       A Inês estava agora sozinha, com quatro filhos ainda menores a seu cargo e, ao fim de algum tempo, um mísero subsídio do Estado, que, mal imaginava, um dia seria obrigada a devolver. Valia-lhe um pouco a fartura do monte da sogra, donde lhe vinham as batatas, o azeite, produtos hortícolas e frutas da estação, bem como um ou outro animal de capoeira que lhes enriquecia algumas refeições. Mas era preciso vestir e calçar os quatro rapazes, de modo a que se apresentassem decentes nas escolas e pudessem ir, ainda que raramente, a uma sessão do único cinema da terra. E tudo isto ela conseguiu, com muita valentia, muita luta e luto no coração.

 

        Até que um dia feliz… Também há dias felizes ou, como diz o povo, “não há mal que sempre dure”, tiveram a notícia que justificava as esperanças sempre presentes nos seus corações: o Pai estava vivo e regressava com os restantes portugueses, libertos após a derrota do Japão, mas todos exaustos e muitos deles gravemente doentes. Foi assim que, numa consulta de oftalmologia, o Bisavô veio a saber que estava a ficar cego devido à diabetes que tantos anos de má nutrição lhe tinham provocado. E começou o longo calvário da dieta e da insulina diária…

 

       Conta o Vôvô que, quando na altura tinha quase vinte anos de idade e viu o Pai desembarcar em Lisboa, quase o não reconheceu,  tão magrinho ele se apresentava, com um fato muito largo que lhe deram quando foi libertado. E era o único bem que trazia... perdão, sob um braço transportava um pequeno embrulho. Era a Bandeira Nacional que durante quatro anos nunca deixou de estar hasteada no campo de concentração. Esta bandeira encontra-se hoje na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no Palácio do mesmo nome junto à Praça do Rossio de Lisboa, doada àquela Instituição pelo Vôvô em comovente cerimónia celebrada há alguns anos no salão nobre daquele palácio.

 

      Apesar de tantas tribulações a heroica Inês viveu, embora para o fim bastante doente, até uma idade avançada depois de ter visto partir o José e a Mãe centenária, de que desveladamente cuidara, na sua quase cegueira e outras limitações.

 

     Entretanto, viu os filhos casados e felizes e a chegada de seis netos, todos rapazes, que muito acarinhava.

 

     Há vidas assim: Aparentemente banais, apagadas, mas que escondem autênticas heroínas do quotidiano.

 

      Lisboa, 5 de Novembro de 2012

 

      Clementina Relvas                                        

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Quinta-feira, 11.12.08

Meus queridos netos:

 

Hoje cá está novamente o Vôvô a “meter a sua colherada na conversa”, como soe dizer-se, para vos contar mais uma das histórias por ele vividas. Numa carta anterior, dizia a Vóvó , por graça, que eu, ao contar estas pequenas histórias, gostava de as ornamentar com “um bocadinho de pó de arroz e algumas verduras para as tornar mais apelativas”… Nem sempre isso aconteceu e, principalmente, não vai acontecer nesta que agora vos escrevo, pois tudo quanto se segue é verdade, pura verdade.

 

Começo por falar da vossa Bisavó Inês, minha mãe, que nunca me canso de homenagear com os maiores elogios e saudade: Ela que, com 33 anos de idade, se meteu num navio com o meu pai e um bebé ao colo, de seis meses apenas, (o bebé era eu, como vocês já sabem!), a caminho de Timor, no já longínquo ano de 1926, e onde viriam a nascer os outros meus três irmãos, o vosso Tio Joaquim, já falecido, e que mereceu uma justa referência na carta anterior da Vóvó, e os Tios João e Zeca, graças a Deus de boa saúde. Não admira pois que tivesse passado por inúmeros sacrifícios, numa época em que tudo faltava com nefastas consequências na saúde e forças físicas, e em que uma viagem de barco de Lisboa até Timor chegava a demorar três e mais meses, com transbordos constantes, que ela estoicamente sempre suportou, com o afável auxílio do Bisavô, vindo a viver até aos 90 anos, (1893-1983). Quase no fim da vida, com as moléstias que a apoquentavam, por vezes falava na morte próxima como qualquer mortal. Então, dizia-lhe: “A Mãe não morre!”. Ela respondia ironicamente: “pois não…, se até o Papa morre!”.


