Nunca pensei que os "olhos do meu coração, no dizer de S. Paulo, revelassem pormenores por mim julgados completamente esquecidos...
Segunda-feira, 08.06.09

 

                   

 

 

 

Meus queridos netos:


É esta a terceira vez que vimos a Roma, mas são tantas e tão importantes as maravilhas que esta cidade tem para mostrar, que muito ficará ainda por conhecer: por exemplo as catacumbas, testemunho do que foi a vida dos primeiros cristãos nesta cidade e que sempre desejei visitar. Mas, desta vez, acompanha-nos a lembrança de S. Paulo que, depois dos meses passados em Malta e alguns dias em Puzzuoli, se dirige a Roma pela via Ápia para, como cidadão romano, ser julgado pelas autoridades imperiais. Aí se integra na comunidade judaica, ficando a viver numa casa que lhe é atribuída, embora sempre guardado por um soldado romano. Continua a fazer a sua evangelização, mesmo nas condições adversas do julgamento e parece ter sido decapitado mais tarde no sítio das Tre Fontane, como referirei mais adiante.


Ficámos instalados no hotel Michelangelo que, além dum certo requinte (mobílias lacadas, bom quarto com óptima casa de banho, ampla sala de jantar e boa comida), tem a vantagem de ficar muito perto do Vaticano, de tal modo que, das janelas dalguns quartos se via, ali ao pé, a cúpula da Basílica de S. Pedro.


Depois duma visita panorâmica da cidade, em que revimos os Foros, o Coliseu, o Arco de Triunfo de Constantino, o Circo Máximo, as sete colinas romanas, nomeadamente a do Palatino, o rio Tibre com o forte de Santo Ângelo e a Ilha Tiberina, (onde agora funciona um Hospital) e outros sítios históricos, dirigimo-nos para o Vaticano. A visita começou pelo “cemitério” dos Papas, cripta onde se encontra a maioria dos túmulos papais até João Paulo II. Há outras criptas mais antigas como a catacumba de S. Calixto, onde estão sepultados nove papas até ao séc. IV. Este amplo corredor, com monumentos funerários de ambos os lados, vai dar a umas escadas que levam directamente à Capela Sistina, célebre não só pela decoração, como pelo facto de ser aí que têm lugar os conclaves, as reuniões dos cardeais que, de porta fechada à chave (cum clave), elegem cada novo Papa.


A Capela ergue-se no lugar em que existiu, no séc. XIII, uma “Cappella magna”, que funcionava como capela palatina. Depois de várias transformações, chegou-se à actual, uma grande sala rectangular com 40,93m de comprimento, 13,41m de largura e 20,70m de altura, as dimensões atribuídas pela Bíblia ao Templo de Salomão. Foi reconstruída no séc. XV e, em 1481 já artistas célebres como Peruggino, Boticcelli, Ghirlandaio e outros teriam executado alguns frescos da Capela. Mas foi Miguel Ângelo que, por incumbência do Papa Sisto IV, modificou profundamente o espaço, criando um universo de imagens incomparáveis, que ele executou durante quatro anos (1508 a 1512), deitado numa estrutura suspensa, para que as cerimónias religiosas pudessem continuar a realizar-se. Foi bastante mais tarde, em Abril de 1535, no pontificado de Paulo III, que Miguel Ângelo começou a pintar o Juízo Final, que ocupa toda a parede sobre o altar. É impossível dar uma ideia, ainda que pálida, da beleza, da riqueza de significados e simbolismos saídos do conhecimento e do talento de tais génios, mas posso dizer que desta vez, após a restauração a que as pinturas foram submetidas, entre l964 e 1994, maior foi ainda o meu fascínio e a minha emoção.


Assim, entrámos pela parte detrás da Basílica, o que me parece criar um menor impacto. A Basílica de S. Pedro é, actualmente, a segunda maior do mundo, depois da recente construção, na Costa do Marfim, da Basílica de Yamoussoucros, uma igreja católica romana (1985-1989), inspirada na Basílica de S. Pedro no Vaticano e consagrada, em1990, pelo Papa João Paulo II.