Ora era precisamente aqui que eu queria chegar e já vão saber porquê.


Em 1978, eu e a Vóvó resolvemos realizar um dos sonhos da nossa vida: Visitar Roma e, obviamente, o Vaticano. Fomos integrados numa excursão organizada por uma ainda hoje conhecida Agência de Viagens, ficando instalados num bom hotel no centro da cidade. Do programa fazia parte uma ida à Praça de S. Pedro, no Vaticano. Era o dia 28 de Setembro de 1978 e calhava nesse dia o Papa dar a bênção à multidão, de uma das janelas dos seus aposentos, como é tradição. Porém, quando, ainda cedo, tomávamos o pequeno-almoço no hotel, ansiosos que chegasse o momento, surge repentinamente na sala a nossa Guia anunciando em voz alta: “Senhoras e senhores, a nossa ida ao Vaticano, agora, fica sem efeito, porque o Papa morreu esta noite” .


Nem queríamos acreditar no que estávamos a ouvir. Alguém até disse que estaríamos perante uma brincadeira de mau gosto. Como seria isso possível se o Papa era uma pessoa relativamente nova e tinha sido eleito há pouco tempo, há cerca de um mês, mais precisamente no dia 26 de Agosto de 1978?


Mas era verdade. Este acontecimento marcou indelevelmente aquela data e deixou o mundo boquiaberto. E o nosso pensamento, meu e da Vóvó, foi o de tomarmos, por nossa conta e risco, o caminho do Vaticano e, pela primeira vez, entrámos na bela e enorme Praça de S. Pedro. Uma considerável multidão se aglomerava já à porta dos aposentos privados do Papa. Mas quando disseram que nesse dia não havia mais visitas, e fecharam os portões, gerou-se uma confusão terrível. A multidão cada vez maior, empurrava para a frente sem dó nem piedade, de tal forma que a Vóvó por pouco não ficou esmagada contra um gradeamento metálico, donde saiu a custo com a minha ajuda e a de outros. Tivemos de desistir.


No dia seguinte, o corpo do Papa foi trasladado para a Basílica. Voltámos então ao local, onde uma longa fila se havia já formado alongando-se até ao fundo do extenso templo. Nela nos integrámos e, vagarosamente, passo a passo, fomos chegando até junto do catafalco, onde jazia João Paulo I. Quando passámos rente a ele, ainda tentei tirar duas fotografias que, dada a interdição do uso do flash, ficaram inutilizadas, com grande pena minha. Nessa altura, pude relembrar o dito da minha mãe, “até o Papa morre”, e este de uma forma tão inesperada que ainda hoje a sua morte gera vários tipos de polémica.


É que o cardeal Albino Luciani, patriarca de Veneza, um homem simples, nomeado Papa com grande surpresa sua, logo pensou governar a Igreja com simplicidade e humanidade, tal como um pároco em relação à sua Paróquia. De entrada escandalizou a Cúria ao recusar a cerimónia da coroação. Recusou também o trono baldaquino e a tradicional cadeira gestatória, na qual o Papa era transportado aos ombros de altos dignitários da Igreja. Escolheu um nome duplo, João Paulo, o que nunca havia acontecido na Igreja. E anunciou que preferia ser tratado por “Pastor” em vez de “Pontífice”. Disse que Deus não era só “o nosso Pai mas, mais do que isso, a nossa Mãe”. Num país machista como a Itália, a interpretação abusiva de que Deus era mulher, chegou a provocar debates sobre a existência desse quarto membro da Santíssima Trindade… E logo de início descobriu a existência de corrupção no Banco Vaticano, o que viria a ser confirmado depois da sua morte.