Segundo a tradição, a Basílica de S. Pedro está localizada no lugar exacto onde S. Pedro foi crucificado, por ordem de Nero, que aí mandou construir, depois, um circo romano. Sobre as ruínas deste foi erguida uma grande Igreja, no tempo de Constantino (326), que foi substituída pela actual Basílica, construída, de 1506 a 1526, sob o pontificado de Sisto IV, segundo o genial projecto de Miguel Ângelo e a supervisão do arquitecto Bramante.


Das inúmeras obras de arte que podemos contemplar na Basílica, destaca-se o enorme baldaquino de bronze, assente sobre quatro sólidas colunas também de bronze e em espiral, que protege o altar papal, por cima da cripta de S. Pedro; numa capela lateral, em grande relevo mas protegida por vidro à prova de bala, a magnífica escultura da Pietà, de Miguel Ângelo, a rígida estátua de bronze de S. Pedro, e inúmeras estátuas de santos, bem como monumentos funerários, entre eles o do Papa Júlio II que Miguel Ângelo não conseguiu terminar.


Depois do almoço, num restaurante próximo, decorado ao estilo clássico, fomos visitar, na via Acque Salvie, a Igreja de S. Paulo das Tre Fontane, erigida no local onde S. Paulo foi degolado, por ordem de Nero. Diz a tradição que a cabeça, ao separar-se do corpo, saltou e embateu na terra em três lugares diferentes, donde brotaram três fontes que ainda hoje correm. Encontram-se dentro do Santuário, do lado esquerdo, em pequenas grutas vedadas e encimadas pela representação da cabeça do Santo, em bronze. A Igreja de S. Paulo insere-se num complexo de mais duas, todas à guarda dos monges beneditinos. Fica já nos arredores de Roma, na zona em que Mussolini mandou construir, a partir de 1935, uma área comercial e de serviços, o Eur, onde se realizou a Exposição Universal de Roma e tiveram lugar os Jogos Olímpicos, em 1960. Da arquitectura, maciça, do fascismo, destaca-se um enorme prédio de andares, que foi chamado o Coliseu Quadrado, implantado na praça com esse nome.


Depois desta visita, onde assistimos à Santa Missa, diariamente celebrada pelo nosso prior, dirigimo-nos para Santa Maria Maior, uma Basílica esplendorosa, de que falarei na próxima carta.


Beijinhos dos Vóvós

 


                                 Capela Sistina

                                 Primeiro túmulo de João Paulo II

                           Basílica de S. Paulo Extramuros

                                         À hora do almoço...

 

 

publicado por clay às 21:08 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 04.03.09

Meus queridos netos:


Preenchendo a vaga da Vóvó, enquanto ela descansa e busca nos mais recônditos cantinhos da sua memória belas histórias por ela vividas que certamente vos irá contar em próximas cartas, aqui estou eu, o Vôvô, para mais uma pequena conversa convosco.

 

Numa carta anterior falei, com muita ternura e saudade, da vossa Bisavó Inês, minha mãe, a propósito da morte do Papa João Paulo I. Hoje, também por me lembrar dela, vou falar-vos de outro grande vulto da Igreja. E porquê? dirão vocês. É o que vão saber um pouco mais adiante.

 

A vossa Bisavó Inês, embora crente, não era pessoa muito frequentadora da Igreja. Ela, lembro-me bem, contava que, quando ainda era novinha, frequentou a creche da fábrica onde a mãe dela trabalhava, a minha avó Casimira, e foi ali que aprendeu a ler e a escrever muito bem. Como a referida fábrica era dos ingleses, a religião praticada era a anglicana e, antes de as aulas começarem, rezavam sempre o Pai Nosso, fazendo uma vénia e apoiando a testa na mão direita, absorvendo-se na oração. Mais tarde, já mulher e casada com o meu Pai, partiu para Timor comigo ao colo, como já vos contei. E lá, quando calhava, ia assistir às missas católicas onde se mantinha sempre muito séria e silenciosa mas, quando se rezava o Pai Nosso, levava a mão à testa e inclinava-se para a frente tal como fazia quando era pequenina! Nós, eu e meus irmãos, só começámos a estranhar este lindo gesto dela quando chegou a altura de frequentarmos a catequese da Missão Católica, pois ali nunca nos ensinaram a proceder daquele modo. Mais tarde, com os anos, ela foi perdendo o hábito.

 

Naqueles tempos já recuados (anos trinta do século XX), Timor ainda fazia parte da Diocese de Macau, lá longe junto à China. Só em 1941 foi criada a Diocese de Dili, capital de Timor, com Bispo próprio. Portanto, as visitas pastorais do Bispo de Macau a Timor eram muito espaçadas devido à distância pelo que, quando se realizavam, constituíam sempre um acontecimento notável, a quebrar a rotina do dia-a-dia timorense.

 

Era então Bispo de Macau e Timor, D. José da Costa Nunes. Parece que ainda o estou a ver, com a sua barbicha e óculos de aros dourados, sempre com um sorriso nos lábios. Para um labárak (garoto em linguagem tétum) da minha idade, isolado no meio daquelas grandes e muitas vezes enevoadas montanhas de Timor, a novidade de tal personagem não podia deixar de impressionar. Foi ele quem me deu o sacramento do crisma. Quando estava na fila para o receber, o rapaz timorense à minha frente, ao chegar a vez dele, talvez um pouco intimidado, não se aproximou do Bispo o suficiente para ele lhe tocar na cara. Então D. José disse-lhe: “Ó rapaz, aproxima-te mais de mim, julgas que o meu braço é o Ramelau?” Ramelau é o monte mais alto de Timor, com cerca de 3.000 metros! Oh, como eu me lembro tão bem destas coisas tão antigas e me esqueço de outras tão recentes! Mas não se aflijam, porque é normal em pessoas da minha idade.

 

D. José da Costa Nunes era filho de um casal de agricultores modestos da ilha do Pico, Açores. Ingressou na vida religiosa onde viria a atingir uma altíssima posição. De facto, muito novo, foi nomeado Bispo de Macau, cuja diocese abrangia vasta área da Ásia, como a região sudoeste da China, Singapura, Malaca, etc. e Timor, como já disse atrás. Mais tarde, como Arcebispo, foi-lhe conferido o título de Patriarca das Índias Orientais, com sede em Goa, cargo que deixou alguns anos depois para ingressar como vice-camerlengo da Cúria Romana, dignidade muito importante no Vaticano. Acabou por aceder ao cardinalato no tempo do Papa João XXIII. Como Cardeal, participou no célebre Concílio Vaticano II, onde teve papel de grande relevo e fez parte do conclave que elegeu o Papa Paulo VI. Ele próprio até podia ser eleito Papa. Até à sua morte, em 1976, com 96 anos de idade, foi uma figura muito importante da Igreja católica romana, da qual os açorianos muito se orgulham, homenageado em vários pontos do país e até do Oriente, com escolas, lares, bustos, com o seu nome e outros memoriais. Está sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma.

 

Nas suas visitas a Timor, percorria a antiga colónia portuguesa de lés a lés, o que naquele tempo não era fácil, pois as vias de comunicação eram quase inexistentes. As deslocações faziam-se em regra a cavalo, nos célebres cavalinhos timorenses (os Kudas), por montanhas que então me pareciam enormes com vales profundos, por caminhos pedregosos que só estes animais aguentavam, embora nem fossem ferrados. Apesar de o país não ser grande, as viagens por vezes demoravam dias.