 

 

 

Ora estes factos não podiam deixar de causar grande estranheza entre os tradicionalistas da Santa Sé. No seu livro “Em Nome de Deus Os Trinta e Três Dias”, David Yallop, um seu biógrafo, começa por dizer: “Quando Albino Luciani abriu as janelas dos aposentos papais, vinte e quatro horas depois da sua eleição, o ar fresco e os raios de sol penetraram por uma Igreja Católica que se tornara cada vez mais escura e sombria durante os últimos anos de Paulo VI”.


Embora Albino Luciani tivesse, desde há muito, alguns problemas de saúde era, como digo atrás, um homem relativamente novo, em comparação com os anteriores Papas quando foram eleitos. E, para mais, o seu pontificado mal tinha começado. O infausto acontecimento não podia deixar de impressionar as pessoas e até suscitar as maiores controvérsias, que se avolumaram quando se soube que fora embalsamado sem ser autopsiado antes, e que alguns dos seus pertences pessoais haviam desaparecido, para não citar outros pormenores que os mais desconfiados lançaram na opinião pública.


A tese de assassinato até foi posta e ainda hoje há quem a defenda, citando profecias, desde Nostradamus até à portuguesa Irmã Lúcia, uma das videntes de Fátima. Mas nada está provado e o certo é que, a seguir, foi eleito um Papa não italiano, o polaco Cardeal Woityla que, em homenagem ao seu antecessor, escolheu o nome João Paulo II.


Na minha já longa vida, reinaram no Vaticano nada menos do que sete Papas dos quais o único que o Vôvô viu em pessoa foi João Paulo I, mas morto, por uma extraordinária coincidência! Por ele nutro uma profunda admiração e até veneração, sentimento este sem dúvida reforçado por ter estado um dia tão perto dele.


Não termino sem vos revelar que esta carta me foi sugerida por um filme há dias exibido na RTP1, denominado “Albino Luciani, o Papa Sorriso” que tanto eu como a Vóvó muito apreciámos. Trata-se de um filme italiano magnificamente realizado, muito equilibrado, parecendo-nos ter sido rodado, em muitas das suas cenas, no interior do Vaticano, nos aposentos então frequentados por João Paulo I. Até a escolha dos actores foi criteriosa, de semblantes muito semelhantes aos das personagens verdadeiras, principalmente o do Papa. Só não gostei da actriz escolhida para representar a Irmã Lúcia, uma mulher de aspecto exageradamente sofisticado mas de ar severo e até tenebroso, quando aparece a revelar as suas predições a Albino Luciani, ainda antes de ser Papa. Tão longe da verdadeira Irmã Lúcia, quando a víamos aparecer na Televisão com os seus óculos de aros muito grossos, sorridente e com um aspecto muito simples… Aliás a representação da Irmã Lúcia neste filme exerce, em todo ele, uma função importante que me pareceu algo exagerada.


Do filme foi feita uma gravação que fica ao vosso dispor no meu arquivo de DVD´s.


E hoje fico por aqui. Quem sabe se um dia destes não aparecerei aqui novamente para contar outra história vivida…

     O Papa Sorriso                         Como nós o vimos

                                Fotos retiradas da Net

 

Beijinhos do Vôvô


 


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Terça-feira, 06.05.08

 

 

Meus Queridos Netos:

           Quando regressámos a Portalegre, foi tempo de matarmos as muitas saudades dos nossos filhos e dos Bisavós. Distribuíram-se as prendas trazidas de França, sobretudo agasalhos para os miúdos e algumas guloseimas para todos. E chegaram, finalmente, os dias tranquilos, de recuperar energias. Aconchegados na casa paterna, saíamos uma ou outra vez para um almoço familiar alargado com os primos da Broa, à sombra das árvores de fruto que rodeavam o grande tanque, em cujas bordas a Tia Florinda cultivava as suas flores, com especial desvelo pelos manjericos, perfumados e resistentes durante longos meses e onde os pequenos se entretinham a fingir que pescavam ou que nadavam numa pequena altura de água e com a ajuda de duas improvisadas pranchas de 

               Nessa altura ainda tínhamos a companhia da vossa trisavó Casimira, com noventa e cinco anos, bastante lúcida mas já quase cega e que havia de falecer em vésperas de fazer cem anos. E a tarde corria mansa, com o primo Emílio e a Maria Deodata, sua mulher, em amena conversa com os restantes familiares e as suas duas filhas, a Zulmira e a Inês Maria entretidas com os primos, apesar da diferença das idades. Mais do que agora, o ar estava cheio de sons e de perfumes: chilreavam os passarinhos, zangarreavam os grilos e as cigarras, e o perfume dos manjericos, aliado ao das xaras e dos eucaliptos transformavam aquele canto da horta num pequeno Éden, em que todos nos sentíamos felizes e que muitas vezes relembrámos com saudades

                  Frequentemente dávamos grandes passeios pela Serra de S. Mamede, até Castelo de Vide ou apenas até à Penha, onde visitávamos a capelinha e apreciávamos a paisagem estendida a nossos pés até se perder de vista. Acompanhavam-nos os Bisavós, que assim aproveitavam para sair de casa, embora o Bisavô fosse todos os dias ao Café Alentejano, encontrar-se com o seu grupo de amigos, os catuas, como lhes chamava em língua tétum que tinha aprendido em Timor. Às vezes fazíamos piqueniques em sítios pitorescos e aí nos deliciávamos com o paio de lombo, os queijos da região e o saboroso pão alentejano. Não faltavam, também, algumas frutas da época e as deliciosas boleimas, com o seu recheio de maçã e o seu gostinho a açúcar meio caramelizado e a canela.

                  Quem fazia as compras, no mercado, era o Bisavô ou uma mulher de recados, a Senhora Adelina, mas quem sempre pontificou na cozinha era a Bisavó, que fazia deliciosas comidas regionais, um inesquecível caldo verde, cujas couves lhe levavam, a cortar, muito fininhas, uma grande parte da manhã e um cabrito no tacho que era de comer e chorar por mais. Não podia conceber que alguém invadisse os seus domínios e foi com muita relutância que me deixou fazer um bolo para um lanche, com a batedeira que, na melhor das intenções, eu tinha trazido de Luanda.

                 Daí em diante, todos os sábados íamos abastecer-nos de deliciosos doces regionais, feitos pelas irmãs Martelas. Eu só tinha pena do Bisavô que, sofrendo de diabetes, tinha de se contentar com uma espécie de pitas, feitas de massa e azeite e sem pitada de açúcar. E contentava, pois, dotado duma grande força de vontade, nunca se deixou tentar pelas guloseimas.

               Mitigadas as saudades, resolvemos ir dar um passeio, o Vôvô e eu, por alguns sítios pitorescos ao Norte de Lisboa. Já se começava a sentir o Inverno mas, apesar disso, fomos aproveitando a proximidade ou a presença do mar: ficámos numa Residencial na Ericeira, onde, ao jantar e ao serão, junto à lareira, éramos os únicos hóspedes; em Santa Cruz, estive em risco de ser levada por uma onda, junto da rocha que ali faz uma espécie de arco e que eu quis ver mais de perto; em Peniche, mirámos ao longe as Berlengas, de que estávamos afastados por ondulação que nenhum pescador quis arrostar.

              Regressámos a casa retemperados e por lá nos ficámos durante todo o Inverno, fazendo pequenos passeios e uma ou outra deslocação a Lisboa, uma das vezes com os pequenos e a sua ama, a Alice. Ficámos instalados na Casa de Santa Zita, à Estrela, num ambiente familiar. Fomos, com os três, visitar alguns monumentos mais emblemáticos de Lisboa: o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e, claro, o Jardim Zoológico. Não nos alargámos mais porque eles ainda eram muito pequenos e não conseguiriam reter muita informação.

                Deixámo-los novamente em Portalegre e partimos num outro passeio, desta vez no Algarve: S Brás de Alportel, Faro, Loulé, e por aí fora até à Pousada do Infante, em Sagres, cuja paisagem muito nos impressioou.

                  Em Portalegre recebemos a visita do Gilbert, da Milú e dos seus Pais e também das pequenas Marie, minha afilhada e Jeanne e com eles percorremos os arredores: Castelo de Vide e Marvão, cujo castelo encantou os quatro miúdos, que até foram autorizados a brincar com umas velhas espingardas e uns capacetes do Museu.