 

E foi assim que certo dia o nosso Bispo chegou a Maubara, locali-dade a cerca de 80 quilómetros a oeste de Dili, na costa Norte do país, onde o vosso Bisavô, embora fosse militar, desempenhava funções de autoridade civil daquela zona (Chefe de Posto). Maubara era a sede do Posto com o mesmo nome e resumia-se a várias casas de comércio, todas chinesas, e à casa do Chefe de Posto, um casarão de estilo colonial, com larga varanda a toda à volta, coberta a chapas de zinco, como quase todas as casas do Timor daquele tempo. Ficava situada num ponto alto muito (bárak) arborizado com uma soberba vista para o mar (táci) e praia ao redor da qual ficavam as casas dos chineses. Como não existia ali Missão Católica (apenas uma igreja bastante frequentada pela população timorense) e muito menos um Hotel, o Bispo iria pernoitar na casa do Chefe de Posto, a casa dos vossos Bisavós, claro, como era tradição.

 

Ora é aqui que entra a Bisavó Inês e era aqui que eu queria chegar, depois deste palavreado todo.

 

Receber em casa hóspede tão ilustre era uma honra e um grande prazer para os Bisavós. Por tal motivo os preparativos, para o receber com a dignidade que se impunha, começaram bem cedo. A vossa Bisavó, como boa dona de casa e esposa e mãe extremosa que sempre foi, não consentiu que ficassem por mãos alheias os seus créditos, e foi ela própria que tratou de tudo: as refeições, as sobremesas e, principalmente, o alojamento. E foi assim que preparou com o máximo esmero o melhor quarto da casa, com uma cama digna de um Bispo, com os seus melhores lençóis de desfiados (bordado típico timorense).

 

D. José foi recebido em triunfo pela população e depois recolheu a nossa casa, onde jantou, conversou, e encantou, principalmente os labáraks (eu e meus irmãos mais pequenos). Quando se aproximava a hora de recolher aos seus aposentos, surgiu na sala o criado do Bispo, que sempre o acompanhava, ainda me lembro bem, um chinês que eu achava muito parecido com o “china-padeiro” lá da terra que era quem fabricava e nos fornecia o pão. O homem, cheio de vénias, chegou-se ao pé de D. José e segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido. O Bispo ficou muito sério durante algum tempo, olhou para meus pais mas depois fez um pequeno sorriso. O que seria?

 

Bem, não vou perder mais tempo com o que se passou logo a seguir àquele instante. Apenas direi que, passado um bocado, a Bisavó Inês apressou o passo em direcção ao quarto que fora preparado para o Bispo e eu, sorrateiramente e cheio de curiosidade, fui atrás dela. Céus! Exclamou minha mãe. É que em plena colcha de seda, a melhor que havia em casa e cobria a cama do Bispo, estava a nossa gata a dar de mamar a três lindos gatinhos que ali mesmo, momentos antes, dera à luz! Logo na cama do Senhor Bispo, clamou minha mãe, muito perturbada . ..

 

Hoje, quando me lembro deste episódio, na altura tão dramático para a minha mãe, sorrio como também sorriu D. José, pois tudo se resolveu. Apenas lamento não me lembrar do nome da gatinha-mãe, mas recordo-me muito bem de como era: muito mansinha, nossa amiga e branca com malhas pretas, ou seria preta com malhas brancas? Ora esta!

 

Beijinhos do Vôvô

 

publicado por clay às 00:29 | link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
Quinta-feira, 11.12.08

Meus queridos netos:

 

Hoje cá está novamente o Vôvô a “meter a sua colherada na conversa”, como soe dizer-se, para vos contar mais uma das histórias por ele vividas. Numa carta anterior, dizia a Vóvó , por graça, que eu, ao contar estas pequenas histórias, gostava de as ornamentar com “um bocadinho de pó de arroz e algumas verduras para as tornar mais apelativas”… Nem sempre isso aconteceu e, principalmente, não vai acontecer nesta que agora vos escrevo, pois tudo quanto se segue é verdade, pura verdade.

 

Começo por falar da vossa Bisavó Inês, minha mãe, que nunca me canso de homenagear com os maiores elogios e saudade: Ela que, com 33 anos de idade, se meteu num navio com o meu pai e um bebé ao colo, de seis meses apenas, (o bebé era eu, como vocês já sabem!), a caminho de Timor, no já longínquo ano de 1926, e onde viriam a nascer os outros meus três irmãos, o vosso Tio Joaquim, já falecido, e que mereceu uma justa referência na carta anterior da Vóvó, e os Tios João e Zeca, graças a Deus de boa saúde. Não admira pois que tivesse passado por inúmeros sacrifícios, numa época em que tudo faltava com nefastas consequências na saúde e forças físicas, e em que uma viagem de barco de Lisboa até Timor chegava a demorar três e mais meses, com transbordos constantes, que ela estoicamente sempre suportou, com o afável auxílio do Bisavô, vindo a viver até aos 90 anos, (1893-1983). Quase no fim da vida, com as moléstias que a apoquentavam, por vezes falava na morte próxima como qualquer mortal. Então, dizia-lhe: “A Mãe não morre!”. Ela respondia ironicamente: “pois não…, se até o Papa morre!”.


Ora era precisamente aqui que eu queria chegar e já vão saber porquê.


Em 1978, eu e a Vóvó resolvemos realizar um dos sonhos da nossa vida: Visitar Roma e, obviamente, o Vaticano. Fomos integrados numa excursão organizada por uma ainda hoje conhecida Agência de Viagens, ficando instalados num bom hotel no centro da cidade. Do programa fazia parte uma ida à Praça de S. Pedro, no Vaticano. Era o dia 28 de Setembro de 1978 e calhava nesse dia o Papa dar a bênção à multidão, de uma das janelas dos seus aposentos, como é tradição. Porém, quando, ainda cedo, tomávamos o pequeno-almoço no hotel, ansiosos que chegasse o momento, surge repentinamente na sala a nossa Guia anunciando em voz alta: “Senhoras e senhores, a nossa ida ao Vaticano, agora, fica sem efeito, porque o Papa morreu esta noite” .


Nem queríamos acreditar no que estávamos a ouvir. Alguém até disse que estaríamos perante uma brincadeira de mau gosto. Como seria isso possível se o Papa era uma pessoa relativamente nova e tinha sido eleito há pouco tempo, há cerca de um mês, mais precisamente no dia 26 de Agosto de 1978?


Mas era verdade. Este acontecimento marcou indelevelmente aquela data e deixou o mundo boquiaberto. E o nosso pensamento, meu e da Vóvó, foi o de tomarmos, por nossa conta e risco, o caminho do Vaticano e, pela primeira vez, entrámos na bela e enorme Praça de S. Pedro. Uma considerável multidão se aglomerava já à porta dos aposentos privados do Papa. Mas quando disseram que nesse dia não havia mais visitas, e fecharam os portões, gerou-se uma confusão terrível. A multidão cada vez maior, empurrava para a frente sem dó nem piedade, de tal forma que a Vóvó por pouco não ficou esmagada contra um gradeamento metálico, donde saiu a custo com a minha ajuda e a de outros. Tivemos de desistir.


No dia seguinte, o corpo do Papa foi trasladado para a Basílica. Voltámos então ao local, onde uma longa fila se havia já formado alongando-se até ao fundo do extenso templo. Nela nos integrámos e, vagarosamente, passo a passo, fomos chegando até junto do catafalco, onde jazia João Paulo I. Quando passámos rente a ele, ainda tentei tirar duas fotografias que, dada a interdição do uso do flash, ficaram inutilizadas, com grande pena minha. Nessa altura, pude relembrar o dito da minha mãe, “até o Papa morre”, e este de uma forma tão inesperada que ainda hoje a sua morte gera vários tipos de polémica.