                 O fim das férias aproximava-se a passos largos, apesar das prorrogações que, por mais do que uma vez, nos tinham sido concedidas pela Junta Médica que via a necessidade de recuperarmos duma demasiado longa permanência, seguida, em clima tropical.

                E assim regressámos a Luanda, de novo no Infante Dom Henrique, com mais saúde e felizes pelo tempo passado com familiares e amigos, em vários pontos de Portugal.                

 

                                   Até à próxima carta. Beijinhos da Vóvó

                       

           

publicado por clay às 11:04 | link do post | comentar | favorito
Domingo, 11.11.07

 

         Meus queridos netos:

 

         Fala-se agora muito de emigrantes – os que saem de Portugal para irem tentar a sorte lá fora – e talvez ainda mais de imigrantes – os que deixam os seus países, em qualquer parte do mundo, e vêm para Portugal a fazer ou refazer as suas vidas.

 

         Mas que foi o nosso país senão um país de permanente emigração? Não vou falar de tempos remotos, em que, sobretudo com os Descobrimentos, os nossos homens corajosos e aventureiros, partiram a conhecer e a dar a conhecer o mundo e muitos por lá ficaram, uns vivos e outros mortos. Depois das Descobertas, a maior parte destas terras receberam portugueses que aí se estabeleceram para ganhar honras e riquezas ou para levar aos povos que lá viviam o conhecimento de Deus e dos seus mandamentos. Dos últimos, os missionários, alguns alcançaram um lugar cimeiro nas letras como o Padre António Vieira com os seus sermões e Cartas. Outros elevaram-se a cumes ainda mais altos, como S. Francisco Xavier, que, embora sendo espanhol, foi nas terras portuguesas do Oriente que, em língua portuguesa deixou as sementes de Fé e de civilização, num rastro que ainda hoje perdura, fruto de trabalho exaustivo e de total dedicação aos outros, o que lhe mereceu figurar na lista dos grandes Santos.

 

         Mas, sem deixarmos de os admirar e de lhes estar gratos, voltemo-nos para tempos mais recentes, para os brasileiros de torna-viagem  que assim se chamou aos portugueses que, no século XIX, deixaram as suas aldeias e os seus familiares e partiram para o Brasil, donde depois regressaram, uns ostentando o seu sucesso e a sua riqueza, outros tão pobres como daqui tinham partido apesar de terem travado duras lutas, contra o meio, a doença, as saudades.

 

         Se quiserem conhecer mais a fundo quanto acabo de narrar, leiam Camilo Castelo Branco, em cujos romances encontramos, a cada passo, brasileiros regressados à terra, não só para casarem, graças ao seu dinheiro, com raparigas mais novas, mas também alguns deles para fundarem obras de carácter social. Leiam também a Selva de Ferreira de Castro, onde encontrarão um rapazinho – ele próprio – que, aos doze anos, emigrou para o Brasil e aí conheceu a vida nos seringais e outros infernos.

 

         Por mim, vou-me cingir à nossa família que também contou com muitos emigrantes para o Brasil e, mais tarde para África, sobretudo para Angola e Moçambique.

 

         E que fomos nós, o Vôvô e eu, senão emigrantes em Angola? Só não nos consideravam assim por uma questão política: tinha-se legislado que Portugal era, não só o território europeu, mas também as terras sob nossa administração além-mar, ou seja, como então se dizia, “de Minho a Timor”, ultimamente designadas províncias ultramarinas e antes colónias.

Na estrutura do Governo, entre os vários ministérios, havia o Ministério das Colónias que depois passou a denominar-se Ministério do Ultramar.

 

         E que foi o vosso Bisavô José Relvas em Timor, para onde levou mulher e um filho, o Vôvô, quase acabado de nascer? Aí sofreu os tormentos de viver quatro anos, ele e centenas de outros portugueses, num campo de concentração nipónico, já com a família a salvo em Portugal, a qual durante aquele tempo todo nem sabia se ele estava vivo ou morto, por completa falta de notícias. Não se lhe chamava emigrante porque ele era militar e tinha sido chamado para uma missão de soberania. Mas foi longe da Pátria que lhe nasceram e se criaram os quatro filhos, o mais velho dos quais, o Vôvô, embarcou para lá com menos de um ano de idade e regressou já quando tinha cerca de quinze.