É que o cardeal Albino Luciani, patriarca de Veneza, um homem simples, nomeado Papa com grande surpresa sua, logo pensou governar a Igreja com simplicidade e humanidade, tal como um pároco em relação à sua Paróquia. De entrada escandalizou a Cúria ao recusar a cerimónia da coroação. Recusou também o trono baldaquino e a tradicional cadeira gestatória, na qual o Papa era transportado aos ombros de altos dignitários da Igreja. Escolheu um nome duplo, João Paulo, o que nunca havia acontecido na Igreja. E anunciou que preferia ser tratado por “Pastor” em vez de “Pontífice”. Disse que Deus não era só “o nosso Pai mas, mais do que isso, a nossa Mãe”. Num país machista como a Itália, a interpretação abusiva de que Deus era mulher, chegou a provocar debates sobre a existência desse quarto membro da Santíssima Trindade… E logo de início descobriu a existência de corrupção no Banco Vaticano, o que viria a ser confirmado depois da sua morte.

 

 

 

Ora estes factos não podiam deixar de causar grande estranheza entre os tradicionalistas da Santa Sé. No seu livro “Em Nome de Deus Os Trinta e Três Dias”, David Yallop, um seu biógrafo, começa por dizer: “Quando Albino Luciani abriu as janelas dos aposentos papais, vinte e quatro horas depois da sua eleição, o ar fresco e os raios de sol penetraram por uma Igreja Católica que se tornara cada vez mais escura e sombria durante os últimos anos de Paulo VI”.


Embora Albino Luciani tivesse, desde há muito, alguns problemas de saúde era, como digo atrás, um homem relativamente novo, em comparação com os anteriores Papas quando foram eleitos. E, para mais, o seu pontificado mal tinha começado. O infausto acontecimento não podia deixar de impressionar as pessoas e até suscitar as maiores controvérsias, que se avolumaram quando se soube que fora embalsamado sem ser autopsiado antes, e que alguns dos seus pertences pessoais haviam desaparecido, para não citar outros pormenores que os mais desconfiados lançaram na opinião pública.


A tese de assassinato até foi posta e ainda hoje há quem a defenda, citando profecias, desde Nostradamus até à portuguesa Irmã Lúcia, uma das videntes de Fátima. Mas nada está provado e o certo é que, a seguir, foi eleito um Papa não italiano, o polaco Cardeal Woityla que, em homenagem ao seu antecessor, escolheu o nome João Paulo II.


Na minha já longa vida, reinaram no Vaticano nada menos do que sete Papas dos quais o único que o Vôvô viu em pessoa foi João Paulo I, mas morto, por uma extraordinária coincidência! Por ele nutro uma profunda admiração e até veneração, sentimento este sem dúvida reforçado por ter estado um dia tão perto dele.


Não termino sem vos revelar que esta carta me foi sugerida por um filme há dias exibido na RTP1, denominado “Albino Luciani, o Papa Sorriso” que tanto eu como a Vóvó muito apreciámos. Trata-se de um filme italiano magnificamente realizado, muito equilibrado, parecendo-nos ter sido rodado, em muitas das suas cenas, no interior do Vaticano, nos aposentos então frequentados por João Paulo I. Até a escolha dos actores foi criteriosa, de semblantes muito semelhantes aos das personagens verdadeiras, principalmente o do Papa. Só não gostei da actriz escolhida para representar a Irmã Lúcia, uma mulher de aspecto exageradamente sofisticado mas de ar severo e até tenebroso, quando aparece a revelar as suas predições a Albino Luciani, ainda antes de ser Papa. Tão longe da verdadeira Irmã Lúcia, quando a víamos aparecer na Televisão com os seus óculos de aros muito grossos, sorridente e com um aspecto muito simples… Aliás a representação da Irmã Lúcia neste filme exerce, em todo ele, uma função importante que me pareceu algo exagerada.


Do filme foi feita uma gravação que fica ao vosso dispor no meu arquivo de DVD´s.


E hoje fico por aqui. Quem sabe se um dia destes não aparecerei aqui novamente para contar outra história vivida…

     O Papa Sorriso                         Como nós o vimos

                                Fotos retiradas da Net

 

Beijinhos do Vôvô


 


publicado por clay às 15:32 | link do post | comentar | favorito
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