 

         Mas voltemos aos brasileiros de torna-viagem. Dos primeiros que tenho notícias na família é dos meus avós paternos, Manuel Curato e Sebastiana. Não sei nada do que foi a vida deles no Brasil, nem onde estiveram, porque no tempo em que os conheci estes assuntos ainda não me interessavam. Mas, na grande casa deles, respirava-se Brasil por todos os lados: eram as grandes malas de cabedal, enfeitadas com tachas de metal  ou baús de couro com os mesmo enfeites, era uma secretária de mogno, de harmónio, cheia de gavetinhas que suscitavam a minha constante curiosidade; era uma mesa de jogo de pé de galo, delicadamente torneado mas que, com os anos, não resistiu ao caruncho; era uma mesa, enorme, também de madeira exótica, onde em dias de festa a família – tiveram e criaram dez filhos – se reunia e onde recebiam convidados e, finalmente, um pequeno toucador também de pés torneados e com espelho oval, a única que me coube, e que ainda hoje, religiosamente guardado por mim, é a peça de mobiliário que mais estimo. Vocês conhecem-la bem quando cá vêm a casa:

                                      

                 Dizia eu que pouco sei das vidas deles como emigrantes, mas recordo-me de me ter contado um dia a minha Avó que, quando chegaram a Lisboa, traziam numa mala a quantidade de libras de ouro suficientes para comprarem uma boa propriedade na zona do Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa,. Mas nem o facto de aí viver um irmão que, viria a ter dezoito filhos, e a vontade da minha Avó o dissuadiram de regressarem à nossa aldeia e aí investirem esse dinheiro em propriedades que, numa aldeia tão pobre, fizeram deles as pessoas mais abastadas. Quando contava este caso, a minha Avó rematava-o sempre com o provérbio: “Desgraçado passarinho que nasce em ruim ninho.”.

 

         Tinham uma casa muito grande e com uma estranha estrutura: uma entrada de carros da rua para o quintal, passando por baixo das salas; uma divisão, uma espécie de cave; onde se preparava o pão e que nos servia de esconderijo nas brincadeiras; uma cozinha e um forno anexos à casa e, no vasto quintal, a pocilga, a capoeira e muitas árvores de fruto, em particular uma imponente nogueira que resistiu valentemente ao ciclone de Fevereiro de1941. E, numa das lojas, como era uso, o cavalo.

 

         Apesar de terem tantos filhos, viviam confortavelmente e, a certa altura, o meu Avô até achou reunir condições para comprar uma grande quinta, do outro lado do rio. Tinha sido um convento pelo que ficou conhecida por Convento das Águias e hoje é uma importante casa  vinícola na posse de estrangeiros. Mas quando o meu Avô se preparava para fechar o negócio, não sei por que forças de interesses familiares ou outros do proprietário, este morreu envenenado e o negócio gorou-se.

 

         Quanto ao meu Pai que, como eles, tentou a sua sorte no Brasil, também regressou à terra de mãos quase vazias. Convidado para uma loja maçónica, não lhe agradaram os rituais de iniciação e abandonou a cerimónia de investidura a meio, o que lhe valeu inimizades e perseguições que, certamente, não ajudaram o seu sucesso.

        

       Para Angola, emigraram muitos dos meus familiares, entre os quais cinco dos filhos do meu Avô. Só um enriqueceu numa fazenda de tabaco mas a vida de cada um deles – como a de qualquer pessoa – dava para escrever um romance sem ser preciso inventar muitas peripécias.

 

         Mas não tendo eu estofo de escritora, limito-me a deixar nestas cartas notícias do que foi a vida da nossa família nas gerações mais próximas e, sempre que vem a talho de foice, a fazer o paralelo entre os tempos que foram e os que são hoje.

 

         Até à próxima e beijinhos.

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publicado por clay às 18:54 | link do post | comentar | favorito
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